
 Um amor eterno
  A husband in time
  Maggie Shayne
  Familia Fortune 7

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


   Zach chega at Jane Fortune vindo sem saber de onde nem quem era. Mas Cody, o filho pequeno de Jane, logo resolve a situao: o escolhe para ser o pai que sempre
desejou! At mesmo Jane no podia negar que Zach era estranhamente familiar, alm de ser o marido com quem sempre sonhou.
   S que Jane descobre que somente uma grande mudana poderia manter aquela famlia unida para sempre...

   O Dirio de Kate Fortune

   Aquela velha casa de madeira na Nova Inglaterra guarda recordaes muito especiais.
   Estou muito contente que minha neta Jane e seu filho, Cody, estejam fazendo bom uso dela. Eles passaram por momentos difceis. Quando o pai de Cody a abandonou
antes de o filho nascer, eu sabia que o caminho deles seria rduo. Mas a famlia sempre a apoiou. Agora, espero que a magia da casa a envolva. E que finalmente descubra
o verdadeiro amor...






   JANE FORTUNE: Me solteira que secretamente sonha em encontrar um marido e um pai para seu filho de dez anos. Quase perdeu sua esperana at que um homem misterioso
apareceu em sua vida vindo do nada...
   ZACH BOLTON: Ele no  capaz de explicar quem  ou de onde veio. Sente-se em casa com Jane e seu filho, mas poder ficar com eles para sempre?
   MONICA MALONE: Agora  a acionista majoritria da Cosmticos Fortune. Que outras maldades far para conseguir o restante da riqueza da famlia?
   JAKE FORTUNE: O homem que mais trabalha na famlia est escondendo um grave segredo. Estaria ele mancomunado com Mnica? Quando seu segredo for descoberto, o
imprio dos Fortune pode desabar...
   NATALIE FORTUNE: Uma professora de bom corao.  possvel que a casa de fazenda e o So Bernardo herdados da av a levem para um excitante romance como sempre
sonhou?





   Captulo 1

   4 de agosto de 1897

   O menino Benjamin Bolton, de seis anos, descansava recostado em uma pilha de travesseiros em seu quarto, o primeiro  esquerda no andar de cima. No podia sair
da cama com muita freqncia, no sem a ajuda do pai. Mas ele havia virado a cama para a janela e aberto as cortinas para que Ben pudesse ver o cu enquanto estivesse
deitado. E hoje, enquanto apreciava o cu noturno, viu uma estrela cadente... E outra, e depois outra. Cortaram aquele cu azul-escuro, deixando um rastro branco,
e apesar de no ser nada cientfico, Ben fechou os olhos e desejou com toda a sua fora.
   - Trs estrelas cadentes, trs pedidos para mim. Eu desejo... - Pensou bastante para certificar-se de pronunciar os desejos corretamente e no desperdi-los.
- Desejo ficar bom de novo para poder correr e brincar l fora e montar meu pnei e no morrer como todos acham que vou, apesar de no falarem.
   Puxou o ar e escutou o chiado que fazia ao alcanar seus enfraquecidos pulmes. A cabea doa. Sentia dores em todo o corpo e sentia-se exausto. Os olhos tentaram
se fechar, mas ele no deixou. Isso era importante e ainda tinha dois pedidos a fazer.
   - Desejo uma me. Uma me de verdade, que me ame, que leia para mim... E que no tenha medo de pererecas como a Sra. Haversham. - Sorriu depois de fazer o pedido,
pois tinha certeza de que falara certo.
   Benjamin apertou os olhos e fez o terceiro pedido, que sempre desejara:
   - Desejo um irmo mais velho. Prometo que nunca vou brigar nem implicar com ele. Quero que seja esperto, corajoso e forte, como meu pai. At posso dividir meu
pnei com ele.
   Ben abriu os olhos, olhando pela janela. No havia mais nenhum rastro das estrelas. Mas ele as vira. E agora um sentimento estranho e clido tomava conta dele,
como se fosse um grande cobertor de l. Sabia que tudo ficaria bem.

   4 de agosto de 1997

   Cody Fortune olhou por cima do laptop que ganhara da me no dcimo aniversrio, virando a cabea bem a tempo de ver trs estrelas cadentes cortarem o cu em direo
s estradas desertas e estreitas do Maine, avanando para a costa.
   - Uau - suspirou ele, esticando o pescoo para ver melhor. De todas as coisas que vira na viagem desde Minnesota, essa fora a mais inacreditvel. Trs de uma
vez. Isso no podia ser normal.
   - Voc viu, me?
   - O qu?
   - Trs estrelas cadentes, uma atrs da outra!
   Ela sorriu para o filho, tirando os olhos da estrada por apenas um segundo.
   - Ento por que voc no faz um pedido? Ou  muito ctico para isso?
   Cody era muito inteligente para acreditar em pedidos para estrelas cadentes. Mas sabia que a me no gostava de v-lo levar a vida com tanta seriedade, e um toque
de capricho o fez fechar os olhos e murmurar coisas que vinha pensando ultimamente.
   - Desejo ter um pai - disse ele baixinho. - E um irmo menor, porque  chato demais ser filho nico. Ns nos divertiramos muito juntos. E desejo... - Abriu os
olhos e fitou o cu. Sentiu lgrimas nos olhos, mas as enxugou depressa. - Desejo que a minha me seja feliz. Sei que ela no , e no consigo lembrar se algum dia
j foi.
   Abaixou a cabea, e a mo macia da me afagou seu cabelo.
   -  claro que sou feliz, Cody. Tenho voc e uma casa nova em uma cidade pequena como sempre sonhei. Do que mais preciso?
   Cody sorriu.  claro que ele sabia, mas nunca conseguira fazer com que admitisse que sua vida fosse menos do que perfeita.
   - Voc percebeu que eu acabei de fazer pedidos para trs pedaos de pedra queimada?
   - Voc foi at generoso em gastar um pedido inteiro comigo.
   Ele voltou sua ateno para o laptop. No foi to ruim se deixar levar por fantasias infantis. Era como a me sempre dizia, ele ainda era criana, mesmo tendo
o crebro de um fsico nuclear adulto.
   - Ento, pensou sobre o que lhe contei? - perguntou ele.
   - Sobre o qu, Cody?
   Quando passou o final de semana com os avs, ouvira algo por acaso que devia ser importante, mas sua me, como sempre, no podia ligar menos para os negcios
da famlia
   - Aquilo que escutei quando o vov me levou para trabalhar com ele, na semana passada. No lembra? Aquela bruxa da Mnica estava l e...
   - Cody, isso no  legal.
   - E da? Ela tambm no . De qualquer forma, ela estava tratando a tia Tracey muito mal. Disse que sabia de um segredo e que se Tracey e o namorado... Wayne
no fossem embora ela contaria a todos o segredo.
   - Eu no me preocuparia com isso, Cody. Todos sabemos que Mnica est tentando colocar as mos nos negcios. Provavelmente v a tia Tracey como uma rival.
   - , mas tia Tracey descobriu que  uma Fortune.
   - Se ela for uma Fortune, conseguir lidar com as ameaas de Mnica Malone. Este  apenas mais um exemplo do por que no quero tomar parte nos negcios da famlia.
Tanta briga e desavena para tomar conta deles. - Olhou pela janela para o contorno acidentado da costa. - Vai ser muito melhor aqui.
   Cody suspirou. Era intil conversar com ela sobre negcios. Simplesmente no ligava. Ele olhou para o oceano escuro e para as ondas brancas que estouravam na
areia, e pensou que talvez ela estivesse certa. Era realmente bonito aqui.
   - Ento, quanto ainda falta para chegarmos?
   - Eu acho... que esta ... Ah, Cody, esta  a casa. Olhe s!
   Cody olhou para a casa iluminada pelos faris do carro enquanto entravam na rua.
   - Parece que saiu de uma histria de Stephen King.
   - No  maravilhosa?
   Ele fez uma careta para o entusiasmo da me enquanto ela parava e desligava o carro.
   - Pensei que gostasse dos livros de Stephen King.
   - Gosto, mas no quero viver em um.
   Ela sorriu para ele, que olhou mais uma vez para a casa e congelou. Pelo canto do olho, ele viu uma luz na janela do andar de cima. Como de uma lanterna ou algo
parecido. A me j estava abrindo a porta do carro quando ele colocou a mo em seu brao e a fez parar.
   - Acho que tem algum a dentro.
   - O qu? - Ela olhou para onde ele apontava. - No vejo nada.
   - s vezes foi s um reflexo. - Mas no achava isso. Fechou o laptop e pegou sua caneta-lanterna do bolso. Nunca saa sem ela, no que fosse uma boa arma, mas,
pelo menos, conseguiria ver a criatura que se aproximasse dele. - Melhor eu ir  frente, me, s para garantir.
   Ela bagunou o cabelo dele, coisa que ele odiava.
   - Meu heri. - Mas ele podia perceber que ela no estava nem um pouco nervosa em entrar naquela casa enorme, vazia e escura. Devia ser louca.
   Faris passaram pelo pra-brisa traseiro e Cody virou-se para ver um segundo carro subindo a rua. Um carro de polcia.
   - Graas a Deus! - disse ele, apesar de ainda estar nervoso.
   Nos livros de Stephen King, os xerifes das pequenas cidades do Maine sempre eram homens bons, mas geralmente eram assassinados logo, deixando uma me inocente
- e o filho, que o tempo todo sabia que tinha alguma coisa errada, mas que ningum escutava - tendo de se defender sozinha.
   Um homem magrrimo, vestindo um uniforme cinza com um distintivo brilhante, saiu do carro e se aproximou, enquanto Jane saa do seu.
   - Quigly 0'Donnel. Acredito que seja a Srta. Fortune. Chegou bem na hora. - Ele tinha o mesmo sotaque que o velho que morava em frente  casa dos personagens
principais de "Cemitrio Maldito". Cody arrepiou-se.
   - Pode me chamar de Jane - disse ela, apertando a mo do xerife. - E este  meu filho, Cody.
   Cody apenas o cumprimentou com a cabea, sem apertar a mo. Estava muito ocupado observando a casa.
   - Acho que vi alguma coisa l em cima - disse ele, apontando, com a esperana de que o xerife enfrentasse o sujeito e o matasse.
   - Ah, no me preocuparia com isso. Deve ser o fantasma.
   - Fantasma?
   - Dizem por a que o fantasma de Zachariah Bolton ainda anda pela casa. No que eu acredite nisso, imagine.  apenas uma lenda que os mais antigos gostam de contar
de vez em quando. D assunto para eles conversarem enquanto jogam damas.
   - Damas - disse Cody. - Viu, me. Obrigado por me trazer para essa Meca cultural.
   - Olhe os modos, Cody. Xerife 0'Donnel, se o senhor trouxesse as chaves, eu...
   - Aqui esto - disse ele, forando o sotaque. A me achava esse sotaque charmoso e diria que era o tempero local. Cody achava isso irritante, como toda a situao,
O xerife segurava uma grande chave antiga em uma argola de bronze. Parecia uma chave de cela de cadeia de um faroeste antigo. Ou a chave da masmorra de um filme
de terror. Cody sentia o tom mudar de King para Poe. Isso no era um bom sinal.
   - Vou ajud-la com a bagagem, se quiser. A energia foi ligada e tudo deve estar preparado.
   - Muito gentil de sua parte, xerife.
   -  - acrescentou Cody. - Fico feliz em saber que temos uuuhhhh.
   Jane cutucou suas costelas, mas o xerife distrado parecia no notar a imitao de Cody.
   - E o mnimo que eu poderia ter feito por sua av. Kate Fortune era uma mulher extraordinria, se me perdoa o modo de falar. Quando me pediu para tomar conta
da casa, fiquei mais do que satisfeito. Pena que a perdemos.
   Jane assentiu.
   - Sinto muito a falta dela. - Ela passou os braos em volta dos ombros de Cody. - Ns dois sentimos.
   O xerife concordou, limpando a garganta.
   - Bem, vamos l. Sigam-me, vou lhes mostrar tudo. E j que estou aqui, aproveito para contar tudo sobre o nico motivo de fama de nossa cidade. O primeiro dono
deste lugar, o fantasma, se acreditam nesse tipo de coisa, Zachariah Bolton. - Ele andava enquanto falava, daquele jeito mole e preguioso que faz cada frase parecer
uma pergunta. Eles o seguiram pelas escadas da varanda, at a porta da frente, que era alta e escura, e, do ponto de vista de Cody, um pouco assustadora.
   Ento Quigly abriu a porta da frente, e Cody decidiu que estava errado. Era muito assustadora.
   O xerife acendeu uma luz.
   Era fabulosa! Tudo que Jane sempre sonhara para um lar tinha nessa casa. Ah, ela sabia que a maior parte de sua famlia a achava uma mulher sem esperanas e antiquada,
mas no gostava da sociedade moderna e nem de sua aparncia. Os valores modernos foram o que a deixaram grvida e sozinha dez anos atrs, e aquele choque a guiara
para seu prprio, e talvez antiquado, cdigo de moralidade.
   Esta casa era a encarnao da vida que queria para si e para Cody. Uma vida simples,  moda antiga. Com uma considervel exceo. No haveria pai nessa tradicional
famlia americana. Jane era pai e me e tudo o mais. Todos diziam que no podia fazer tudo, que se cobrava muito. Mas ela podia. E faria isso sem o dinheiro da famlia.
No queria parte do negcio e nem a riqueza que vinha com isso. Era uma raa desgraada, todos brigando para assegurar sua fatia na fortuna e sempre se preocupando
com algum que estava tentando tir-la. No. No queria se envolver.
   Isto, contudo, era perfeito.
   - Nunca pensei que minha av, com a cabea to moderna, tivesse alguma pista do que fazer para mim - murmurou ela enquanto andava pelo modesto hall de entrada
e entrava na sala de estar gtica, com seu teto alto e sua complexa estrutura de madeira escura. - Mas vov Kate me conhecia melhor do que eu poderia imaginar. Devia
conhecer, para me deixar esta casa. - Em volta deles, os mveis estavam cobertos por lenis brancos, como um exrcito de fantasmas.
   - E aquela casa de hspedes na frente ser perfeita para meu antiqurio. - No conseguia evitar o sorriso. A casa era a realizao de um sonho.
   - Isso no  nem metade da casa.  a histria que a acompanha que a torna to especial. - Ele carregava duas malas que colocou no cho. - A senhorita deve ter
ouvido falar sobre a febre quinaria, no ?
   - Ouvir falar de qu? - Jane olhou para trs, mas Cody j estava explorando todos os cantos e gretas, iluminando com sua sempre presente caneta-lanterna os armrios
e estantes. Seu corao se apertou no peito  mera meno da doena. - Quase perdi meu filho para essa doena. Ele foi exposto ainda beb. Graas a Deus, descobrimos
a tempo.
   - Bem... Uma baita coincidncia, senhorita, se me perdoa a expresso.
   - Por que, xerife?
   - Bem, Zachariah Bolton foi o homem responsvel por encontrar a cura. Triptonina, voc sabe. O mesmo remdio que tomamos hoje, com algumas modificaes,  claro.
Se no fosse ele... Ah, aqui est a sala de jantar. Estantes de madeira de lei indo do cho at o teto em duas paredes. Como na cozinha. E aquelas entre... - Ele
abriu uma porta da estante, a deixou aberta e ento foi para a cozinha. Abrindo a porta daquele lado, olhou para Jane. - Viu isso? Acessvel pelos dois lados.
   - Muito legal. - Mas ela estava mais interessada na histria que ele estava contando antes. .
   Cody se juntou a eles neste momento, tendo ouvido a histria e os comentrios do xerife.
   - O senhor est completamente errado sobre a triptonina, xerife - disse ele, dando um sorriso forado para a me, e acrescentou: - Se me perdoa a expresso.
   - Cody!
   - Ah, me! Todo mundo aprende isso na quarta srie. O vrus da quinaria e a cura para a doena foram descobertos por Bausch e Waterson em 1898.
   Jane franziu as sobrancelhas e balanou a cabea.
   - Voc  uma enciclopdia ambulante ou o qu?
   Ele deu de ombros e seu olhar passou da me para o xerife.
   - Nossa, que menino brilhante voc tem, Srta. Fortune. Cody, no ? Bem, parte disso est certo. Mas voc no conhece a histria toda. Voc sabia, por exemplo,
que Wilhelm Bausch e Eli Waterson passaram a maior parte de suas vidas competindo um com o outro? Grandes pesquisadores, porm, mais preocupados em ser melhor do
que o outro do que com a importncia de seu trabalho. Cegos de ambio, podemos dizer.
   Jane viu que Cody estreitava os olhos em suspeita. Mas escutava.
   - Foi finalmente o amigo deles, Zachariah Bolton, quem os uniu. E foi apenas trabalhando juntos que conseguiram encontrar a cura. - Ele balanou a mo indicando
que eles deveriam segui-lo e se virou em direo  sala de estar. - Venham, quero lhes mostrar uma coisa.
   Jane sabia que estava com um sorriso idiota nos lbios, mas no conseguia evitar.
   - No  fantstico, Cody? Uma casa completa, com fantasma e histria?
   - Me, voc est muito interessada na histria. Volte para a realidade, t?
   - Tudo bem. Vamos, quero escutar o resto. - Seguiu o filho, percebendo o jeito que ele parou na porta do quarto, no topo das escadas. Ficou parado por um momento,
encarando a porta. Ento estremeceu e esfregou a nuca.
   - Voc est bem, filho?
   - Estou. Claro. Vamos.
   Xerife 0'Donnel foi em direo a um quarto no final do corredor, acendeu a luz e sinalizou para que entrassem. Jane prendeu a respirao.
   - Meu Deus! - sussurrou, piscando ao ver o retrato na parede oposta. - Parece um Rockwell! - Ela se aproximou, passou os dedos pela moldura ornamentada, depois
tocou a obra em si. - Mas no pode ser. Isso deve ter no mnimo cem anos.
   - Voc tem bons olhos, Jane.
   - Conheo antiguidades.  o meu negcio. No est assinado. Voc sabe quem fez?
   -  verdade, no est assinado, e no sei quem foi o artista - respondeu O'Donnel. - Mas  seu, junto com tudo o que est na casa. Incluindo o antigo cofre que
est no sto, ainda trancado. Podem at ser anotaes de Zachariah Bolton presas l. Tudo seu, para fazer o que quiser, como o testamento de sua av especificou.
   Jane no conseguia tirar os olhos do retrato na parede. Uma pintura bem no estilo Rockwell de um homem de cabelo escuro e desalinhado, olhos apaixonados e intensos,
camisa branca desabotoada no pescoo. Em uma das mos, segurava um pequeno aparelho com molas e fios saindo em todas as direes, e na outra, uma pequena chave de
fenda. culos com aro dourado pendiam do nariz, e aqueles penetrantes olhos castanhos nos encaravam atravs da obra. E ao lado dele, bem ao lado, vestindo roupas
idnticas - apenas menores - estava sentado um menininho que no devia termais de cinco ou seis anos. Tinha cachos ruivos e olhos verdes brilhantes, e segurava sua
prpria chave de fenda. Os dois estavam sentados to juntos que deviam estar encostados. E o vnculo entre eles era to forte que era palpvel, apesar de nem estarem
se olhando. Na parte inferior da pintura, tinha uma palavra: Inventor.
   - Este  Zachariah Bolton, senhorita. E o menino  o seu filho, Benjamin.
   - Benjamin - murmurou ela. - Era o nome do meu av e essa criana parece tanto com Cody que poderia ser seu...
   - Irmo mais novo - completou Cody, entrando ainda mais no quarto.
   - Bolton era amigo de Wilhelm e Bausch. De fato, os dois disseram publicamente que o consideravam uma das mentes cientficas mais brilhantes da poca. Uma das
poucas coisas em que concordavam. Bem, quando o pequeno Benjamin morreu de febre quinaria...
   Jane soltou um grito sufocado, seus olhos procurando os olhos verdes do menino.
   - Ah, no. Aquele menininho lindo?
   - Isso. No dia em que o menino morreu, Zachariah Bolton perdeu a cabea. A dor era muita, dizem. Trancou-se no quarto do menino e se recusava a deixar as pessoas
entrarem. Quando finalmente arrombaram a porta, ele j tinha ido embora e levara consigo o corpo do menino. Nunca mais se ouviu falar de Bolton. Depois, Bausch e
Waterson ficaram to perturbados que prometeram encontrar a cura para a doena que levara Benjamin. E foi exatamente o que fizeram.
   Jane brigava com as inexplicveis lgrimas que vieram aos seus olhos enquanto escutava a histria.
   -  to incrivelmente triste!
   -  sim. Posso tirar a pintura e guard-la em outro lugar se for incomod-la.
   - No - respondeu ela rapidamente. - Deixe-a onde est. - Seus olhos encontraram os do inventor, quase podia sentir sua dor.
   - A casa no mudou muito com o passar dos anos. Tirando algumas pinturas, est quase a mesma que Bolton deixou. Como se estivesse... esperando...
   Jane franziu a testa para o homem.
   - Mas tem um sculo.
   - . Depois que Bolton desapareceu, seus amigos, Bausch e Waterson, tomaram conta da casa. Pagaram os impostos e tudo o mais, sempre insistindo que Bolton voltaria
algum dia. Claro que nunca voltou. A casa foi deixada sozinha por um perodo curto depois que os dois morreram. Por causa dos impostos atrasados, a prefeitura a
tomou e resolveu mant-la com a esperana de conseguir vender. Nunca conseguiu. At sua av Kate aparecer. E mesmo quando comprou, se recusou a mudar qualquer coisa.
   Jane conseguia entender aquela relutncia em mexer na casa. Ela tinha uma alma prpria, como se fosse uma entidade viva - ou era a presena prolongada do cientista
morto que ela sentia neste quarto?
   - Ei, me?
   Ela virou-se, surpresa de a voz de Cody vir de uma certa distncia e no bem de trs dela, onde ele estava h poucos segundos.
   - Codester? Onde voc est? - Ela saiu do quarto principal para o corredor. Cody estava parado em outra porta, na frente do quarto no topo das escadas. Aquele
que parecia o ter assustado antes.
   - Quero este quarto, se no tiver problema.
   Preocupada, ela foi para onde ele estava, perto da porta que agora estava aberta. Olhou para o quarto com aparncia normal, exceto pela enorme lareira de mrmore
em uma parede.
   - Eu tive a impresso de que esse quarto lhe causou arrepios. No foi aqui que achou que viu coisas mais cedo?
   -  por isso que quero este - disse Cody. - Se tem algum tipo de fantasma por aqui, quero saber.
   - Vai analis-lo at convenc-lo de que possivelmente no pode existir?
   - Talvez - respondeu ele, com um sorriso. - Ento, quando a mudana vai chegar com meu Nintendo?


   Captulo 2

   1897

   Ao longe, se ouviu um forte trovo, e Zachariah se levantou da cadeira em que estivera em constante viglia para acender o lampio. Benjamin sempre tivera medo
de trovo. Quando Zach ajeitou o vidro do lampio, Ben se agitou, como o pai imaginou.
   - Pai... Voc ainda est aqui.
   - Onde mais poderia estar?
   - Trabalhando no aparelho,  claro. Voc perde muito tempo aqui comigo.
   - Gosto de ficar aqui. - Outro trovo, e Benjamin procurou a mo do pai, pegou-a e apertou com fora.
   - Pronto, filho. No precisa ficar com medo. Voc sabe que o trovo no pode lhe machucar.
   - Mas isso no faz com que o barulho dele seja menos assustador - disse Benjamin sensatamente. - Quanto tempo ainda vai durar, pai? Est chovendo assim a noite
toda.
   Zachariah pegou o relgio de ouro no bolso, abriu e se virou para Ben.
   - Ainda so nove horas, filho. No est chovendo a noite toda, s h quase duas horas. Vai acabar a qualquer instante. Tenho...
   Suas palavras foram cortadas pelo estrondo mais alto at agora, que fez at Zachariah se assustar. No mesmo instante, o cu foi cortado por um relmpago de brilho
intenso.
   - Pai, o raio! Atingiu alguma coisa!
   Zach foi at a beira da cama e pegou o filho nos braos.
   - Calma... No foi to perto quanto pareceu. - Mas manteve o olhar fixo no local que o raio atingiu. Enquanto olhava, balanava o filho, sussurrava e afagava
seu cabelo.
   Em segundos, um claro de luz surgiu no cu distante. E comeou a crescer e se espalhar, at que Zach reconhecesse o que era. Um incndio. E pelo que conseguia
ver, era no velho estbulo de Thomas, a quase cinco quilmetros dali, e agora estava queimando. Nenhuma grande perda. Era uma construo antiga e decrpita que no
era usada h anos. Pelo que sabia, ali s tinha feno velho.
   Benjamin pegou no sono nos braos de Zachariah, que ficou ali a noite toda, com seu precioso filho nos braos, observando a chama aumentar  distncia. Logo,
iluminava todo o cu. O estbulo era velho e se queimara facilmente.
   Zach deveria estar trabalhando. Sabia disso, j que tanta coisa dependia do sucesso desse experimento. E estava to perto.
   Agora, porm, Benjamin precisava dele. E no conseguia deix-lo.
   Quando o sol nasceu na manh seguinte, e fumaa ainda saa das cinzas do velho estbulo, Zach tentou sair da cama sem incomodar Ben. E conseguiu. Muito facilmente.
Ao levantar-se, percebeu que, doente como estava, Benjamin costumava ter o sono muito leve. Deveria Pelo menos ter se agitado quando Zach levantou da cama.
   Um arrepio frio subiu por sua espinha ao virar-se para o filho, que no se mexera muito a noite toda.
   Ento o corao de Zachariah congelou. Sacudiu suavemente os ombros frgeis de Ben, bateu de leve nas bochechas plidas. Mas no houve resposta. Seu filho estava
em coma. O estado terminal da doena. A morte seria daqui a vinte e quatro horas, talvez menos.
   No havia mais tempo. Mais nada. Tinha de agir agora, e se seu experimento tivesse efeitos colaterais, no faria diferena. Sofreria qualquer coisa para ter a
vida do filho de volta.
   Pegou o colete e tirou do bolso um aparelho. No havia mais nenhum motivo para ficar aqui. Benjamin no acordaria de novo. A no ser... A no ser que isso funcionasse.
   Inclinado sobre a cama, mexeu nos cachos ruivos do filho e beijou-lhe a testa.
   - Vou sair um pouquinho, filho. Vou tentar providenciar para que seja apenas um minuto para voc. No quero deix-lo, mas quero que fique saudvel de novo. Entende?
   Os clios descansavam na face branca como vela, e um chiado saa do corpo frgil quando respirava.
   Zach endireitou-se e passou a mo pelo cabelo. Estava pssimo. Sabia disso sem nem mesmo olhar no espelho. As roupas estavam amarrotadas, o colete, desabotoado
e aberto. A gravata estava pendurada no colarinho Entretanto, ele planejara. Havia uma bolsa no armrio de Benjamin, com uma muda de roupas e as coisas de que precisaria.
Incluindo a prova, se fosse questionado. Levou um segundo para peg-la. No havia tempo para se trocar. No agora. Ben podia morrer enquanto o pai preocupava-se
com trivialidades. Mas uma vez que Zach sasse, o tempo pararia virtualmente para Benjamin. Seria o tempo de um banho. Se fosse desagradvel com as pessoas que encontrasse,
o problema seria deles. No que achasse que encontraria algum. Cada vez que abria o portal, via uma verso vazia e sem vida de sua prpria casa. No que se importasse
agora com quem encontraria ou o que pensariam dele.
   No estava pensando em si mesmo. De jeito nenhum. Nem na sociedade ou na repercusso por estar se metendo com a natureza dessa maneira. Recusava-se terminantemente
a considerar essas pessoas. Na cabea de Zachariah s havia Ben. Agora s importava encontrar um jeito de salvar a frgil vida do filho, que estava to perto da
morte. E podia fazer isso. Podia viajar de volta no tempo, para a poca antes de o filho ser exposto ao vrus mortal que tanto tentava lev-lo embora. E quando chegasse,
tiraria Benjamin de l e o levaria para um lugar seguro. Ento quando o vrus atingisse Rockwell, Ben estaria longe. No seria exposto. E quando o perigo tivesse
passado, traria Benjamin para casa so e salvo. No ficaria doente. No morreria. Ficaria bem. Zach voltaria para o agora e encontraria o filho saudvel de novo.
Sem nenhuma recordao de ter ficado doente.
   O corao de Zach acelerou quando apontou o aparelho para aquele ponto bem no meio do quarto do filho. No fazia idia do que era. Uma dobra no tecido do tempo.
Uma fenda. O que quer que fosse s existia aqui, neste quarto, e suspeitava que estivera aqui, pairando no ar, mesmo antes de a casa ser construda. Tentara o experimento
em diversos locais, mas s aqui obtivera sucesso.
   Uma noite em que estivera trabalhando aqui para poder ficar com o filho doente, descobrira o portal por acidente.
   Com o polegar, apertou o boto para ligar. E uma fasca de luz apareceu no ar, no meio do quarto. Segurando o aparelho firme, virou o disco e a luz aumentou e
se intensificou at se transformar em uma esfera incandescente entre o cho e o teto. Uma esfera brilhante, cheia de nvoa.
   Mas de repente comeou a mudar. A nvoa clareou e tomou formas, e em segundos Zach estava olhando para o que parecia um espelho enorme. E o espelho refletia todo
o quarto atrs dele. S que em outro tempo. Ele podia ver perfeitamente que o papel de parede era diferente assim como as cortinas e os mveis. Tudo. Bem abaixo
das cobertas estava o pequeno corpo. Benjamin? Antes de ficar doente, quando estava bem e forte e saudvel? Isso funcionaria. Tinha de funcionar.
   S esperava que no o matasse. Todos os testes at agora indicaram que haveria efeitos colaterais. A xcara que Zach passou atravs do portal uns dias atrs espatifou-se.
Fez ajustes no aparelho e tentou de novo. A ma que passou murchou, ento fez ainda outros ajustes. O rato... o rato morreu. E apesar de Zach ter recalculado e
feito mais ajustes, no podia ter certeza de que tudo estaria certo desta vez. Sim, provavelmente haveria efeitos colaterais. Srios. S no sabia quais, ainda.
Mas - deu um pequeno sorriso - estava prestes a descobrir.
   - Voc vai ficar bem, Benjamin. Juro que vai ficar bom de novo!
   E Zachariah Bolton entrou na luz e na hora sentiu uma pancada forte bem entre os olhos.

   Jane no conseguia dormir. Sua cabea estava cheia. Ah, no era a casa. Ela era perfeita, soubera disso no momento em que colocara os olhos nela. Uma construo
vitoriana antiga, mas elegante, erguida como um guardio do mar. A areia do Maine abaixo. A cano das ondas que a ninariam.
   Seu novo antiqurio - Jane sorriu com as palavras - agora era uma realidade. Pesquisara a rea, fizera novos contatos e guardara descobertas locais. J estava
aberto h algumas semanas, e os negcios estavam indo bem. A casa de hspedes - uma cpia em miniatura da casa principal - era perfeita. At a cidade prxima, chamada
de forma apropriada Rockwell, tinha uma aparncia perfeita. O resumo da fantasia da Nova Inglaterra. Um lugar que o tempo e o progresso pareciam ter esquecido. Ao
andar pelas caladas de Rockwell, ela quase esperava virar a esquina e encontrar quatro homens usando chapus de palha e bigodes, cantando enquanto passeavam pelo
parque.
   Mas como a av Kate costumava dizer, quando as coisas parecem muito boas para ser verdade, preste ateno, porque elas provavelmente so. E se a loja falisse?
O que faria ento? Correria de volta para Minneapolis com o rabo entre as pernas?
   No. Essa mudana j havia sido dura demais para Cody. No faria isso de novo. Faria com que desse certo de alguma forma. Tinha de dar, pelo bem do filho.
   Mas as preocupaes financeiras no estavam sozinhas em sua mente. Estava mais preocupada com o filho do que com qualquer outra coisa. O desejo de Cody por um
pai atormentara seu corao desde o momento em que ele o proferiu no carro. Ele era uma criana inteligente - os professores achavam que era superdotado. Ele sabia
que j tivera um pai. Mas apesar de no gostar de mentir para o filho, no contara toda a histria sobre Greg. Ele s sabia que o pai fora um msico talentoso que
morreu quando ele ainda era um beb. Nunca contou a Cody como fora seduzida pelo idealismo e pela sinceridade de Greg, e a beleza e o significado por trs das msicas
que escrevia e tocava nos clubes em Minneapolis. Quando pensava na rapidez com que se apaixonara...
   Fora uma tola. O idealismo de Greg sumiu no momento em que alguns figures de Los Angeles o ouviram tocar e ofereceram para a banda um contrato para gravar. Uma
jovem namorada grvida, que j deixara claro que no queria sua parte na riqueza da famlia, no se encaixava nos novos planos. No teria desejado que um homem to
irresponsvel e superficial criasse seu filho. Agora sabia disso. Mas tambm sabia que o filho sofria pela falta de um pai.
   Ah, se ao menos...
   Ela olhou melancolicamente para a pintura na parede perto da cama. Zachariah Bolton. O cabelo negro e macio caa sobre atesta, os olhos castanhos brilhavam. A
gravata preta e estreita terminava em duas fitas finas, e o colete estava desabotoado. A ponta de um relgio de ouro aparecia no pequeno bolso.
   A semelhana do menino com Cody a impressionou mais uma vez, e percebeu que deveria haver muitos motivos para gostar tanto daquela obra. Os dois estavam sentados
muito prximos, em uma mesa de madeira com um lampio em cada extremidade. Cada um estava fazendo seu papel, mas, de alguma forma, ainda estava ciente do outro.
Era quase possvel sentir o amor entre eles. Pai e filho - saberia disso mesmo se Quigly no tivesse contado. Um pai cujo trabalho significava tudo, mas que nunca
permitiu que viesse antes do filho.
   Se ao menos Cody pudesse ter um pai como esse.
   Jane suspirou e relaxou afundando-se nos travesseiros. No adiantava sonhar. Nunca encontraria um homem com os valores do sculo XIX. Nem nessa nostlgica cidade.
E no aceitaria menos que isso. No queria um outro homem para quem a carreira significasse mais do que o prprio filho. E tambm no queria algum sem ambio,
nem um menino imaturo e irresponsvel.
   Ela queria...
   Seu olhar se voltou mais uma vez para o homem no retrato. Os lbios carnudos estavam franzidos, o maxilar, contrado, e estava bem perto do menino. A paixo nos
olhos era pelo trabalho. Mas era to intensa, que a fazia pensar, se j fora por uma mulher. A esposa, a me do menino, talvez?
   Ela sorriu e balanou a cabea. Estava agraciando o inventor com qualidades que provavelmente nunca tivera. No dia seguinte  mudana, Jane fora  Biblioteca
Pblica de Rockwell pegar alguns livros sobre a histria da cidade. Os captulos sobre Bolton diziam o mesmo. Ele fora um notrio mulherengo. O Don Juan do sculo
XIX, como foi apelidado por um dos autores. Nenhum mencionou a esposa. Pobre mulher.
   Mas ainda assim, aquela paixo nos olhos dele chamavam por ela.
   Toda essa especulao no fazia sentido. O homem nem estava vivo. E provavelmente no era paixo nos olhos dele, mas talvez o comeo da loucura. Sendo considerado
um gnio e um homem  frente de seu tempo, Bolton cruzou, os livros diziam, a tnue linha entre o brilhantismo e a insanidade. E pelo que lera, Jane achava que a
loucura comeara a tomar conta dele bem antes da morte do filho. Dois relatos contavam que Bolton anunciara que descobrira uma forma de viajar no tempo. Fora ridicularizado
e logo depois se recusou a discutir o assunto. Alguns dizem que foi esse episdio que o levou para o isolamento tanto quanto a morte do filho. Seja qual for a razo,
sumiu de vista na dcada de 1890, e nunca mais se ouviu falar dele.
   Uma grande pena.
   - Me! Depressa, me!
   O alerta na voz de Cody penetrou cada pensamento at atingir sua alma. Algo estava errado. Jane pulou da cama e correu pelo corredor, o corao j estava na garganta
antes mesmo de entrar pela porta do quarto e congelar.
   A luz da lua se derramava atravs da janela e banhava duas formas com seu brilho plido. Um homem amarrotado e descabelado estava ajoelhado no cho e segurava
o filho dela nos braos, to apertado que parecia que Cody no conseguia nem respirar. O homem estava de costas para Jane, e seus ombros tremiam e sacudiam como
se estivesse soluando. Cody olhou para a me atravs da escurido, olhos arregalados, enquanto o homem o balanava.
   - Meu filho... - sussurrava ele repetidamente. - Meu menino. Graas a Deus...
   O corao de Jane parecia que ia parar. Sem hesitar, entrou no quarto, pegou o taco de beisebol que estava em um canto, o ergueu e foi na direo deles.
   - Me, no!
   O grito de Cody fez com que o luntico parasse e congelasse, como se percebendo que mais algum entrara no quarto. Jane hesitou. Em vez de bater com o taco na
cabea dele, ficou apenas segurando-o, preparada. A garganta estava to seca que suas palavras soaram speras quando disse:
   - Solte-o agora ou juro que...
   Ele se voltou lentamente, ainda segurando Cody com fora, e a encarou. O movimento fez com sasse da luz, deixando o rosto na sombra. As sobrancelhas franzidas
e juntas, lhe davam um ar confuso. Perplexo.
   - Por favor - disse Jane, e sua voz no estava mais to exigente nem segura desta vez. Suas mos tremiam, e j no segurava o taco com tanta determinao. - Por
favor, leve o que quiser, s no machuque meu filho.
   - Machuc-lo? - disse ele, a voz um pouco mais que um sussurro. Atormentado, cheio de dor e fraco. - No, eu nunca... Eu o amo. Ele  meu filho, meu Benjamin,
meu...
   Piscando como que para limpar os olhos, virou-se para encarar o pequeno e amedrontado rosto de Cody.
   Jane abaixou o taco, estendeu a mo e alcanou o interruptor. Viu o homem paralisado em choque, viu o olhar cheio de medo que ele lanou para o lustre. Depois
seu olhar voltou para o topo da cabea de Cody, ele o apertava tanto que mal dava para ver mais do que isso.
   - Ele  meu filho - afirmou Jane, calmamente, e seus olhos estavam fixos nos de Cody. O homem estava obviamente fora de si. - O nome dele no  Benjamin,  Cody.
Ele  meu filho. Por favor...
   O homem balanou a cabea. Com bastante delicadeza, apertou os ombros de Cody e o afastou de si apenas um pouco, o suficiente para que pudesse ver seu rosto.
   - Voc no  Benjamin... - sussurrou ele, e a dor explcita em sua voz trouxe lgrimas aos olhos de Jane.
   - Sou Cody, senhor. Cody Fortune. J tive um pai, mas ele morreu quando eu era um beb. Esta  minha me. O nome dela  Jane.
   As sobrancelhas do homem se levantaram. Balanou a cabea lentamente e lgrimas encheram seus olhos.
   - Deus. Voc no ... Mas eu pensei... - Piscando repetidamente e agarrando a cabeceira da cama, colocou-se de p, mas continuou curvado, a mo livre encostada
na testa. Finalmente, ficou ereto e virou o rosto para Jane, bem embaixo da lmpada.
   Ela viu o rosto dele e seu queixo caiu. Prendeu a respirao e tentou esconder o choque. Depois percebeu as roupas que ele vestia, e seu corao disparou de novo.
   Deus do cu,  a imagem do homem da pintura.
   - Desculpe-me - disse ele, olhando para Cody. Depois olhando para Jane, repetiu: - Sinto muito por t-los assustado. Eu... - Ele deu um passo em direo a ela,
mas vacilou um pouco, e agarrou a cabeceira da cama para se segurar.
   - T...u...do bem - disse Jane, acenando para o filho. Cody correu para ela que o abraou forte, mas sem tirar os olhos do estranho. - Como o senhor entrou aqui?
   Ele franziu a testa, olhou em volta do quarto como se fosse a primeira vez.
   - Est diferente.
   Jane gentilmente empurrou Cody para trs de si e recuou um passo. Tentava ignorar a semelhana com o inventor, com quem estava sonhando poucos instantes antes,
e se recusava a pensar em suas roupas.
   - O senhor... Est doente ou alguma coisa, no est? - disse ela, quase como se quisesse se convencer disso. - O senhor est desorientado e entrou aqui por acidente.
Eu entendo, viu? No quero indenizaes nem nada disso.
   Os olhos do homem se arregalaram. Estavam um pouco embaados, com uma nuvem de dor, mas mostravam inteligncia, sanidade e total sinceridade. Era absolutamente
sinistro como esses olhos pareciam to familiares.
   - Em que ano estamos, Jane? Que ano...
   Jane engoliu seco, recusando-se a deixar que um pensamento invadisse sua cabea.
   - Estamos em 1997 - disse para ele, to casualmente como se fosse uma questo que respondesse todos os dias. Cutucou o filho enquanto dava outro passo para trs
em direo ao corredor.
   O homem fez um movimento brusco com a cabea e os olhos se arregalaram de novo.
   - Mil novecentos... - Depois olhou para cima, para o lustre, e quando abaixou a cabea, o rosto mostrava toda a sua agonia. - Peguei o caminho errado. Avancei
em vez de voltar. No pode ser, eu... - Ainda tagarelando, ele avanou em direo  Jane, mas no conseguiu. Caiu aos seus ps como uma sequia gigante.
   E foi quando ela percebeu o aro dourado no cho ao lado dele. A bolsa no meio da cama de Cody. A pequena caixa preta. Disse a si mesma que estava deixando a imaginao
correr solta. Inclinou-se sobre ele, alcanou o bolso do colete e tirou o relgio - o mesmo que vira no retrato. E ento olhou com mais ateno para a pequena caixa
preta. Um controle remoto com aparncia estranha que parecia a caixa que o inventor segurava no retrato.
   - Ele perguntou em que ano estvamos. Disse que avanou - murmurou ela. E mentalmente lembrou-se do que o xerife e os livros contaram sobre o gnio cientista
que morara aqui. Que ele anunciara ter inventado uma viagem no tempo... E ento desapareceu.
   - Mas no pode ser...
   - Me?
   Ela levantou e virou-se para o filho.
   - Podemos ficar com ele?
   Jane firmou as mos na cabeceira da cama enquanto tentava retomar a respirao. O homem certamente no era leve. Lev-lo para a cama no era uma tarefa fcil.
E quem quer que fosse poderia tomar um banho, se barbear e vestir uma muda de roupas limpas.
   Nada disso era da sua conta. Tudo que tinha a fazer era descer, ligar para o xerife para levar esse intruso para a cadeia.
   Contudo, no fizera essa ligao ainda. E no tinha pressa para faz-la por algum motivo.
   - Me, ele est doente?
   - No sei... Provavelmente.  melhor ir lavar as mos, Cody. Pode ser contagioso.
   Cody no foi.
   - s vezes ele no est doente, me. Pode estar machucado.
   - Voc deve ter morrido de medo.
   - No. Primeiro achei que ele realmente fosse o meu pai. Que ele tinha voltado de alguma forma, mesmo sabendo que  impossvel. O jeito com que estava me abraando
e tudo mais. Foi bom.
   O corao de Jane se apertou. Hora de mudar de assunto.
   - Como ele chegou aqui, querido?
   - Teve uma luz forte, bem no meio do quarto. Redonda. Como se fosse um tnel de trem, mas claro em vez de escuro. Muito claro. Meus olhos at doeram. Ento a
luz sumiu e ele ficou deitado no cho.
   - Deitado no cho - disse ela automaticamente, os olhos grudados no homem.
   - Foi isso que eu disse. Me, voc acha que ele  um fantasma?
   - No acho que ele seja um fantasma. E no pensei que voc acreditasse em algo to no-cientfico como isso.
   - No acredito. Mas e...?
   - Vamos l - disse ela, sentindo-se desconfortvel por um momento. - Vamos chamar o xerife.
   - Me, no podemos! Ele precisa de ajuda! Est doente ou machucado ou alguma coisa assim! No pode mandar prend-lo!
   - Querido, ele invadiu a nossa casa...
   - Ele  meu amigo! - Cody cruzou os braos e o lbio inferior cobria o superior.
   - Como pode ser seu amigo? Voc nem o conhece!
   - Ele me abraou. E disse que me amava. E no vou deixar voc coloc-lo na cadeia.
   - Codester, no podemos simplesmente ficar com ele.
   - Por que no? Ele poderia me ajudar a construir a casa na rvore no quintal. Quando estiver melhor, quero dizer. Seria genial. E poderamos...
   - Por tudo que sabemos, Cody, esse homem pode ser um criminoso perigoso. No podemos deix-lo ficar. Ele pode ser... - Olhou para os enormes olhos verdes do filho.
- Cody...
   - Por favor, me? Pelo menos temos de descobrir quem ele , de onde veio. O que foi aquela luz. Acho que ele precisa de ajuda.
   - Vou pensar.
   Cody sorriu. Depois bocejou e cocou os olhos.
   - Vamos l,  melhor voc dormir agora. Em meu quarto, ok?
   - Ok. - Com um sorriso aberto, Cody correu pelo corredor e se jogou na cama da me.
   Jane olhou para o homem que dormia na cama do filho. E claro que no havia como deix-lo ficar. S teria de esperar Cody dormir para chamar o xerife. Arrumaria
um jeito de explicar depois. Por enquanto, no tiraria os olhos desse sujeito. Se ele lanar um olhar em direo ao Cody...
   Pegou o taco de beisebol e puxou uma cadeira. Daria quinze minutos para Cody dormir. Depois faria a ligao.

   Zach acordou no quarto escuro. O quarto do filho,  claro. Devia estar muito cansado do trabalho e pegou no sono enquanto lia para o menino, imaginava por que
Ben no o sacudira para continuar a histria, como sempre fazia.
   Mas onde estava Benjamin?
   Fechou os olhos, balanou a cabea. Claro. Benjamin ainda estava visitando os avs em Boston. Como pde esquecer?
   J que estava acordado, deveria voltar ao trabalho.
   Zach colocou a mo no bolso  procura de seus culos, mas no os achou. Esticou o brao na direo da mesa de cabeceira procurando o lampio, mas no devia ter
deixado l. Teria de se guiar pela luz da lua que atravessava a janela enquanto procurava o lampio. Mas o que era isso? Tinha uma mulher inacreditavelmente linda
dormindo em uma cadeira de madeira do lado da cama. Ela vestia uma camisola clara, com mangas curtas. A cabea estava cada para o lado, descansando nos ombros.
E os cabelos caam em ondas de cetim castanho avermelhado, indo at o meio da cadeira. Nossa, era linda. Mas o que estava fazendo aqui? Como...
   Lentamente, Zach lembrou dos colegas Wilheltn e Eli, e sua queda por brincadeiras prticas. Vinham implicando porque trabalhava muito, no tinha vida a no ser
para o filho e o trabalho. J fora um bomio, envolvido em romances com algumas das moas mais imprprias da cidade. Mas ultimamente acalmara-se e dedicava todo
seu tempo para o experimento atual. Aquele que mudaria o mundo, se conseguisse realiz-lo.
   Uma vez, aqueles dois palhaos sugeriram que ele estava h tanto tempo sem uma mulher que no saberia o que fazer se uma aparecesse em sua cama. Ento eles decidiram
contratar algum para provar seu ponto de vista, no ? Nossa, ela era linda. Infelizmente, no estava to desesperado para provar sua masculinidade que se arriscaria
a pegar uma doena. Preferia escolher suas prprias amantes. Uma pena, realmente.
   Ele suspirou. Sem dvida ela relataria para aqueles dois traquinas infantis que ele fracassara em mostrar algum interesse pelo charme dela.
   Bem, poderia pelo menos evitar a zombaria que teria de aturar.
   Saindo da cama, imaginou por que se sentia to fraco e um pouco tonto, foi andando na ponta dos ps at a cadeira em que ela estava dormindo e quase tropeou
no taco de beisebol que o filho deve ter deixado jogado no cho. Tirou-o do caminho com o p e chegou mais perto da mulher, tocou aquele longo cabelo e roou entre
os dedos. Suave como uma penugem. Inclinou-se ligeiramente, sentiu seu cheiro e sorriu. Ah, eles foram longe demais. Devem ter pago extra por uma moa limpa e bonita.
Ela parecia to doce quanto uma margarida, e tinha um cheiro ainda melhor.
   Enquanto ainda estava inclinado sobre a mulher, ela suspirou e se mexeu. Os lbios se abriram quando a cabea caiu para trs. E Zach percebeu h quanto tempo
no beijava uma mulher. E tirando a gripe comum, talvez, no tinha medo de beijar essa mulher.
   E foi isso que fez. Abaixou-se, levantou o queixo dela com a ponta do indicador e encaixou suas bocas. Os lbios dela eram quentes, midos e doces, e se ajustavam
bem aos seus. Ainda melhor quando deixaram escapar um suspiro gentil, que ele inspirou. Afastou aqueles lbios suaves para sentir mais dela, e eles se abriram desejosos.
Ela estava comeando a acordar agora. Comeando a responder, a beij-lo tambm. Ele a pegou pela pequena cintura, a fez ficar de p e a aproximou de seu peito enquanto
intensificava o beijo. Sua resposta sonolenta despertou nele sensaes que h muito esquecera. Sensaes que achara que no teria mais. A paixo incendiava suas
veias, o corpo dela mais perto do seu, a cabea mais inclinada e os lbios abertos para sua lngua. As mos dela arrastavam pelas suas costas, apertando seus ombros,
fazendo seu corao disparar no peito. No, nenhuma de suas amantes provocara tal resposta nele.
   Desde Cludia...
   E ento um forte impulso fez com que se afastasse, surpreso demais para sequer pensar por que estava to fraco que uma mulherzinha conseguia faz-lo voar.
   Ela ficou ali, ofegante, o encarando.
   - J chega - resmungou ela. - Eu estava pensando em pegar leve com o senhor, mas j foi longe demais.
   - Leve ou pesado - disse ele. - No importa. No estou interessado em fazer sexo com a senhorita, ento pode pegar seu caminho. - E claro que era uma mentira.
Ele estava muito interessado. Se ao menos tivesse um daqueles preservativos  mo, talvez at a obrigasse.
   - No est... Interessado... Sexo? - Ela piscou em choque.
   - Ah, no, querida. - Ele sorriu, levantou a mo para acariciar-lhe o cabelo sem que ela visse. Ela ficou l, parada, muito chocada para se mover. - Na verdade,
no fico to tentado h muito tempo. A senhorita  linda. Mas no quero me expor a... Bem, voc entende.
   Ela balanou a cabea.
   - No, no entendo e acho que no quero entender. Olha aqui, voc  um louco de carteirinha. Vou lev-lo para baixo agora mesmo e chamar o xerife. Mas no precisa
esperar ele chegar. Pode ir embora.
   Ele franziu a testa:
   - O que disse?
   - Disse para ir embora. - Ela estava rangendo os dentes, e os punhos fechados tremiam. - Saia da minha casa. Agora.
   - Minha vez-disse ele. - A senhorita realmente deveria pensar em seguir carreira no teatro. No fao idia do que est falando, querida, mas esta casa  minha,
e  a senhorita quem deve sair.
   Ela piscou. A raiva estava sumindo rapidamente. Era medo que ele via tomando conta dos olhos dela.
   - Desculpe - disse ele, pensando que ela poderia apanhar se soubessem que fracassou. Quase reconsiderou sua posio de abster-se. Sexo com essa mulher impetuosa
devia ser uma experincia e tanto. - E se eu deixar voc ficar umas duas horas, hein? Ser suficiente para convenc-los de que nos divertimos bastante?
   A mo dela veio em direo ao seu rosto, e ele no teve tempo de esquivar-se. Ele ficou realmente assustado quando o tapa fez com que perdesse o equilbrio. Caiu
na cama, olhando para ela. Deus, por que estava to fraco? To tonto? Estivera doente recentemente?
   - V embora - ordenou ela.
   - Chega - disse ele com calma, ainda frustrado por seu estado fsico. - A senhorita est doida? Tenho de provar que esta casa  minha? Terei de chamar o xerife
para tir-la daqui?  o que deseja? - Ele balanou a cabea, levantou a mo e apontou em direo  mesa perto da janela, sua forma visvel na escurido. - Ali tem
uma escrivaninha. No a principal, claro, mas deixo uma aqui no quarto de Benjamin. Alguns de meus experimentos esto l. Minhas ferramentas. Minhas anotaes. 
claro que elas so secretas, mas uma mulher como voc pode olhar que no vai entender mesmo. Pode olhar. Tem a lareira e no console tem dois lampies e fsforos.
Acenda um para que possa ver onde est, mulher. E depois, v embora, sem criar problemas. Tenho de trabalhar.
   A mulher apenas o encarava, completamente confusa. E ento, lentamente, ela foi at a parede. Tocou em algo, e o quarto de repente se encheu de luz. Zachariah
quase caiu para trs de susto.


   Captulo 3

   Jane procurou o taco de beisebol no cho e o agarrou enquanto observava o homem olhar ao redor do quarto em aparente confuso, como se no acreditasse.
   - O que  isso? - gritou ele. - Onde est o quadro-negro? Minhas anotaes? Meu Deus, quem instalou esse maldito lustre eltrico aqui, e o que a senhorita fez
com as minhas anotaes?
   - Olhe - disse ela, segurando o taco bem a sua frente. - No fao idia de quem o senhor seja, ou sobre o que est falando, mas...
   - Minhas ferramentas! - gritou ele, virando-se e passando a mo pelo cabelo quase negro. - Que diabos a senhorita fez com as minhas ferramentas? E minha escrivaninha?
Onde est a mesa de tia Hattie?
   O homem estava desorientado. E no era s mentalmente. O rosto estava plido e muito magro, e circulas escuros envolviam seus olhos,
   - Graas a Deus - disse ele caindo de joelhos, segurando a pequena caixa. - O aparelho est a salvo. - Ficou com a aparncia ainda mais confusa do que antes.
- Mas ainda no tinha terminado.
   Ela queria fugir do quarto, naquele instante, correr pelo corredor para agarrar Cody e tir-lo de casa. Mas como o homem de joelhos no meio do quarto estava olhando
para ela, achou que ele poderia estar se lembrando... A dor que sombreou seu rosto disse mais do que palavras. Mesmo assim, ele falou, olhando para ela.
   - Seu nome  Jane.
   Ela assentiu. Dizia para si mesma que deveria fugir, chamar ajuda. E repetia em seu ntimo que no deveria ir at ele e tentar ajud-lo a resolver a confuso
que estava estampada em seu rosto.
   - E o menino...  seu filho... No  Benjamin.
   - Isso mesmo. Voc se lembra, ento.
   - Lembro de Benjamin... Meu pequeno Benjamin... - Envergou a cabea, e os ombros tremiam. - Ele est... morrendo. Como pude me esquecer disso, mesmo por um momento?
   Jane piscou. Morrendo? Ele tinha um filho, que se parecia com o seu, e aquele filho estava morrendo?
   - Meu Deus - sussurrou ela, deixando o taco cair, produzindo um barulho. - Meu Deus, d para imaginar por que est to confuso. - Cautelosamente, ela andou para
frente. E quando chegou perto dele, tocou-lhe o cabelo, tirou mechas do rosto e sentiu as lgrimas.
   Os braos envolviam as pernas, a cabea descansando nas coxas.
   - Queria voltar para poder salv-lo. Para antes de ele ser exposto ao maldito vrus. Mas falhei. Um erro de clculos. Fracassei, e agora vou perd-lo para sempre.
   Mais uma vez essa conversa louca. Mas ser que ficaria s se perdesse Codester? Um leve arrepio passou por sua espinha, mas continuou lhe afagando o cabelo. Essa
situao lembrava a de Zachariah Bolton. Essa confuso era surpreendente.
   - Est tudo bem - sussurrou ela, j que um n na garganta a impedia de falar mais alto. - Tudo vai ficar bem. Vou ajud-lo. Ok?
   Ele no disse nada. Mas ela sabia que estava arrasado. Ele olhou para ela, tremendo, chorando, confuso e sentindo uma dor terrvel.
   - Qual  o seu nome? - perguntou ela.
   - Zach. Zachariah Bolton.
   O corpo dela enrijeceu, e ele deve ter sentido, pois se afastou. Ele esfregou a mo na testa, como se tentando fazer passar uma dor de cabea latejante, e ento,
lentamente, levantou-se.
   - Eu sinto muito. Estou caindo aos pedaos. O que deve estar pensando?
   - Estou pensando - disse ela, escolhendo as palavras - que o senhor passou por algo terrvel e que isso o deixou confuso.
   - Louco, a senhora quer dizer.
   - Claro que no.
   - Voc me olha como se fosse louco.
   - Bem... Eu... Olhe,  que Zachariah Bolton teria mais de 130 anos hoje.
   Ele parou de andar, brincando com a caixa preta.
   - Zachariah Bolton tem 35 anos. Ele nasceu em 1862.
   - Isso no faz o menor... Em que o senhor est mexendo? Ele olhou para cima e piscou.
   - Ento a casa pertence a voc agora?
   - Sim, a mim e ao meu filho.
   - O seu marido... Ele est em casa? Posso falar com ele?
   - Eu no tenho... - Ela mordeu o lbio, desviando o olhar. Desde quando o manual de sobrevivncia do sculo XIX aconselhava as mulheres a dizerem que estavam
sozinhas? - Ele no est agora.
   O homem que dizia ser Zachariah Bolton baixou o olhar. Para a mo esquerda dela, o que ela percebeu.
   - Voc no  casada, ?
   Ela no respondeu e ele balanou a cabea, pensando, e olhou para a caixa mais uma vez. E ento, ele oscilou, piscou como se a viso estivesse embaada.
   - O senhor no est bem.
   Ele respirou fundo para fortalecer-se e sentou-se na beirada da cama.
   - No. Fisicamente no estou bem. Efeitos colaterais, suponho. No esperava que fossem to fortes.
   - Efeitos colaterais... Por qu?
   - Voc vai correr para chamar o hospcio se seu disser. Mas acho que no tenho muita escolha. Preciso de voc, Jane. Mas no sei como faz-la entender. Venha
c.
   Ela piscou e deu um passo para trs, olhando enquanto ele dava tapinhas na cama ao seu lado.
   Ele franziu o cenho, e depois as sobrancelhas se arquearam e ele assentiu.
   -  verdade. Acho que no fui um cavalheiro quando a encontrei aqui mais cedo, no  mesmo? - E os olhos dele, por alguma razo, fixaram-se nos lbios dela, e
ficaram l por um instante. - No sei o que foi aquilo, Jane. Algum tipo de lapso de memria. Efeitos colaterais, como eu disse. Fiquei lembrando de uma poca em
que dois colegas contrataram uma... No importa. Peo desculpas. Por favor, venha at aqui. Se ficar a, pode se machucar quando lhe mostrar o que este aparelho
faz.
   - O que  isso, algum tipo de arma?
   - No, no  isso. S quero mostrar como cheguei aqui, Porque se eu contar, vai achar que sou louco e me jogar Para fora antes que eu possa provar.
   Ela deu em um passo em direo a ele, que estendeu uma mo.
   - Sou Zachariah Bolton, Jane, e se vier at aqui, provarei isso.
   Suspirando, ela pegou o taco de beisebol. Ele olhou para o taco, levantando uma sobrancelha. Jane foi at ele e sentou-se ao seu lado.
   - Suponho que vai me dizer que viajou cem anos no tempo, e que este pequeno controle remoto  a mquina do tempo.
   - Como voc poderia saber...
   - Ah, todo mundo aqui sabe sobre Zachariah Bolton. Ele foi um gnio. Um homem anos-luz  frente de seu tempo. Mas ficou um tanto louco depois que... - A voz dela
falhou e ela perdeu o flego.
   - Depois que o filho dele morreu. , acredito que fique mesmo se isso acontecer. Mas, no tenho nenhuma inteno de deixar isso acontecer. - Ela arregalou os
olhos enquanto o encarava. Ele olhou para as prprias roupas. - Estou com essas roupas a noite toda, tal como me deitei com ele. No  de se admirar que esteja com
medo de mim. Pareo um vagabundo qualquer. No esperava encontrar ningum aqui... Exceto Ben e talvez a Sra. Haversham.
   - Pare de falar desse jeito. Parece...
   - Louco? Eu sei  o que todos os meus colegas ficam dizendo. Que viajar no tempo  impossvel. Que eu estava desperdiando meu talento trabalhando nisso. Eu estava
perto, bem perto h meses. Quando Benjamin ficou doente... Mudou algo em mim, me deu uma fora... Extra.
   Ela balanava a cabea, ainda afastada. Mas a mo dele se aproximou, pegou o pulso dela e a trouxe para perto de si. Com aquele controle remoto engraado, ele
apontou.
   - Aquele ponto ali, aproximadamente um metro acima do cho, em volta do qual esta casa foi construda... Ali h uma dobra invisvel no tecido do tempo. Um portal.
E eu posso abri-lo.
   O polegar dele tocou o boto no controle remoto, e ela escutou um zumbido. Uma fasca apareceu no ar, no centro do quarto.
   - Minha inteno era voltar no tempo. Apenas alguns meses. Queria ir at Benjamin antes de ele ser exposto ao vrus, e lev-lo para longe antes de ser infectado.
Queria salv-lo.  claro que voc consegue entender isso, no consegue? Apenas algumas horas atrs, voc queria me atingir com um taco para salvar seu prprio filho.
Faria qualquer coisa por ele. Voc sabe que faria.
   Ela no gostava do brilho nos olhos dele, ou a fora com que apertava seu brao. Ela tentou puxar o brao, mas ele se levantou, a puxou e apertou contra si. O
brao livre agarrou a cintura dela e a manteve imvel. Os dedos da outra mo mexiam no mostrador da pequena caixa, que comeou a zunir. Mas a luz permaneceu a mesma.
   - Eu o estraguei - disse ele, enquanto virava o mostrador com a mo livre. Meus clculos deram errado e eu vim para o futuro em vez de para o passado. E no s
alguns meses, mas um sculo.
   Virou o mostrador mais uma vez, aumentando a fora com que segurava a cintura dela. Ela balanou a cabea, mas desistiu de lutar.
   - No pode ser.
   Zach virou o mostrador mais uma vez, mas a luz s acendeu mais forte por um instante e depois apagou. Por um longo momento, Jane apenas observou o lugar em que
a luz estivera.
   Ele mexeu na caixa, mas nada aconteceu.
   - Droga. Estava esquecendo... No estou maluco - murmurou ele, e ela percebeu que ele ainda estava segurando-a. Suas costas aninhavam-se intimamente ao corpo
dele, cuja mo permanecia em sua cintura. - O aparelho precisa de tempo para recarregar. Como pude esquecer disso? No sei. Trs dias e lhe mostrarei algo que nunca
vai esquecer. Sou exatamente quem digo ser. Juro. E preciso de voc. Preciso que deixe eu ficar aqui at que o aparelho recarregue e eu possa voltar para o meu filho.
   Ela virou-se nos braos dele e o encarou bem nos olhos e soube, sem dvida, que esse homem acreditava completamente em cada palavra que dizia. Esse pobre louco
- e lindo.
   - Voc no vai me expulsar. Sei que no vai. Posso ver bondade em seus olhos.
   - Voc precisa de ajuda. Deixe-me ajud-lo.
   Ele fechou os olhos, e os ombros caram para frente como se estivesse muito exausto para continuar.
   - Pelo menos - murmurou ele - deixe-me ficar at de manh. At l, pensarei em um jeito de faz-la acreditar. Estou muito cansado agora. No consigo pensar.
   - Tudo bem. - Burra, disse para si mesma. Burra por deixar esse louco ficar a noite toda. Mas no podia expuls-lo, no com aquele sofrimento nos olhos.
   O alvio no rosto dele foi inacreditvel. Ele a puxou para mais perto e a abraou.
   - Obrigado, Jane.
   Zach refletia que ela talvez fosse a mulher mais generosa que j conhecera. Ela sugerira que ele devia descansar e expressara preocupao com a sade dele antes
de se recolher. Verdade seja dita, estava mais do que apenas um pouco preocupado consigo mesmo. Aquele lapso de memria... E essa fraqueza incessante, e a vertigem
recorrente. Passar pelo portal lhe causara alguma alterao fsica, e ainda no tinha certeza da extenso do dano. Pegara no sono instantaneamente e s acordou agora,
com o sol j nascido. E ainda se sentia exausto e doente. A cabea doa. Mas no tinha tempo a perder deitado, esperando melhorar. Pelo que sabia, devia piorar,
e no melhorar. Decidiu que seria melhor trabalhar imediatamente.
   Trabalhar? Mas que trabalho? O que poderia fazer? Nada, a no ser esperar. No poderia voltar para sua poca at que o aparelho fosse recarregado. Ento ficaria
aqui por trs dias, incapaz de fazer algo pelo filho.
   No era motivo para perder as esperanas, apenas um imprevisto. Esperaria e depois voltaria para o momento exato do qual viera. A sade de Benjamin no teria
tempo de piorar. E de l, Zach simplesmente recomearia. Faria alguns ajustes e tentaria de novo. Enquanto isso, havia muito pouco que pudesse fazer. Parecia que
sua tarefa principal seria provar a Jane quem ele era, convenc-la a deix-lo ficar, visto que no tinha outro lugar.
   Isso. Teria de convencer Jane a deix-lo ficar. Felizmente, pensou, influenciar mulheres era uma de suas especialidades. Perdendo s para a cincia, claro. Ou
pelo menos, fora assim um dia. Imaginou se conseguiria reunir charme suficiente para domin-la. Teria de tentar. Havia mais em jogo do que uma conquista. Havia Ben.
Benjamin estava a salvo... Por enquanto. Ento Zach estava livre para lidar com o problema que tinha em mos.
   Olhou para suas roupas amarrotadas. Primeiro tomaria um banho e trocaria de roupa. Sua bolsa ainda estava no cho, onde a jogara assim que chegou. Ento, pelo
menos, tinha as anotaes mais recentes, que rasgara do dirio Para o caso de precisar delas, algumas ferramentas bsicas, uma muda de roupa e alguns artigos de
toalete. Carregou esses ltimos consigo at o banheiro, e depois pensou nas maravilhas que encontraria l.
   Primeiro, perguntou-se como se viraria sem vela ou lampio. Mas depois lembrou da luz eltrica no quarto de Ben... Quer dizer... De Cody, e procurou o local na
parede perto da porta onde o dispositivo deveria estar. Encontrou o interruptor, moveu-o, e o banheiro se encheu de luz. Zach ficou surpreso com o que viu e explorou
mais. A banheira era enorme, com tubos fixados nela. gua quente e fria correu para dentro dela com um simples toque. Ainda mais avanado do que seu prprio banheiro,
que j era o que havia de mais moderno. A julgar pelo mpeto com que a gua saa dos tubos, sabia que tinha de ter uma fora por trs disso, que no era a mera gravidade.
A pia tambm estava limpa e cheia dgua. Ar quente saa de um registro na parte baixa da parede. No cheirava  fumaa de madeira. Alguma outra coisa estava esquentando
a gua e a casa. A essncia bsica do dia-a-dia mudara drasticamente.
   Encheu a banheira e ficou l deitado por um longo tempo, enquanto tentava imaginar que outros avanos descobriria nessa nova era. Automveis... Teriam se provado
prticos ou foi uma moda passageira, como tantos de seus amigos prognosticaram? Teria essa nova gerao da humanidade se livrado das doenas? Teriam conseguido a
paz mundial? E essa mulher, Jane, dona de uma casa cheia de maravilhas modernas e criando um filho sozinha. Seria isso comum hoje? Zach franziu a testa ao pensar
nisso. Alguma coisa dizia a Zach que nada nela era comum.
   Beijara-a.  verdade que estava delirando quando fez isso, mas no tanto que no conseguisse lembrar de cada instante do beijo. E a resposta sonolenta. A respirao
suave em sua boca, as mos espalmadas em seus ombros. Ela atiara um fogo que h muito no sentia. Talvez nunca. Houvera paixo entre ele e Cludia, mas suspeitava
estar baseada mais em sua juventude e energia do que em qualquer outra coisa. Tinham pouco em comum. E, mais tarde, ele percebeu que no passara de uma mera diverso
para ela. Cludia no dava a mnima para ele, que era jovem, tinha pouco dinheiro e poucas perspectivas. Ela era casada com um homem rico, tinha uma posio social
notria, e no podia colocar tudo em risco admitindo seus freqentes casos com homens mais novos. Muito menos admitir que ficara grvida de um deles.
   Viajara para fora do pas a fim de visitar uma tia. Pelo menos essa foi a histria. Meses depois, Benjamin foi deixado na porta de Zach, com um bilhete prometendo
que Zach estaria arruinado social e financeiramente se abrisse a boca sobre a me da criana. Nunca mais quis ver a criana nem o pai de novo.
   Zach refletia que fora o melhor aprendizado que tivera. Ah, aprendera tudo sobre mulheres. Eram criaturas prticas. Nenhuma mulher se interessaria por um homem
que no fosse rico, principalmente se fosse menos rico do que ela. Os interesses de Cludia mudaram recentemente. Sem dvida, devido ao fato de o marido rico ter
morrido e deixado a maior parte de sua fortuna para um sobrinho. E nos anos entre esses acontecimentos, Zach adquiriu sua prpria riqueza e posio social. Mas no
estava mais interessado nela. Por um tempo usou as mulheres, como um dia fora usado por uma delas. Uma vez aprendido como funcionava o jogo, no teve mais desiluses
sobre romance ou amor.
   Talvez a amvel Jane tenha aprendido a lio tambm. ou talvez fosse uma viva solitria. Embora a maioria das vivas que Zach conhecera continuasse a usar a
aliana de casamento.
   Jane. Linda, corajosa, apaixonada. Parecia um anjo. Mas beijava como uma mulher que estava h muito tempo sem um homem. Pensou que poderia resolver esse problema.
Esses pensamentos o surpreenderam, j que desistira da vida mundana h bastante tempo. Mas estava h muito tempo sem o toque de uma mulher, e o dela era... inacreditvel.
Tinha trs dias aqui, e pouco a fazer a no ser esperar.
   Uma seduo bem planejada provavelmente ajudaria muito a convenc-la de que ele era quem dizia ser. Ou, pelo menos, a deix-lo ficar.
   No podia acreditar nos pensamentos que passavam por sua cabea. Seria isso mais algum efeito colateral da viagem no tempo o deixando confuso - ou era ela? No
importava. Achava que arranjara um meio mais simples de convenc-la.
   Enquanto estava deitado l, ouviu uma batida na porta seguida pela voz de Jane.
   - Voc est decente?
   Algum demnio despertou dentro dele e o fez responder:
   - Pode entrar.
   Talvez quisesse julgar suas reaes, ento poderia sondar o tipo de mulher com o qual estava lidando. Um teste, como muitos outros que fizera hoje. Ignorou a
voz fraca em seu crebro que dizia que essa teoria no era nada alm de enganar a si mesmo. Essa mulher o atingira de um jeito que o perturbava muito mais do que
queria admitir, at para si mesmo.
   A porta do banheiro abriu-se, e ela entrou. Exceto por uma surpresa inicial, ela no mostrou nenhuma reao. Desviando o olhar, andou pelo banheiro e tirou grandes
toalhas verde-esmeralda do armrio, e um pequeno objeto de plstico rosa e uma lata de alguma coisa.
   - Se estava tentando me chocar, escolheu a maneira errada. Fui criada com irmos. - Colocou a toalha e os outros itens perto da banheira e, sem olhar, virou-se
para sair.
   - Jane? - Ela parou, de costas para ele. Usava um robe agora, por cima da camisola. Mas aqueles cabelos ainda caam soltos pelas costas, fazendo-o ansiar por
passar as mos neles. - O que  isso?
   - Achei que ia querer fazer a barba. - Ainda estava de costas.
   Franzindo a testa, Zach inclinou-se e pegou a coisa rosa.
   - Essa coisinha  um aparelho de barbear? - Conseguia ver claramente, sob inspeo detalhada, que era exatamente isso.
   -  claro que .
   Ele suspirou alto e alcanou o resultado esperado. Ela virou-se, mas manteve os olhos grudados em seu rosto.
   - Poderia me mostrar como funciona? Mudaram drasticamente nos ltimos cem anos.
   Os olhos dela estreitaram-se ao procurar os dele, e ele tentava ao mximo esconder sua travessura. Ele comeou a levantar.
   - Fique onde est - ordenou ela.
   - Vou precisar de um espelho...
   - No se eu fizer a sua barba. - Ento ela ajoelhou-se ao lado da banheira, pegou uma das toalhas e deu a ele. - Cubra-se.
   - E molhar essa linda toalha?
   Olhando com cara feia para ele, Jane jogou a toalha ia gua, de forma que caiu bem no colo dele, sem dvida cobrindo as partes da anatomia dele que ela preferia
no ver. Ento pegou a lata, sacudiu e apertou um boto no topo. Espuma branca jorrou do bico para a mo dela. Zach sentiu os olhos arregalarem. Ento ela inclinou-se
e passou a espuma no rosto dele. O toque dela era quente e trmulo, e to bom que ele fechou os olhos e aproveitou.
   Quando terminou, ela mergulhou as mos na gua para enxagu-las. As pontas dos dedos encostaram-se  coxa dele, e ele percebeu que aquelas funes do corpo no
tinham sido afetadas pelos efeitos colaterais da viagem no tempo. Esperava que ela no percebesse a mudana na forma escondida embaixo da toalha.
   - Agora,  s pegar o aparelho de barbear e... - Ela demonstrou passando a lmina com cuidado pelo rosto dele. - Assim, viu?
   - Hum, hum - respondeu ele. Ento abriu os olhos e encontrou-a olhando feio para ele. - Quer dizer, sim, claro. Mas... E se eu me cortar?
   - Se voc  quem diz ser, ento j lidou com problemas bem maiores no seu tempo. E se pode lidar com eles, pode lidar com isso. - Ela deixou o barbeador na borda
da banheira e levantou-se para sair.
   - Sou quem digo ser. E voc vai acreditar antes do caf da manh. Prometo.
   Ela olhou para ele, e dessa vez seus olhos a traram, descendo e olhando para o peito e para a barriga. s pressas, virou-se e saiu do banheiro, fechando a porta
com firmeza.
   Jane encostou-se na porta do banheiro e tentou controlar a respirao. Quem quer que fosse, o luntico na banheira era inacreditvel. E isso o tornava perigoso.
Quanto antes ele sasse da casa dela, melhor. Fechou os olhos, mas a imagem do peito musculoso e molhado voltava a sua cabea.
   - Quanto antes, melhor - murmurou ela e desceu para comear a preparar o caf da manh.
   Quando j tinha feito o caf e colocado os pezinhos preferidos de Cody no forno, Jane subiu para acordar o filho. Mas Cody no estava mais na cama quando ela
entrou no quarto. Por um segundo, a ausncia dele a deixou alerta. E ento escutou os rudos do Nintendo vindos do incio do corredor. Enquanto se vestia, olhava
para o retrato que estava pendurado na parede acima de sua cama... Ento ficou parada, mergulhada naqueles olhos do retrato. O inventor. O viajante do tempo. Sara
diretamente de um romance de Jlio Verne e aterrissara no meio de sua vida.
   Ou, ento, o homem que de alguma forma se transformara em seu hspede conquistaria sua confiana. No mnimo, isso era perturbador. A coincidncia disso. Ele parecia
tanto o homem do retrato. At as roupas...
   Mas  claro que era impossvel. Mas ainda assim, algo sobre aquele homem mexia com ela. Queria ajud-lo. E hoje faria isso. Tentaria convenc-lo a deixar que
o levasse a um mdico. Talvez tenha levado uma pancada na cabea, ou algo assim.
   No avisara Zach para no contar a Cody de onde achava vir, ou quem pensava ser, e deveria ter avisado. Deus, podia imaginar a chamada que levaria quando Cody
comeasse a contar essa histria para os amigos da escola. Alm disso, isso s o confundiria. Era muito jovem para entender um conceito desses, mesmo sendo mais
inteligente do que a mdia.
   Terminou de se vestir e foi at a porta de Cody, e ficou olhando por um instante. Cody estava de p perto da escrivaninha rindo copiosamente enquanto o homem
que dizia ser Zachariah Bolton, o gnio, manejava o controle e levava o pequeno Mrio na tela direto para um penhasco e para o esquecimento.
   - No se sinta mal - disse Jane. - Tenho tentado h meses e ainda no consegui passar da fase dois.
   Ambos se voltaram para ela e estavam sorrindo. Os olhos de Zach brilhavam com espanto.
   - Isso  impressionante!
   - E vicia. Tome cuidado ou vai se ver grudado nessa coisa como uma mosca em uma teia de aranha. - O sorriso dele se abriu e ela prendeu a respirao. Limpo e
barbeado, ele era ainda mais lindo. Principalmente quando sorria. Sua mente escolheu aquele momento para lembrar daquela boca a beijando na noite passada, e logo
desviou os olhos. Tarde demais, porm. Ele percebera. Ela viu o modo que o olhar dele desceu at seus lbios. E sentiu o ar entre eles pesar.
   - Cody, o que eu disse sobre Nintendo antes do caf da manh?
   - Eu sei, me. Mas Zach nunca viu nada parecido com isso. Viu, Zach?
   - Com certeza, no.
   - Me, eles no tinham nem televiso em 1897. Ela fez uma careta e lanou um olhar para ele:
   - Voc no contou para ele...
   - Ele percebeu tudo sozinho.  claro que fez muitas suposies. Pelo que lembro, a primeira foi se eu era um viajante de outro planeta. Depois, se eu era um fantasma.
E, por ltimo, se eu era um... Como voc chamou, Cody?
   - Um policial do tempo - respondeu Cody.
   - Sabia que no devia ter deixado voc alugar aquele filme do Van Damme.
   - Jane, honestamente - disse Zach. - Sua linguagem...
   - O caf estar pronto em quinze minutos. Estejam l.
   - Estaremos, me.
   Ela olhou para os dois, questionando se era seguro deixar Cody sozinho com esse homem, delirante como estava.
   - No v ainda, Jane - disse Zach colocando o controle no cho e levantando. - Tenho algo para lhe mostrar. - Foi at a cama, pegou a bolsa, desafivelou-a e enfiou
a mo. Tirou um jornal e se virou para encar-la, segurando-o.
   - Prometi que provaria quem sou antes do caf da manh. Vamos l, pegue.
   Jane deu um passo  frente e pegou o jornal. Era to novo que ainda conseguia sentir o cheiro da tinta. O Rockwell Sentinel, 31 de agosto de 1897.
   Ela piscou e olhou para ele. Cody esquecera completamente o jogo e estava bem ao seu lado.
   - Uau.  verdade mesmo - disse ele espantado.
   - Cody, essas coisas podem ser feitas por encomenda. Voc sabe disso. - Os olhos dela encontraram os de Zach.
   - Sinto muito, mas isso no  suficiente.
   - Achei que no seria. Felizmente, tenho mais. - Chegou mais perto, virou-a levemente, apontando. - Tem uma tbua solta, a quarta a partir daquela parede. Embaixo
dela est o meu dirio. Anotaes que guardo do trabalho que estava fazendo. Coloco-as l para proteg-las. A minha rea  muito competitiva, nem todos so honestos.
As anotaes esto l, com exceo de uma pgina, que rasguei para trazer comigo. Anotaes e desenhos que eu usaria se o aparelho precisasse de ajustes ou consertos.
   Ela olhou para ele e depois para a tbua.
   - Vamos olhar. Precisamos tirar seu ceticismo do caminho para que eu possa continuar.
    - Olhe, me - implorou Cody. - Ele est falando a verdade.
   Jane foi em direo ao lugar indicado. Abaixou-se, pressionou a tbua solta com as mos, respirando entrecortado, soltou quando ela se moveu. Olhou para ele e,
ento, tentou puxar a tbua.
   - Se me permite. - Zach abaixou-se ao lado dela e puxou a ponta da tbua at que levantase uns poucos centmetros. Segurou-a assim enquanto ela passava as mos
por debaixo e tirava um dirio pesado com encadernao de couro, que colocou no colo ao sentar-se no cho.
   - No posso acreditar...
   - Voc tem de acreditar, Jane. Por favor, abra-o. Veja. Ela limpou a poeira da capa de couro e abriu o livro. As pginas estavam amareladas do tempo. Mas ainda
era possvel ler o que estava escrito. Ela balanou a cabea, demonstrando espanto.
   - Encontre o ponto onde uma pgina esteja faltando.
   Jane concordou e virou as pginas rapidamente, sendo cuidadosa com elas devido  condio frgil. Encontraram o lugar onde pontas amareladas e rasgadas era s
o que restava, e olhou nos olhos dele. Zach puxou uma pgina do bolso, alisou-a e entregou a ela. Estava branca, ntida e nova. Pegou a pgina, olhou para ela questionando-se,
e ento a colocou contra o lugar amarelado e rasgado no livro.
   E as pontas encaixavam-se perfeitamente. Examinou as pginas e percebeu que a caligrafia era idntica.
   - Meu Deus - sussurrou ela. -  verdade.
   Suas mos, que ainda seguravam o livro, comearam a tremer.
   - Sinto muito por assust-la desse jeito. Mas tinha de convenc-la a me deixar ficar. Trabalhar aqui at descobrir o que deu errado no experimento tenho de voltar.
   - Para salvar seu filho.
   - Isso. Tenho de evitar que ele morra. Se puder voltar para uma poca antes de Benjamin ser exposto ao vrus, posso tir-lo de l. Ele no ficar doente e no
morrer. E tenho de fazer isso aqui, neste quarto.
   - Por qu? - perguntou ela, e comeou a perceber que estava acreditando naquele homem. Chocada com o que ele dizia, mas ainda acreditando.
   - Existe algo aqui, alguma fora, algum tipo de dobra no tecido do tempo, como disse antes. Meu aparelho abre esse portal e me permite viajar atravs dele. J
tentei abrir o portal de outros lugares, do lado de fora, no solo, em outros quartos. No funciona. S aqui. Neste quarto.
   Ele suspirou e abaixou a cabea.
   - E devo admitir que existe a possibilidade de o portal ser limitado. Que minha viagem s me levar de volta a minha prpria poca. Talvez s volte para presenciar
a morte de meu filho e no consiga fazer nada.
   Ele pareceu surpreso ao olhar para Jane e ver lgrimas escorrendo de seus olhos.
   - No sei o que faria se perdesse Cody. Acho que isso acabaria comigo.
   - Ento voc entende o quanto isso  importante para mim
   - E claro que entendo. Sou me. Como poderia no entender?
   - Ento...
   Jane molhou os lbios, tomou flego e depois viu o apelo nos olhos de Cody, o mesmo que tinha nos olhos de Zach.
   - Tudo bem. Pode ficar, por quanto tempo precisar. Ele suspirou, cada msculo do corpo relaxando de uma s vez, enquanto a tenso sumia.
   - Obrigado. No  suficiente, eu sei, mas... - Ele balanou a cabea, como se as palavras lhe escapassem. - Obrigado.
   Jane levantou-se e entregou o jornal para ele.
   - S espero que voc consiga fazer isso... Quero dizer, voltar o suficiente.
   Ele fechou os olhos enquanto a agonia de um possvel fracasso tomava conta dele.
   - Tenho de conseguir.
   - Talvez no - disse Cody rapidamente. - O que foi que matou seu filho, Zach?
   Ele suspirou.
   - Febre quinaria.
   Cody abriu um sorriso forado, mas o corao de Jane quase parou. Esquecera. Meu Deus, como pde esquecer? Segurou o brao de Cody para impedi-lo.
   - Cody, no...
   - Temos a cura para isso agora. No precisa se preocupar em tentar voltar para a poca antes de Benjamin ficar doente. S precisamos arranjar o remdio para voc,
a vai conseguir deix-lo bom de novo.
   Ele encarou Cody. E ento o agarrou e abraou com fora.
   Jane ficou l, parada, observando os dois e tentando respirar, embora sentisse o peito apertado e pesado. Sabia que no podia deixar isso acontecer. Tinha de
impedir Zach de salvar seu filho doente.
   Porque se fizesse isso, existia a chance de perder o seu.


   Captulo 4

   Ela deixou-os. No podia fazer nada. No agora com Cody l, ouvindo cada palavra. Teria trs dias para evitar que Zachariah voltasse para o passado e curasse
o filho enfermo.
   Meu Deus, devia ser algum tipo de monstro para estar pensando dessa maneira! Como podia? Mas Cody... Era tudo para ela. Tudo que tinha, tudo que sempre quisera.
Se o perdesse...
   Enxugou uma lgrima dos olhos e disse a si mesma que estava certa. A morte de Benjamin salvara inmeras vidas. Era para ser assim, por mais dolorosa que fosse
essa realidade, estava l. Tinha de ser assim. No se pode simplesmente dar uma volta e alterar a histria.
   Mordeu o lbio trmulo. Talvez tivesse outro modo...
   Droga, ficaria louca pensando nisso. Pensar na magnitude de tudo isso, nas ramificaes, na impossibilidade a deixava tonta.
   Resolveu concentrar-se em tirar os pezinhos do forno e colocar  mesa. Tinha tempo. Trs dias. Por enquanto, s unha de sobreviver ao caf da manh.
   Cody e Zach apareceram na cozinha pouco depois, e Jane ficou aliviada ao ver que Cody tomara banho e trocara de roupa. Serviu pezinhos e ovos mexidos, e ao pegar
a vitamina diria de Cody, decidiu que Zach tambm poderia tomar uma.
   Ele pegou o pequeno comprimido da mo dela e o olhou.
   - Voc ainda no est completamente bom. E um suplemento vitaminico. Vai lhe fazer bem. - Ele deu de ombros e engoliu o comprimido junto com suco de laranja.
   Durante todo o tempo em que ele comeu, Jane notou o olhar curioso que lanava para a cozinha, para os eletrodomsticos, para a luz, para o microondas. Ele estava
repleto de dvidas, ela sabia. Mas ele continuou olhando para ela, e apesar de ela tentar esconder a preocupao, sabia que devia transparecer em seus olhos. J
que os dele estavam sondando e questionando. Ela evitou o olhar perturbador dele, andando pela cozinha, pegando manteiga para os pezinhos, enchendo as xcaras de
caf e os copos de suco antes de estarem pela metade.
   - Jane - disse ele, quando ela finalmente no tinha mais o que fazer e sentou-se para comer. - Tem alguma coisa errada? Voc pensou duas vezes sobre me deixar
ficar?
   E ento um carro entrou na rua e parou perto da loja, a salvando de ter de responder. No podia dizer para ele. Ainda no, e certamente no poderia fazer isso
na frente de Cody. Precisava falar com ele quando estivessem sozinhos e s depois de ter encontrado as palavras certas para convenc-lo de desistir dessa idia insana.
   - Tenho de... - comeou ela, mas as palavras fugiram porque Zach estava em p, correndo para a porta e observando o carro com espanto.
   Jane no pde deixar de sorrir ao segui-lo.
   -  um carro. Um automvel. Eles... - A buzina tocou.
   - Ih, Zach, tenho uma cliente impaciente para atender. A explicao vai ter de esperar at mais tarde.
   - Pode ir, me. Ns ficaremos bem. - Cody veio para o lado de Zach e olhou para ele: - Voc j viu carro antes, certo?
   Zach assentiu, o olhar ainda fixo no mais recente modelo de Cadillac parado ali na frente.
   - Mas nenhum como esse.
   Jane suspirou. No tinha tempo para perder. Passou por eles, pela porta e desceu a rua at a loja que ficava no final. Sabia, desde que vira o passageiro do carro,
que seria uma longa visita. Isabelle Curry, a bibliotecria e fofoqueira de planto da cidade. Felizmente, tambm era uma vida colecionadora de antigidades. Uma
boa, porm fatigante, cliente.
   - Dai-me foras - murmurou Jane, colando um sorriso no rosto.

   - Impressionante - disse Zach, passando a mo pelo automvel vermelho, liso e brilhante, examinando atravs do pra-brisa. - O vidro  escurecido.
   - Para o sol no bater nos olhos - explicou Cody. - Por que voc no entra, Zach? A Sra. Curry no vai ligar. Ela  legal.
   - Acho que... - Zach parou de falar quando Cody abriu a porta, o deixando ver melhor a parte de dentro da mquina. No conseguiu se deter. Colocou a cabea para
dentro e passou a mo pelo tecido macio dos assentos. A levou um susto quando Cody abriu a porta do outro lado e pulou Para dentro.
   - Vamos. Vou mostrar como funciona.
   - Cody, provavelmente no ...
   - Olhe - disse Cody, apontando. - Tem um rdio com CD player para ouvir msica enquanto dirige.
   Cody mexeu em algumas teclas no volante e depois apertou um boto. Msica alta, ou pelo menos alguma coisa vagamente parecida, inundou o veculo.
   Assustado, Zach entrou no carro, sentou-se atrs do volante, ignorando os sons ensurdecedores.
   -  muito fcil dirigir- disse Cody bem alto. - At eu sei.
   - Voc?
   - Claro. Fico olhando a minha me.
   - Sua me possui um automvel?
   - Claro, como voc acha que vamos aos lugares? Est na garagem, l. - Ele apontou e Zach notou o pequeno anexo perto de onde o pnei costumava ficar. - Olhe,
 fcil. Primeiro, voc vira a chave, assim...
   Cody virou a chave e o veculo ligou. Zach sentiu um sorriso abrir em seu rosto enquanto a vibrao do motor se espalhava por seu corpo suavemente, eficiente
e silencioso. Muito diferente dos autos que dirigira.
   - Depois voc move essa alavanca aqui - continuava Cody excitado com o papel de professor. - Pisa naquele pedal para andar e no outro para parar. Simples.
   - Sem engasgar? Sem embreagem?
   - Isso. - Os olhos de Cody vislumbraram um brilho travesso. - Quer tentar?
   Zach mordeu o lbio, verdadeiramente dividido. Por um lado, essa mquina no era dele e no tinha o direito de test-la. Por outro... Ah, que maravilha era isso!
Mal conseguia conter a excitao que o dominava.
   A deciso escapuliu de suas mos um segundo depois, quando Cody puxou a marcha e o carro deu uma guinada para trs. A traseira do carro estava virada para a casa
de hspedes, no final do caminho, e Zach mal conseguiu manejar o volante e alterar a direo a tempo de desviar da casa. Ele pisou no pedal que achava que deveria
parar a coisa, mas, em vez disso, foi mais rpido.
   - Maldito! - exclamou, pilotando loucamente enquanto o carro corria para trs pela grama.
   - Passei a marcha errada! - gritou Cody, puxando a alavanca. Houve um som horrvel. O veculo deu um solavanco, de repente mudando de direo e indo para frente.
   Jane e uma mulher troncuda e cheia de jias saram da casa de hspedes. As duas sacudiram os braos e gritaram, embora Zach no conseguisse escutar o que diziam
por causa da msica alta latejando em seus ouvidos e da gargalhada nervosa de Cody. O carro saiu da grama, indo em direo s duas, que se separaram deixando o carro
passar entre elas. Zach olhou por cima dos ombros e viu a mulher mais velha levantando-se do cho. Pelas feies, estava, no mnimo, furiosa.
   Ele tentou o outro pedal, e o carro parou to repentinamente que teve de agarrar o menino para que no fosse jogado para frente e batesse com a cabea. No ousava
tirar o p daquele pedal. Embora, quando as duas mulheres vieram correndo em sua direo, tenha ficado tentado a tirar o p para uma fuga rpida.
   Jane chegou ao carro primeiro, abriu a porta e passou por cima dele para mexer na alavanca mais uma vez. Com um rpido movimento do pulso, virou a chave e gritou
Para eles sarem do carro quando o motor desligou.
   - Pelo amor de Deus, o que voc pensa que est fazendo? - gritou ela olhando para Zach. Ento seus olhos amoleceram ao se virar para o filho. - Meu amor, voc
est bem?
   - Claro, me. S estava mostrando para Zach como se dirige. Mas ele no  muito bom nisso, n?
   A outra mulher s chegara depois, ofegante e com o rosto vermelho.
   - Quem  essa pessoa, e o que est fazendo no meu carro?
   - Est tudo bem, Sra. Curry - disse Jane calmamente, virando-se para a mulher. - Nenhum dano. O carro est perfeito, viu?
   Cody saiu do carro, e Zach achou que seria uma boa idia fazer o mesmo. Estava muito envergonhado.
   - Foi culpa minha - disse Cody, dando a volta no carro. - Quis tentar dirigir seu carro, Sra. Curry. Achava que sabia. Se Zach no tivesse pulado para dentro
e parado o carro, no sei o que teria feito.
   Jane arregalou os olhos e encarou o filho.
   - Cody Nicholas Fortune, voc sabe melhor...
   - Meu Deus! - disse a Sra. Curry, indo at Cody e o abraando contra sua barriga farta at que Zach suspeitasse que o menino fosse sufocar. - Pobre menino. Deve
ter ficado com tanto medo. Oh, Jane, voc no deve puni-lo por isso. Meninos sempre sero meninos. Eu nunca poderia ter deixado as chaves na ignio com um menino
da idade dele por perto. Onde eu estava com a cabea?
   Ela soltou Cody, que deu um sorriso angelical para a me. E ento Zach se encontrou sendo abraado pela onipresente Sra. Curry.
   - E voc! - falou ela, o apertando tanto at parecer que estouraria. - Um heri de verdade. Correndo atrs do carro e pulando para dentro para salvar um menino!
Que coragem!
   - Obrigado - tentou dizer ele, mas as palavras ficaram sufocadas pelo abrao.
   Ela o soltou, radiante.
   - Jane, no vai me apresentar a esse super-homem moderno?
   Disfarando a raiva, Jane disse:
   - Claro, Isabelle Curry, este  Zachariah B... - mordeu o lbio.
   - Bolton - terminou Zach automaticamente. Jane arregalou os olhos e lhe lanou um olhar que faria murchar uma alface fresca. - H, terceiro - acrescentou ele.
   Isabelle piscou.
   - E claro! Reconheceria voc em qualquer lugar. Faz idia da semelhana com seu av?
   - J me falaram que  extraordinria - disse Zach.
   - Tenho de concordar. O que o traz a Rockwell, Sr. Bolton? Zach franziu a testa, procurando uma desculpa.
   - Ele ... Est traando a rvore genealgica da famlia - disse Jane rapidamente.
   - Isso, estava ansioso para ver como a casa do meu... av estaria hoje.
   -  claro que sim - disse Isabelle. - Onde vai ficar enquanto estiver por aqui, Zachariah?
   - Aqui - respondeu ele.
   Os olhos de Jane o metralharam.
   - Aqui? - repetiu Isabelle. A animao terminou e algo mais se colocou em seu lugar nos olhos dela enquanto olhava de Jane para ele. - Com Jane?
   Jane abaixou a cabea, colocando a mo na testa.
   - Bem, isso no ... Legal? - disse Isabelle. Virou-se Para Jane, mas quando seus olhares se encontraram, o sorriso saiu dos lbios de Isabelle. - Tenho de ir
agora. voc sabe, muito o que fazer. - Esticou a mo para Jane. - As chaves, querida.
   Jane as entregou e olhou enquanto Isabelle entrava no carro e o ligava. A mulher se assustou quando a msica alta tocou e apertou um boto para deslig-lo. Um
segundo depois, j se fora, espalhando poeira pelo caminho.
   Jane puxou o cabelo para trs com as duas mos, inclinando a cabea para cima.
   - Nem sei por onde comear.
   - Peo desculpas, Jane - disse Zach. - Fiquei to intrigado com o automvel que fui insensato.
   - Voc no vai chegar nem perto de um carro de novo, a no ser que eu esteja com voc. Entendeu?
   Ele concordou, mas no pde evitar um sorrisinho por causa da raiva dela.
   - E voc - disse ela para o filho. - Voc mentiu para a Sra. Curry. Quantas vezes j conversamos sobre honestidade?
   - Bem, me, no podia falar a verdade. Que Zach no sabia dirigir porque veio de outro tempo e tudo mais. Ela no acreditaria.
   - Voc... - Jane olhou para Zach impotente. Ele encolheu os ombros.
   - Alm disso, voc tambm mentiu para ela - disse Cody.
   - Bem,  verdade, mas... Cody, eu... - E finalmente balanou a cabea. - Est certo, eu tambm menti, e isso foi errado. Infelizmente, eu tive de...
   - Ento em vez de nunca mentir, devemos nunca mentir a no ser que seja necessrio? - perguntou Cody.
   A inteligncia do menino era estarrecedora. E Zach sabia que s estava implicando com a me agora. Felizmente, Jane tambm sabia disso. Era possvel perceber
pelo modo como estreitou os olhos. Ela se abaixou e segurou os ombros do filho:
   - Podem existir ocasies em que voc precise mentir para outra pessoa, principalmente se estiver fazendo isso para evitar que algum se machuque ou que algum
problema muito maior acontea, ou porque sabe que ningum vai acreditar mesmo. Mas nunca, nunca mesmo, voc vai ter de mentir para mim. Entendeu? No importa o que
me disser, vou acreditar em voc. Ento, nunca vai precisar esconder a verdade de mim, viu?
   - Certo, me.
   - Que bom.
   - Posso ir andar de bicicleta agora?
   Ela assentiu, e ele saiu correndo em direo aos fundos da casa.
   Zach no conseguia tirar os olhos dela.
   - O que voc est olhando? - perguntou ela quando encontrou os olhos dele.
   Ele balanou a cabea lentamente.
   - Seu filho tem muita sorte de ter voc como me, Jane. Um rubor subiu pelo pescoo dela e se espalhou por todo o rosto. Zach resistiu  tentao de toc-la e
sentir o seu calor.
   Ela piscou, talvez um pouco confusa.
   - Elogios no vo livrar voc dessa, Zachariah. Voc estragou tudo.
   - A Sra. Curry vai esquecer disso.
   - Claro que vai, mas no antes de contar para todos na cidade que eu sou uma sem-vergonha que arranjei um gato e o estou exibindo por a na frente do meu inocente
filho.
   - Um gato? - perguntou ele.
   Ela ficou ainda mais vermelha e levantou as sobrancelhas.
   - No foi bem isso que disse.
   - Eu ouvi bem, voc disse gato.
   - Minha reputao est arruinada. Provavelmente vai me achar uma me incapaz.
   - Voc acha que a Sra. Curry acredita que estamos...
   - Fazendo sexo? - completou ela, e Zach ficou admirado pela maneira casual com que ela falou essas palavras. -  claro que acha. O que mais poderia pensar?
   - No consigo entender por que ela chegaria a tal concluso to drstica.
   - D uma olhada no espelho, Zach. A Sra. Curry no  insensvel do pescoo para baixo, nem cega, nem gay. provavelmente tem certeza de que eu tambm no sou nada
disso. Deus, espero que no saia no Rockwell Daily Star. Solteirona Local Vivendo em Pecado. Leia tudo sobre isso!
   Zach se segurou para no rir. Ela estava realmente chateada com a mancha que ele causara em sua reputao. Sendo que era difcil de se concentrar nisso, pois
tinha quase certeza de que ela acabara de dizer que ele era atraente. A no ser que tenha entendido errado.
   - A fofoca no mudou muito, no  mesmo?
   - Nada mudou nessa pequena cidade, Zach. Em qualquer outro lugar, no faria diferena se eu trocasse de homem todo dia. Ningum ligaria. Mas aqui temos Isabelle
Curry, a resposta de Rockwell  moralidade moderna, e o parceiro dela, pastor McDermott. E os dois tambm fazem parte da diretoria da escola.
   - Sinto muito. Talvez possamos dizer que eu aluguei um quarto na sua casa ou...
   - Ningum acreditaria, Zach.
   Zach suspirou, sentia muito por estar causando a Jane tal problema.
   - Acho que o melhor que posso fazer  conseguir esse miraculoso remdio assim que possvel e pegar meu caminho. Com certeza a sua reputao pode sobreviver a
meros trs dias vivendo em pecado, no pode? Enquanto isso, Jane, seria melhor se eu ficasse aqui na casa de hspedes?
   - No  mais uma casa de hspedes.
   Zach passou seu olhar de Jane para a casa de hspedes. Agora prateleiras de uma loja se alinhavam perto das janelas, e em uma placa acima estava escrito "Velhos
Tempos - Antigidades Finas e Peas para Colecionadores".
   - Gostaria de ver? - perguntou ela gentilmente. E apesar de saber que j deveria ter comeado sua busca pelo novo remdio, Zach se viu concordando. Alguns minutos
no faria diferena.
   - Gostaria - disse ele. - Gostaria muito.
   O sorriso que tocou os lbios dela e o brilho no olhar disse a Zach que esse pequeno negcio significava muito para ela. E que tinha orgulho dele. Ela o acompanhou
pela porta da frente, e Zach no reconheceu o lugar. Todo ele havia sido modificado, paredes demolidas. Agora era apenas um cmodo grande, com um balco comprido
ao longo da parte de trs, e muitas prateleiras. Tinham tantos itens nelas que nem dava para enumerar. Bules, pratos, bugigangas, caixas de msica. Tinha uma seo
inteira de livros e outra com peas de arte. E havia um canto sem prateleiras onde estavam vrios mveis que tinham sido limpos e polidos at brilharem. Uma cadeira
de balano de carvalho. Uma mquina de costura. Um pedestal.
   Cada item na loja tinha uma etiqueta com um preo pendurada. E no balco havia uma grande caixa registradora que, obviamente, era do tempo dele. Zach duvidava
que reconhecesse uma moderna.
   - O mnimo que posso dizer  que estou impressionado. Uma mulher estabelecendo e administrando seu prprio negcio. Dona de uma casa e de um automvel. Criando
um filho sozinha.
   Ela balanou a mo e disse:
   - No fique impressionado at que eu ganhe dinheiro suficiente para expandir.
   - Voc est tendo problemas financeiros? Ela sorriu para ele.
   - Zach, minha famlia  uma das mais ricas do pas. Tenho investimentos e aes que poderiam comprar a lua.
   - No entendo. Por que...
   - Cresci em Minneapolis, morando na manso do meu pai. Muitos empregados. Mais roupas do que eu podia vestir em um ano. Carros, escolas particulares e dinheiro,
dinheiro, dinheiro.
   - E?
   - E eu odiava isso. Zach, a Cosmticos Fortune  um monstro. Minha famlia acha que est conduzindo os negcios, mas a verdade  que so os negcios que a esto
conduzindo. Meu pai tem tanto cime do meu tio Jake que eles praticamente no conseguem conversar sem discutir. E eles so irmos. Minha me s pensa em dinheiro
e em como conseguir mais. No quero participar disso. No  para mim, e principalmente no  para Cody.
   Ela deu de ombros e passou ao lado dele, os olhos sonhadores examinando cada canto da loja.
   - Sempre fui a antiquada. Minha av me conhecia. Mais do que eu podia imaginar. Quando ela morreu, deixou esta casa para mim. Ento sa de casa para vir para
c e tentar levar uma vida mais simples. - Ela olhou para ele e abriu um sorriso. - E em vez disso, encontrei um inventor que viaja no tempo.
   - O que no  exatamente simples - disse Zach. - Estou impressionado de voc se achar antiquada. Para mim, voc  o oposto. Forte. Independente. Com opinies
prprias. Tudo que eu sempre... - interrompeu o que estava falando quando percebeu que ia falar "quis". - Tudo que sempre achei moderno - disse ele.
   Era verdade tudo o que vinha pensando, percebeu, um pouco surpreso. Tivera sua parcela de mulheres desde que Cludia partira seu ingnuo corao. Mas desde ento,
sempre zombara de seus modos dceis e risadinhas inspidas. Suas maneiras educadas e falsa timidez. A constante busca por maridos ricos. Bem no fundo, sempre desejara
uma mulher moderna. Uma que tivesse suas prprias opinies e que no fosse subserviente a nenhum homem. No queria uma mulher fraca, indefesa, infantil, mas sim
uma mulher como... Como Jane.
   No que quisesse uma mulher presa a ele. Nem mesmo uma como ela. No, aprendera muito bem a lio. Mas s de conhecer uma. Estar perto dela...
   - Talvez eu seja moderna para os padres do sculo XIX, Zach. Mas para o sculo XX, sou aquela que ficou parada no tempo.
   Zach respirou fundo e soltou lentamente.
   - Fale-me sobre... o pai de Cody.
   Jane levantou a cabea depressa. As sobrancelhas juntas.
   - No.
   - No quis me intrometer, Jane. S estava me perguntando como uma moa to antiquada conseguia...
   - Eu deveria estar arrumando os livros - disse ela. - Por que no entra e termina o caf da manh?
   Ele tocara em um assunto delicado. Tudo bem. Prometeu a si mesmo que no faria mais isso. Embora, por alguma razo, estivesse curiosssimo para saber sobre o
homem que engravidara Jane.
   - Acho que vou - disse ele. Esforou-se para tirar os olhos dela, virou e saiu da loja.
   - Almoamos ao meio-dia - disse ela, enquanto ele saa. Ele assentiu e fechou a porta.
   Jane teve mais clientes essa manh do que tivera desde que abrira a loja. Alguns deles at compraram alguma coisa. Estava convencida de que os outros vieram para
ver se conseguiam dar uma olhada no homem que Isabelle Curry sem dvida falara a respeito. O homem que estava vivendo em pecado com uma me solteira. Droga. J fora
difcil o bastante ver a especulao nos olhos deles quando chegou  cidade. Todos queriam saber onde estava seu marido. A maioria perguntava mesmo, e apenas alguns
poucos eram mais sutis. No os culpava por serem curiosos. Ela se mudara para o meio da sociedade organizada e antiquada deles, e eles queriam saber que tipo de
pessoa ela era.

   Deus, agora eles provavelmente acham que sabem.
   - Preciso de um quadro-negro - disse Zach.
   - Tem um no sto - respondeu Cody.
   Zach levantou a cabea. Estava murmurando para si mesmo, inconsciente da presena de Cody no quarto. Instalara-se em uma pequena mesa no quarto dele. As ferramentas
que trouxera estavam espalhadas  sua volta na mesa. O aparelho tambm estava l. Sem a tampa protetora, com sua parte interior exposta, enquanto ele se certificava
de que no tinha sido danificada ao passar pelo portal. O dirio com suas anotaes estava aberto, e uma caneta moderna estava ao lado. Zach j enchera trs pginas
com anotaes sobre a viagem.
   - Cody, estou tendo problemas com o vernculo de vocs. Diga para mim, o que significa quando uma mulher se refere a um homem como um, eh, gato?
   Cody abriu um sorriso.
   - Significa que ele  bonito.
   Zach percebeu que levantou as sobrancelhas em espanto.
   - Bonito?
   - Muuuuuito bonito. Minha me chamou voc de gato?
   - Eh... No. Claro que no. Na verdade, li em um livro.
   - Hum hum.
   Zach sentiu o rosto ficar quente. Ento Jane o achava... bonito. Muuuuito bonito. No era uma grande revelao. E certamente no deveria ser to prazeroso confirmar
o que j suspeitava.
   - Voc falou sobre o sto? - disse ele, em uma tentativa de mudar de assunto.
   - Isso - respondeu Cody. - Tem um monte de coisa l. Um cofre grande e alguns mveis antigos. Mas no sei por que voc precisa de um quadro-negro.
   - Ah, meu cofre. - Zach franziu a testa. Sem dvida tudo que estava l dentro no tem mais valor hoje em dia. E ocorreu a ele que, pela segunda vez na vida, estava
desejando uma mulher muito mais rica do que ele. Esse pensamento o preocupou mais do que devia. - O quadro-negro. Preciso para meus clculos. Meu trabalho envolve
problemas matemticos complicados e  mais fcil solucion-los se tiver... - Sua voz sumiu quando viu Cody afastar-se e abrir uma gaveta.
   - Por que no usa isso? - Mostrou a Zach uma pequena caixa, um pouco menor e mais fina do que seu aparelho.
   - O que...?
   - E uma calculadora - explicou Cody, virando-a para que Zach pudesse ver a pequena tela. Depois apertou os botes numerados. - Olhe isso, 153 vezes 45, dividido
por 56,9, mais 2. Igual a... - Pressionou o boto com um sinal de igual e mostrou a caixa para Zach.
   Mostrava 123,0017574. Zach balanou a cabea devagar e virou para a mesa, fazendo rapidamente a conta em um pedao de papel. Por incrvel que parea, alcanou
o mesmo resultado.
   - Vai ser muito mais rpido assim - disse Cody, colocando a calculadora ao lado do dirio de Zach. - Sinto muito pelo Benjamin. - Cody puxou uma cadeira, bem
ao lado de Zach, e sentou-se.
   Um enorme n se formou na garganta de Zach ao se lembrar de como Ben costumava trabalhar ao seu lado antes de ficar muito fraco. Foi quando Zach levara a mesa
e as ferramentas para o quarto do filho. Assim poderiam trabalhar juntos como antes.
   - Quero ajudar - disse Cody.
   Zach piscou os olhos marejados e acariciou o cabelo do menino.
   - Voc  um bom rapaz, Cody. Mas no sei o que pode fazer.
   - Mais do que imagina. - Cody girou a cadeira em que estava sentado e arrastou suas rodinhas, parando na outra mesa. - Voc ainda no viu meu computador.
   - Outra maravilha moderna? Cody assentiu e ligou um boto.
   - Tenho um modem. Podemos falar com cientistas de todo o mundo, baixar todo tipo de informaes. E voc pode colocar seus nmeros aqui e tentar fazer mudanas
antes de experimentar na mquina de verdade. Assim, consegue saber se alguma coisa vai funcionar antes de faz-la
   Zach colocou uma das mos sobre a mesa, piscando rapidamente.
   - Essa mquina... Pode fazer isso tudo?
   - Pode - disse Cody, sorrindo.
   - Todas as crianas desse sculo so to inteligentes quanto voc, Cody?
   - No. Acham que eu sou superdotado.
   Zach assentiu e trouxe sua cadeira para perto da de Cody.
   - Bem,  uma coisa boa. Decididamente, estou comeando a me sentir inculto. Parece que esse seu equipamento pode economizar muito do meu tempo. Ento... Vai me
ensinar?
   Cody concordou, e para Zach pareceu que a coluna do menino ficou maior e mais ereta. Zach observava e escutava enquanto Cody explicava a mquina. Parte dele desejava
poder desmontar aquela maravilha para ver o que tinha dentro, o que a fazia funcionar. Mas no podia correr o risco de quebr-la. J que sabia que ela diminuiria
consideravelmente o tempo de pesquisa. Se tivesse tido acesso a isso em seu tempo...
   Talvez pudesse encontrar um jeito de evitar os efeitos colaterais antes de voltar ao passado. Ou mesmo um modo de acelerar o processo de recarga. E voltar para
o filho o quanto antes.
   Jane os encontrou juntos no quarto, vidrados no computador, e ficou l parada, observando enquanto Zach lentamente pressionava as teclas e Cody o olhava com adorao.
   - Hora de lavar as mos para almoar - disse ela, assustando os dois.
   - T bom, me. Vamos salvar isso e continuar mais tarde. - Cody executou o comando de salvar, pulou da cadeira, passou por Jane e correu para o banheiro. Zach
tambm se levantou.
   - Espere um minuto - disse Jane. - Precisamos conversar. As sobrancelhas de Zach se arquearam e ele sentou.
   Jane entrou no quarto, olhando primeiro para o corredor para ter certeza de que Cody no escutaria. Ento sentou na cadeira que seu filho ocupara antes.
   - Cody  um menino especial.
   - Posso perceber isso.
   - O QI dele  muito mais alto do que o normal. E pelo que li a seu respeito, imagino que o seu tambm seja.
   Ele deu de ombros e no disse nada.
   - Zach, no se aproxime muito dele. Ele pareceu confuso.
   - Olhe, no quero que ele sofra. Ns dois sabemos que voc ter de voltar para seu tempo, no final das contas. Mas ele est se afeioando a voc, j posso ver
isso.
   - Ah, percebo onde quer chegar. Mas, Jane, eu preciso da ajuda dele. Usando essa mquina, eu posso...
   - No ligo para a mquina, Zach. S me importo com meu filho.
   - Eu tambm.
   E ela sentiu uma pontada de culpa por se opor de forma to decidida. Ainda mais pelo que tinha em mente. Suspirou e abaixou a cabea.
   - Sei o quanto isso  importante para voc. E que... Ele nunca teve um pai, Zach. E ultimamente, s tem falado disso.
   - Entendo.
   - No entende, no. Voc no pode nem imaginar. Ele ...
   - Eu entendo, Jane. Benjamin e Cody tm mais em comum do que voc pensa. Benjamin nunca sentiu o amor de me, e desde que ficou doente, s fala nisso. O desejo
por uma me. Entendo tudo que voc est falando.
   Ele entendia, agora ela comeava a perceber lentamente. Ela o olhou nos olhos:
   - Sinto muito... Pela sua esposa, quero dizer.
   Zach abaixou a cabea, mas no antes de ela ver rancor nos olhos dele. Mas ele balanou a cabea, parecendo ansioso para mudar de assunto.
   - Esse remdio, que pode curar meu filho. Voc tem alguma idia de onde posso consegui-lo?
   Ela tomou flego e ergueu o queixo.
   - Tambm quero falar com voc sobre isso, Zach...
   - No podemos conseguir o remdio sem a ajuda de um mdico, no  isso, me? - Ambos se voltaram para ver Cody parado na porta, enxugando as pequenas mos em
uma toalha. - No precisamos de receita?
   Os olhos de Zach encontraram os dela preocupados.
   - Precisamos - respondeu ela. -  um antibitico poderoso e uma substncia controlada. No podemos comprar a no ser que um mdico receite.
   - Ento falaremos com um mdico - disse Zach. - Explicaremos e...
   - E ele vai nos colocar em camisas-de-fora - disse Jane. No era uma boa soluo. Mas pelo menos era uma ttica para adiar o assunto. Quando Zach franziu a testa,
ela explicou: - Ele vai achar que somos loucos.
   - Ento temos de encontrar um outro jeito. - O olhar de Zach era intenso.
   - Podemos procurar no computador - disse Cody. - Descobrir como se faz o remdio e...
   Zach balanou a cabea.
   - Entretanto, teramos os mesmos problemas. No temos material e nem equipamento necessrios para criarmos o remdio. E se no fizermos exatamente igual, pode
no funcionar. No posso arriscar.
   Cody estava parado, mordiscando o lbio.
   - Me, lembra quando voc disse que podemos contar uma mentira se realmente precisarmos?
   Ela estreitou os olhos para encarar o filho.
   - Lembro.
   - Bem,  a mesma coisa com... roubar?
   - Cody, voc sabe que nunca, nunca mesmo  certo roubar. Nunca!
   - Por que, Cody? - perguntou Zach, indo at Cody e se ajoelhando diante dele. - Voc sabe onde podemos encontrar esses comprimidos?
   - Claro. O Doutor Mullingan tem todos os tipos de comprimidos no armrio branco do consultrio dele. Lembra, me? Quando tive garganta inflamada? Ele abriu o
armrio e pegou um frasco de penicilina. Ele tem um monte de antibiticos l.
   Zach olhou para Jane. Cody tambm.
   - No. - Ela balanou a cabea firmemente. Eles ainda estavam olhando para ela. - No vamos fazer isso. J no  ruim o suficiente a cidade toda estar achando
que estou fazendo... - Ela mordeu o lbio. - No vamos convenc-los tambm de que sou uma ladra e viciada em remdios.
   - Podemos deixar dinheiro para pagar os comprimidos, me. A no seria realmente um roubo.
   - Cody Fortune, no quero ouvir nem mais uma palavra sobre isso. Entendeu? Nem uma palavra. Ningum nesta casa vai roubar nada, em lugar nenhum, nunca. Entenderam?
   O queixo de Cody caiu.
   - Entendi.
   - Bom. Agora... O almoo est servido. Vamos descer. Ela saiu do quarto e eles seguiram.
   - Talvez - ela ouviu Zach dizer - eu possa convencer esse bom mdico a me dar alguns comprimidos. Quer dizer, se eu fosse v-lo.
   - Ele  esperto - respondeu Cody. - Sempre sabe se voc est fingindo.
   - Bem, talvez se eu falasse com ele. Onde voc disse que fica o consultrio dele, Cody?
   Jane virou e encarou Zach, mas Cody j estava dando informaes detalhadas sobre como chegar ao consultrio do mdico. No poderia adiar mais. Tinha de conversar
com Zach, contar por que ele no podia continuar com isso. E tinha de fazer isso logo. Hoje  noite, depois que Cody fosse dormir.

   Captulo 5

   Zach precisava descansar. Jane arrumara uma cama para ele dormir. Ainda no a aproveitara, embora cada msculo de seu corpo implorasse por isso. Tinha quase certeza
de que estava com febre. s vezes, sentia-se lento e grogue. Mas em outros, sentia-se perfeito. Os sintomas no pareciam estar diminuindo como esperara. Tinha esperanas
de que as pesquisas que estava fazendo, enquanto esperava o aparelho recarregar, lhe trariam as respostas para evitar que esse tipo de doena o acometesse na viagem
de volta.
   O aparelho. Estava na mesa de Cody ao lado do computador, e Zach o pegou e colocou na palma da mo. Era difcil acreditar que algo to pequeno pudesse significar
a diferena entre a vida e a morte de seu filho. J estava comeando a carregar. Talvez j tivesse at potncia para abrir o portal, mas como no estava com fora
total, teria algo diferente esperando-o do outro lado. Poderia voltar mais do que pretendia, o que no seria to terrvel. E tambm poderia no voltar tempo suficiente.
E isso seria um desastre. Nunca arriscaria. De qualquer forma, ainda no tinha o remdio. Mais dois dias. O aparelho estaria com potncia mxima, e isso o mandaria
de volta para o momento exato do qual viera. E salvaria a vida de Ben.
   Estava feliz por no ter a viagem no tempo afetado sua inteligncia. Aprendera as lies sobre computador com Cody bem rpido, e passara metade da noite "inserindo
dados", como o menino chamou, transferindo todas as suas anotaes e clculos para o computador. Com a ajuda de Cody, entrara em contato com um fsico de Detroit
e fizera o download de um programa que habilitava o computador a fazer as tarefas que precisava. Era absolutamente incrvel.
   Quase terminara de colocar suas anotaes nessa mquina. Cody j cara no sono em sua cama. Zach se sentia mal por estar com a luz acesa e clicando nas teclas
enquanto a criana tentava dormir. Em todo caso, estava na hora de um intervalo. Seus olhos estavam comeando a ficar vidrados.
   Foi at a cama, inclinou-se e gentilmente passou os braos por debaixo do menino adormecido. Quando o pegou, lembrou-se de Benjamin, to fraco que mal conseguia
sair da cama sem a ajuda de Zach. Comparando, Cody era pesado, e a diferena de idade no era a nica responsvel por isso, o que Zach sabia bem demais.
   Olhou para o rosto sardento e os cachos ruivos de Cody. E seu corao se apertou. Abaixando a cabea, beijou a testa do menino. Zach se perguntava se o pai de
Cody estava realmente morto, ou se simplesmente abandonara o filho como Cludia abandonara Benjamin. Se fizera isso, pensou Zach cruelmente, era um idiota. Ter um
filho como Cody e uma mulher como Jane... Qualquer homem mataria para ter isso. No fugiria.
   Foi para o corredor, carregando Cody para o quarto de hspedes que Jane preparara, e o deitou na cama. Dormiria melhor aqui, sem a luz e os clique das teclas.
Cobriu Cody, e o menino se agitou, abriu os olhos e fitou Zach.
   - Eu gostaria - disse ele com a voz sonolenta - de ter um pai como voc.
   Zach lutou contra as inexplicveis lgrimas que surgiram em seus olhos.
   - Se eu pudesse, faria de voc meu filho.
   Cody sorriu e caiu em sono profundo. Mas Zach continuou l, parado, chocado pelas palavras que acabara de pronunciar. Fazer de Cody um filho seu? E Jane tambm?
Meu Deus, que tipo de idia boba era essa? Por um instante apenas, o pensamento lhe ocorreu e agora no conseguia tir-lo da cabea. O pensamento de que poderia
lev-los com ele quando abrisse o portal. Fazer seu filho ficar bom e dar-lhe a me que desejava. E um irmo mais velho. Que poderia ficar com Jane, aquela mistura
incrvel de mulher moderna e menina antiquada, faz-la parte de sua vida, para sempre...
   Ridculo. Alm de no ter lugar para uma mulher em sua vida, no tinha iluses de que Jane concordaria com isso. Deixar as convenincias modernas, microondas,
carro? Afastar Cody do computador e dos jogos de Nintendo? Metade do que o menino aprendera nem existia na poca de Zach. No, era um capricho tolo que ficaria melhor
se esquecido. Tinha seu filho e seu trabalho. E era tudo do que precisava. Tudo de que sempre precisara.
   Voltou para a tela do computador de Cody, para trabalhar um pouco mais e esperar, como esperara a noite toda, pelo som dos passos de Jane quando passasse para
seu quarto. Olhou para a anotao que fizera mais cedo, quando perguntara a Cody se sabia o nome do remdio que curava a quinaria. E, claro, o gnio rapidamente
lhe informou. Triptonina. Tinha tudo de que precisava para continuar. Mas no podia fazer nada at Jane dormir. Ao olhar para o relgio, viu que j eram onze horas
e ela ainda no se recolhera. O que ela estava esperando?
   A porta se abriu, e Jane apareceu com uma xcara de caf fumegante na mo.
   - Vi que a luz ainda estava acesa. Pensei que devia estar precisando de comida. - Quando ela entrou, ele viu um prato de biscoitos na outra mo. E seu estmago
roncou agradecendo.
   - Obrigado, Jane.
   - Vai ficar fazendo isso a noite toda?
   - Quando o aparelho estiver recarregado, preciso estar pronto para us-lo. Se conseguir encontrar uma explicao para esses efeitos colaterais, melhor.
   - Sei disso, Zach, mas no far nenhum bem ao Benjamin se trabalhar at ter um colapso. - Ela levantou a xcara, e ele a pegou, as mos se encostando. Ento Jane
se aproximou e colocou a mo na testa e depois na bochecha dele.
   Gostava de t-la assim to perto. Gostava de sentir o toque dela.
   - Voc est ardendo em febre!
   - Que exagero! E s uma febre fraca.
   As sobrancelhas formaram dois lindos arcos acima dos olhos, que ele poderia passar horas admirando.
   - O que  isso? Pegou febre quinaria tambm?
   - No, eu tive quando era criana e, de alguma forma, sobrevivi, ento sou imune.  apenas... Outro efeito colateral, acho.
   Ela colocou o prato com biscoitos em cima da mesa e saiu, voltando segundos depois com dois pequenos comprimidos brancos que entregou a ele.
   - Tome. Vo ajudar a passar a febre.
   Ele tomou. Depois pegou um biscoito e o molhou no caf.
   - Zach, j pensou no que vai acontecer quando voltar atravs daquele... portal? Digo, se no encontrar uma maneira de evitar os efeitos colaterais.
   - No h como dizer. Estou tentando entender exatamente por que o portal me causou essas reaes, mas at agora no sei.
   - Voc no parece nem um pouco melhor do que quando chegou. Na verdade, pior.
   - No, no estou pior. Nem muito melhor, s um pouco. Talvez tenha criado uma tolerncia de modo que, quando voltar, os efeitos sero menos acentuados.
   - Ou talvez piore cada vez mais e chegue l mal.
   - Nem penso nisso, Jane. Se eu conseguir chegar l com o remdio para Benjamin, no ligo para o que vai acontecer comigo.
   - Eu sei. - Ela fechou os olhos por um instante. Um segundo depois, abriu os olhos e respirou fundo. - Mas h alguns outros efeitos colaterais, repercusses,
para o que planeja fazer que voc no considerou, Zach. E acho que est na hora de consider-los.
   Zach franziu o cenho para ela.
   - Algo a est preocupando nisso tudo. Percebi hoje de manh. Mas, Jane, meu filho est morrendo. O que mais pode importar?
   Jane abaixou a cabea, e Zach pegou em seu queixo e o levantou, alcanando seus lindos olhos.
   - Voc no quer que eu volte, Jane. Por qu? Ela abriu a boca, mas fechou logo.
   - Est certo. Acho que sei por qu. - E, ento, bem devagar, ele abaixou a cabea e tocou os lbios dela com os seus. Eles tremeram com o toque de sua boca, e
o desejo que sentira por ela o inundou de novo, e o fez vibrar por dentro. Deslizou seus braos pela cintura dela e a puxou para si. Seus lbios envolveram os dela
quando eles se abriram. Ela deixou escapar um suspiro trmulo, que ele inspirou, extasiado, enquanto Jane o abraava, as mos espalmadas em seus ombros, o corpo
se arqueando contra o dele.
   Atordoado e excitado alm da razo, Zach levantou a cabea.
   - Eu quero voc, Jane. Loucamente.
   Ele levantou a mo para enrascar os dedos nos cabelos dela, enquanto a outra permanecia em suas costas, segurando-a perto de si.
   - Eu... - Ela respirou, e ento seu corpo se enrijeceu, os olhos se arregalaram enquanto o encarava. - No - disse ela docemente, e no havia dvidas no que via
em seus olhos. Era medo. - No vou me... No de novo.
   E ento ela se virou e saiu do quarto. Algo obrigou Zach a ir atrs. Foi at a porta e viu Jane correr pelo corredor at entrar no prprio quarto. Observou-a
passar pela porta e fech-la com fora. Depois, escutou os sons gentis do colcho dela estalando enquanto deitava. Fechou os olhos e disse para sua imaginao que
deveria se comportar. E enquanto sentia isso, dizia ao corao para voltar a dormir, como fizera nos ltimos seis anos, e parar de ansiar Por algo que nunca poderia
ter.
   Deus, devia estar com problemas mentais tambm, a exausto por esses pensamentos tomava conta dele. Precisava dormir.
   Mas ainda no. Tinha uma misso esta noite, e nada, nem Jane e o desejo cheio de medo em seus olhos, faria com que deixasse de conclu-lo.

   Ele no era o homem que ela desejava. No era o pai que queria para Cody e nem o homem de seus sonhos. Era um mulherengo, considerado o Don Juan da poca. E mesmo
que fosse um exagero, um fato no podia passar despercebido. Ele ia deix-la. Assim como Greg. No se entregaria aos sentimentos que a inundavam, como ondas em cmera
lenta atingindo a areia. No deixaria seu corao se partir de novo. No deixaria.
   E ainda assim ficou acordada por horas, desejando que houvesse algum jeito de...
   Deus, nem falara porque ele no poderia seguir com o plano. E mesmo quando ele percebesse a impossibilidade disso, ainda assim desejaria voltar para o filho,
estar ao lado dele no final. Esse pensamento trouxe lgrimas aos olhos de Jane. Ele a odiaria pelo que teria de falar. Odiaria por ela ser a pessoa que o faria perceber
que era o destino do filho morrer, e, desse modo, salvar inmeras vidas. Ele a odiaria. E seria muito doloroso ver esse sentimento nos olhos dele quando falasse.
   No conseguia dormir. Sentia o estmago revirar, e depois de se debater sem descanso, levantou com a inteno de descer, talvez andar um pouco e ensaiar as palavras
que usaria para jogar a bomba que poderia muito bem destruir Zachariah.
   Passou pelo corredor na ponta dos ps, mas quando se aproximou da porta do quarto onde Zach estava dormindo, percebeu que seu p no iria a lugar algum. Era estpido.
Ele estava dormindo agora. Nenhuma luz saa por baixo da porta fechada. Mas no poderia passar sem pelo menos dar uma olhada, observ-lo enquanto dormia, se deleitando
com a imagem dele, desejando que as coisas pudessem ser diferentes.
   Como esse homem conseguira penetrar por sua pele to profundamente em to pouco tempo?
   Fechou a mo em volta da maaneta, e a abriu suavemente. Mas a cama estava vazia. Entrou no quarto, acendeu a luz, mas Zach no estava l. E uma sensao desgastante
dentro do estmago dizia que ele tambm no estava em qualquer outro lugar da casa. Tinha uma boa idia de onde ele fora. Depois de ter falado expressamente que
ele no deveria. Ao consultrio do Doutor Mulligan, a poucos quilmetros dali. Provavelmente a p.
   Jane fechou os olhos e colocou a mo na testa. Maldito. Ele no tinha o direito de ficar sozinho e tentar invadir o consultrio, na condio em que estava. Poderia
ter um colapso na rua e a, o que aconteceria? E se acordasse sem memria de novo, divagando sobre 1897 e a escrivaninha da tia Hattie? Seria levado para um hospcio.
   Chegou ao andar de baixo, embora j soubesse muito bem que no o encontraria l. Passou pela sala de estar. Deveria ir atrs dele. Poderia estar em algum lugar
machucado ou passando mal. Ou na cadeia. Ah, pelo amor de Deus, o que falaria quando o encontrasse? Como explicaria que soubera que ele sara. Confessaria que estava
se sentindo sozinha e sem sossego, incapaz de dormir? Admitiria que sara da cama e que atravessara o corredor na ponta dos ps, no meio da noite, e que abrira a
porta do quarto silenciosamente para poder observ-lo dormindo?
   De jeito nenhum.
   Mas tambm no podia deixar Cody sozinho para ir atrs dele. E no podia acordar o filho, ou o pequeno travesso ia querer seguir o rastro criminoso de Zach.
   Uma sensao estranha subiu por sua espinha, chegando at a nuca. Uma sensao que s outra me entenderia. Franzindo a testa, balanou a cabea e estreitou os
olhos. Cody...
   Correu para o quarto de hspedes onde Cody estivera dormindo e entrou, e ento teve o que parecia claramente uma taquicardia.
   A cama de Cody estava vazia.

   - Zach, preste ateno!
   Zach caiu de joelhos no mesmo instante em que ouviu o sussurro rouco. E ento virou-se, procurando na escurido o pequeno corpo que cara ao seu lado. Um automvel
passou, os faris iluminando o matagal em frente a eles e depois sumindo a distncia.
   Zach agarrou os ombros de Cody, encarando seu rosto sardento com completa incredulidade.
   - O que voc est fazendo aqui?
   - Eu segui voc, Zach. Achei que poderia ajudar. Conseguiu?
   - Se sua me descobrir...
   - Conseguiu? - perguntou Cody de novo.
   - Consegui.
   - Como? - Cody sacudia o brao de Zach. - Como, Zach?
   - Quebrei uma janela, atravessei e destranquei a porta. O armrio estava exatamente onde voc falou.
   - Voc devia ter me esperado! Maldio, Zach, tem um alarme na porta. O Doutor Mulligan tem de digitar um cdigo, mesmo tendo a chave. Se voc no... Acho que
o xerife...
   - Vamos sair daqui. - Pegando o brao de Cody, Zach correu em volta do edifcio, pela grama molhada. Atravessou a rua na escurido. Soltava fumaa ao respirar.
   - Nunca vamos conseguir, Zach. O alarme deve ter tocado assim que voc abriu a porta. Cara, voc devia ter trazido minha bicicleta.
   - Ah, Cristo - disse Zach, vendo a distncia um veculo com luz vermelha piscando em cima. -  o...?
   - Isso,  o xerife 0'Donnel. Cara, estamos encrencados! Minha me vai nos matar. - Cody deu meia volta e depois parou ao ver outro veculo se aproximando rapidamente
vindo da direo contrria. - Olhe, Zach! Acho que ...  a mame! Vamos!
   Agarrando a mo de Zach, Cody correu at o carro que se aproximava e para longe do outro com luzes vermelhas. Estava escuro e os faris do carro do xerife ainda
no os tinha alcanado. Zach achava que o xerife no os tinha visto. Ainda.
   - Ela vai ficar furiosa por termos sado - disse Cody ofegante, ainda correndo e puxando a mo de Zach. - Mas pelo menos vai nos livrar da cadeia!
   Ela no podia acreditar nisso. No podia acreditar no que estava vendo. Seu filho. Seu gnio, de dez anos de idade, fugindo do carro da polcia no meio da noite,
como um fugitivo qualquer. Pisou no acelerador, correndo at l e derrapando para parar.
   Cody abriu a porta do carro, e os dois mergulharam no banco de trs quando o xerife se aproximava do carro de Jane.
   - Sentem-se e faam cara de inocente - ela mandou. Abriu o vidro ao ver Quigly atravessando a rua, parecendo srio.
   - Ol, xerife - disse ela, tentando soar alegre, o que era difcil, dado o fato de que estava morrendo de raiva por trs daquele sorriso.
   - Bem, Jane Fortune, aqui! O que est fazendo dirigindo pela cidade a esta hora? - Colocou a mo na porta do carro e se aproximou.
   - No conseguia dormir - falou abruptamente. Quigly franziu o cenho.
   - Ah, ? E eles tambm no? - Apontou com a cabea para os dois no banco de trs.
   - Ah, bem... No. Nenhum de ns. E que minha... gata desapareceu hoje e ficamos preocupados. Ento decidimos dar uma volta e ver se conseguamos encontr-la.
- Achava que era a resposta perfeita. Todos sabiam que Quigly 0'Donnel era apaixonado por animais. Viu o sorrisinho de Cody pelo espelho retrovisor e se deu conta
de que ele a pegara mentindo de novo. Belo exemplo de me ela estava se transformando.
   - Isso  muito ruim - disse o xerife, cocando o queixo. - E eu nem sabia que voc tinha uma gata. Algum sinal dela?
   - No, ainda no.
   - Bem, no se preocupem. S me dem a descrio e ficarei de olho.
   - Claro. Ela , hum...
   - Preta - ajudou Cody. Infelizmente, ele soltou isso no mesmo momento em que a me falava:
   - Branca. - E Zach:
   - Parda.
   Jane lanou um olhar para os dois linguarudos e se virou para o xerife de novo, sorrindo:
   - Malhada.
   - Sei. Ela est usando coleira?
   - Isso no pode esperar at outra hora, xerife? No quero lhe atrapalhar.  claro que est ocupado. - Ela apontou as luzes vermelhas ainda acesas.
   - , mas nada muito urgente. O alarme do consultrio do Doutor Mulligan disparou de novo. Terceira vez neste ms. Tenho de ir at l para verificar, mas acho
que tem algum bicho morando l. Desarma o detector de presena quando cruza o facho de luz. Um rato, um esquilo ou algo parecido. Por que veio para esse lado? Viu
alguma coisa?
   - Hum... No. Quero dizer s as luzes vermelhas. Achei que fosse lei, sabe, parar quando...
   - Bem, no quando est indo na direo contrria.
   - Ah.
   Enfiou a cabea pela janela:
   - Voc deve ser Bolton. Ouvi dizer que estava... ficando na casa da Srta. Fortune.
   - Na verdade, alugando um quarto. Prazer em conhec-lo, xerife. - Zach estendeu a mo para apertar a de Quigly.
   - Alugando um quarto, ? - Era bvio que o homem duvidava daquela conversa. - Bem, foi um prazer, Bolton.  melhor eu continuar meu trabalho e dar uma olhada
no consultrio. - Tocou a aba do chapu. - Vou ficar de olho na gata, Jane.
   - Boa noite - disse ela, passando a marcha.

   Ela andava de um lado para o outro na sala de estar, passando entre a confortvel poltrona de Zach e o brilho alaranjado na lareira. E ele apenas a observava,
quieto, se sentindo como daquela vez em que a diretora o pegara levando um hamster escondido para a escola, muitos anos atrs. Embora a Srta. Landon no fosse to
atraente quanto Jane, que ficava ainda mais bonita quando estava brava, algo que lhe parecia pouco comum em mulheres. Os olhos dela brilhavam de raiva. Seu rosto
suave tinha um brilho avermelhado, e os lbios estavam ligeiramente abertos.
   Sabiamente, Cody decidira obedecer sem questionar quando ela o mandou direto para a cama. Aquele pequeno capeta o colocou no fogo e escapou na primeira oportunidade,
deixando-o sozinho para enfrentar a fera.
   Garoto esperto.
   Ah, pelo menos isso lhe dera a chance de ver Jane assim. No era uma imagem da qual se esqueceria facilmente.
   Ela parou de andar e olhou para ele, que decidiu enfrentar a fera.
   - No sabia que Cody estava me seguindo. Ela virou os olhos e balanou a cabea.
   - Sa muito silenciosamente, Jane. Achei que vocs dois estivessem dormindo. Nunca envolveria o menino em um roubo. Acredite.
   Os olhos dela se estreitaram.
   - Eu tenho um filho, Jane. Tambm sou pai.
   O queixo delicado abaixou, a tenso no maxilar aliviou e o ar saiu de sua boca num suspiro.
   - Eu sei. Tudo bem, Zach. Acredito em voc. Mas eu disse para voc no...
   - Tente se colocar no meu lugar, s por um minuto. Os olhos de Jane se fecharam com fora, como se no quisesse se imaginar nessa situao. Mas, talvez, estivesse.
   - Seu filho, Cody, deitado na cama, morrendo com a febre. A um quilmetro de voc, trancado a chave, est o remdio que pode salv-lo. No iria peg-lo? - J
estava de p e foi at ela, pegou seu queixo e o ergueu gentilmente para que pudesse fitar aqueles olhos formidveis. - Voc me aconselharia a no fazer isso, Jane,
mesmo sendo essa pessoa linda e sbia?
   Ela manteve o olhar fixo no dele.
   - Voc sabe que no.
   Ele sorriu, deixando a mo cair.
   - Eu sabia que responderia honestamente. Agora tenho isso, Jane. - Tirou do bolso um pequeno pote de plstico marrom com comprimidos, colocou em cima da mesa
e o contemplou, quase sem conseguir conter a alegria. - Posso salvar meu Benjamin. Se puder voltar para ele, posso...
   - No, Zach - sussurrou ela. - Voc no pode. Ele franziu a testa e o sorriso se apagou.
   -  claro que posso.
   - Zach... Olhe, tem algo que no lhe contei. Achei que pudesse esperar at que estivesse se sentindo melhor, mais forte... No, isso  mentira. Estava esperando
porque no queria contar. No conseguia encontrar as palavras e no queria ver dio em seus olhos quando eu...
   - Jane.
   Ela parou com a perambulao, olhou para ele e, para surpresa de Zach, havia lgrimas em seus olhos. Seu prprio reflexo brilhava nelas. A imagem daquelas lgrimas
o deixaram em alerta. Tanto que se viu segurando nos ombros dela, pesquisando seu rosto.
   - Meu Deus, Jane, o que ?
   Ela fungou uma vez, e ento pareceu se recompor.
   - A cura para a febre quinaria foi encontrada por causa da morte de Benjamin. Quando voc desapareceu, Zach, seus colegas, Waterson e Bausch, se juntaram. Em
vez de competirem um contra o outro, trabalharam juntos para descobrir a cura e conseguiram. Eles fizeram isso em homenagem a voc, Zach, e a sua perda. A perda
de outras vidas nunca os inspirou como a perda de um homem que eles consideravam a melhor mente cientfica da poca. Eles acharam que voc tinha enlouquecido quando
Benjamin morreu e por isso desapareceu. Culparam a febre.
   Zach olhava para ela, balanando a cabea, sem acreditar.
   - Est tudo aqui - disse ela, virando-se para pegar um livro grande que estava na mesa. - Zach, se voc salvar seu filho, esses homens no descobriro a cura.
Talvez ningum descubra. Se voc mudar o passado dessa maneira... ento, o que ser do presente? Quantas centenas de pessoas morrero? E quantos milhares de descendentes
nunca nascero? E...
   - Pare! - Zach deu-lhe as costas e tampou os ouvidos com a mo. No conseguia suportar escut-la e saber que estava certa. To certa e nem tocara ainda na magnitude
das implicaes. O modo como a vida, ou a morte, de um pequeno menino podia mudar o mundo que ela conhecia. A sucesso de pesquisas que provavelmente se desencadeou
a partir do que a cincia aprendeu com a cura de uma doena com certeza levou  cura de vrias outras. Tudo isso poderia ser perdido. E as vtimas que essas doenas
fizessem... algumas delas podem se tornar uma das pessoas mais influentes da atualidade. Como seria o mundo de Jane se eles nunca tivessem nascido porque seus ancestrais
morreram de alguma doena cuja cura j deveria ter sido descoberta?
   Mos macias chegaram por trs. E ento a cabea de Jane recostou suavemente em suas costas.
   - Sinto muito.
   - No posso... - disse ele. - No posso simplesmente desistir, Jane. Tem de haver um jeito.
   - Voc no pode mudar a histria sem causar impacto no presente e no futuro. Qualquer coisa que fizer no passado ter repercusses.  como jogar uma pedra na
gua parada. As ondas vo se espalhando.
   Ele virou-se para encar-la.
   - No vou permitir que meu filho morra tendo os meios de salv-lo.
   - Sei que ...
   - No posso, Jane. E no vou.
   - Voc  um cientista. Pense no que pode acontecer, pense na humanidade.
   - No ligo a mnima para a humanidade! - gritou ele. - Quero meu filho! - E ento seus joelhos pareceram dobrar e ele se viu no cho, a mo segurando na poltrona
para se manter ereto. Fechou os olhos e deixou o queixo cair porque no conseguia suportar que essa mulher forte o visse chorar. - S quero meu filho.
   Antes que ele percebesse, ela estava ajoelhada na sua frente e o encarava. Os braos o envolviam como ao embrulhado em seda. Ela o puxou para perto, como uma
me embalando o filho, e o apertou contra o seu peito, balanando lentamente enquanto sua mo lhe acariciava os ombros e as costas.
   - Eu sei, Zach. Eu sei - murmurava ela.
   O rosto dele estava molhado, mas ele no sabia ao certo se as lgrimas eram dele ou dela.
   - No posso desistir dele, Jane. Santo Cristo, perdoe-me, mas no posso. - Ele passou os braos em volta dela, se agarrando a ela, como se fosse a salvao.
   - Talvez haja uma maneira... - Ela virou o rosto para ele, beijou a sua boca, provou suas lgrimas. Levantou a cabea, procurando os olhos dele. - Estou ficando
maluca de tanto buscar um jeito... e se houver, Zach, ns o acharemos. Mas se no houver...
   - Tem de haver! - Ele a abraou mais forte.
   O peito dela se mexia com os soluos, e ela enterrou o rosto no pescoo dele. Ficaram ajoelhados assim por um longo momento, se segurando um no outro, enquanto
Jane chorava. Finalmente, ela se aprumou.
   - Por enquanto, Zach, s por enquanto, descanse. Voc est doente, exausto e meio fora de si. Descanse.
   Zach levantou a cabea para fitar os olhos de Jane. No podia odi-la, no podia nem ficar furioso com ela pelo que dissera, pois no era nada menos do que a
verdade. Os olhos recm-enxugados dela encontraram os seus e se fixaram neles como em um abrao espiritual. Ela se levantou, pegou as mos dele e o levantou tambm.
Dando trs passos para trs, Jane parou quando estava ao lado do sof, ainda sem conseguir continuar. Ento Zach deixou suas pernas entorpecidas o levarem para onde
ela guiasse. Ele se sentou quando ela conduziu seu corpo para isso. Ele se sentia atordoado, chocado. Sua cabea rodava, enquanto tentava buscar uma soluo, mas
estava muito devastado para ver alguma.
   Ela se ajoelhou na frente dele. E se ele... No, isso no funcionaria. Jane pareceu sumir, s para retornar um segundo depois com comprimidos na mo. Ela os enfiou
entre os lbios dele. Seus dedos estavam salgados e frios. Ele bebeu o que ela lhe deu, engoliu os comprimidos, sua cabea ainda transbordando de possibilidades.
Parecia que Jane tinha um comprimido para tudo. Mas nenhum para curar esse pesadelo.
   Jane sentou-se na ponta do sof, pegou seus ombros e os puxou at que a cabea descansasse em seu colo. E ele pensou muito rapidamente nas coxas macias que estavam
embaixo de seu rosto, e de como teria gostado de toc-las... beij-las. Qualquer coisa para esquecer essa dor terrvel.
   Ela pressionou os indicadores em suas tmporas e comeou a friccionar em pequenos crculos. O sono veio lentamente, enquanto ele a via olhando para ele. O rosto
dela se transformou no rosto de um anjo, e depois ficou embaado e se dissolveu no nada.

   Cody estava sentado no topo das escadas e tentava no chorar como um beb, como os adultos fizeram. Toda sua vida, o que mais quis foi um irmo caula. Algum
de quem pudesse tomar conta, com quem pudesse brincar, a quem pudesse ensinar. E desde que Zach chegara, comeara a sentir como s realmente tivesse um. O pequeno
Benjamin, s poucos anos mais novo, doente e precisando de ajuda.  claro que ele estava alm do seu alcance, mas, mesmo assim, Cody sentia-se prximo dele. Sentira-se
como um irmo mais velho ao ajudar Zach a encontrar um jeito de salvar o pequeno Ben. E ento esses adultos estpidos tinham de vir e arruinar tudo isso com esse
papo de "para o bem da humanidade".
   Uma criana estava morrendo, pelo amor de Deus! Haveria tempo suficiente para se pensar no bem da humanidade mais tarde. Mas neste momento... aquele garotinho
de 1897 precisava de algum. E agora parecia que Cody era a nica pessoa que ele tinha.
   No. No ficaria sentado deixando os adultos decidirem o que era melhor. Eles simplesmente... no entendiam.
   Cody desceu as escadas, em silncio. Sorrateiramente, se aproximou da mesa de centro, e esticou-se, mantendo os olhos grudados na me. Zach no acordaria. Estava
longe dali, roncando como um leo. Entretanto, a me poderia. Tinha o sono leve. Mas apagara tambm, e no se mexeu quando ele se aproximou. As mos de Cody fecharam-se
em volta do pote de plstico. Subiu as escadas e finalmente chegou ao seu quarto. S soltou um suspiro de alvio quando a porta fechou.
   Uh! Essa foi a parte mais difcil. O resto seria mole feito pudim. Foi at a mesa e pegou o aparelho de Zach. Muito simples. Dois botes.
   Virou um deles.


   Captulo 6

   Alguma coisa acordou Jane. Devia ser o fato de Zachariah agora estar com o rosto virado para baixo em seu colo. Sua camisola se embolara no quadril, e o rosto
dele descansava nas coxas nuas e na calcinha de seda. Ela sentia cada fio de barba e o ronco suave soltava um ar quente em lugares que no sentiam isso h anos.
Lugares que ganharam vida e mostraram a Jane que se ressentiam pela negligncia dos ltimos tempos. Automaticamente, ela se virou, tentando se livrar dessa posio
constrangedora, mas s piorou. Zach se agitou. A mudana no padro de sua respirao mostrou que ele estava acordado. Mas demorou um pouco para se sentar. E quando
finalmente o fez, ela quase desejou que no tivesse feito, porque o brilho naqueles olhos escuros fez seu corao disparar.
   Ela esperava um comentrio inteligente. Mas ele nem sorria enquanto a olhava. O sol estava comeando a nascer, e uma colorao laranja pintava o rosto dele e
se refletia em seus olhos.
   - Eu nunca senti tanto medo na minha vida - confessou ele.
   - Nem eu. - Ela levantou a mo para tirar o cabelo negro da testa de Zach.
   - Voc? Por que, Jane?
   Ela decidiu que tinha de contar a ele o resto.
   - Eu no lhe contei tudo ontem, Zach.
   - Ento no faa isso agora. Droga, Jane, no sei se posso agentar mais alguma coisa.
   - Voc tem de agentar.
   - Caf, primeiro - disse ele, lhe acariciando o rosto. - Pelo menos, me deixe acordar antes de me trazer mais preocupao. Ainda estou um pouco atordoado. - O
olhar dele mergulhou nas coxas dela como que para afag-las, e ela se apressou em levantar, puxando a camisola. - Alm disso, ainda estou chocado de como as roupas
de baixo mudaram no ltimo sculo. Gosto dessa que voc est usando.  de seda, no ? Parecia ao roar em meu rosto.
   Ela o teria fuzilado com o olhar em resposta, se no fosse a dor que ainda podia ver em seus olhos. Ele estava apenas evitando o assunto por enquanto. Ela sabia
disso. Ele ainda tinha medo de discuti-lo, medo de se ver forado a admitir que no poderia levar o remdio para salvar o filho. Ento estava adiando. Deixando para
depois o que perceberia que era inevitvel.
   - Farei o caf - disse ela, indo em direo  cozinha.
   - Estou agindo como um idiota. E isso no est me fazendo bem nenhum.  bvio que voc no  dessas mulheres que se derretem por palavras bonitas.
   - Tambm no sou uma mulher interessada em romances passageiros.
   - E ainda est sozinha, no est, Jane? Nunca conheci uma mulher to sozinha quanto voc.
   Ela desviou os olhos, pois essas palavras eram como navalhas cortando sua carne.
   - No seja ridculo. Eu tenho Cody.
   - E eu tenho Benjamin. Um menino que amo mais do que minha prpria vida. Mas isso no significa que eu no seja sozinho.
   Ela piscou e virou os olhos para encontrar os dele.
   - Voc?
   - Voc est certa sobre romances passageiros, Jane. Apenas nos deixam mais vazios do que antes.
   Com a cabea confusa, Jane virou as costas para ele. Tirou a jarra da cafeteira, colocou embaixo da torneira, e a encheu de gua. Mas quando virou, ele estava
l, olhando-a com olhos especulativos e curiosos.
   - Por que voc no me conta sobre o pai de Cody?
   - Por que quer saber? - Ela continuou o que estava fazendo, colocou a gua na cafeteira, depois abriu a armrio  procura dos filtros.
   - Era incomum, pelo menos na minha poca, uma mulher criar um filho fora do casamento, sustent-lo sozinha e ainda manter o respeito da vizinhana. Pelo menos
aqui as pessoas parecem ter voc na mais alta considerao.
   - , eles tinham, at voc aparecer. - No conseguia separar um nico filtro do outros, embora continuasse tentando. - No foram s as roupas de baixo que mudaram
no ltimo sculo, Zach.
   Ele sorriu para ela, mas era um sorriso triste. Ambos sabiam o que estavam fazendo. Conversando amenidades. Evitando o assunto. Com o cabelo desgrenhado e a roupa
amarrotada, ele parecia um garoto. Bem, talvez nem tanto. Mas ainda assim parecia vulnervel, tanto que ela ainda no conseguira contar para ele o restante.
   Ele se aproximou dela e pegou de suas mos os filtros de caf. Habilmente, tirou um, entregou a ela e depois colocou os outros de volta no armrio.
   - Fale-me sobre o pai de Cody.
   Suspirando, Jane se perguntou por que era to difcil se livrar do olhar dele quando a fitava daquele jeito. Com tanta ateno. Como se ela fosse o centro do
universo. No era de se espantar que as mulheres do sculo XIX cassem a seus ps. Ela colocou o filtro no suporte, abriu o pote de caf e encheu uma colher.
   - Eu era jovem e ingnua. Ele era um lobo vestido em pele de cordeiro. Muito parecido com voc, na verdade.
   - Comigo?
   Jane teve de se concentrar para lembrar quantas colheres de caf j colocara no filtro. Fechou a cafeteira e a ligou.
   - Voc estava apaixonada por ele, Jane?
   - Na poca, achava que sim. Ele dizia que me amava, mas eram apenas palavras. S uma frase que ele usou para me levar para cama. - Ela se virou para encar-lo,
se inclinando sobre o balco. Os olhos dele se arregalaram um pouco, e ela desconfiou que provavelmente era por causa do que falara. Com certeza as damas da poca
dele no usariam termos to diretos para se referir a sexo. - Ele fingia ser um idealista. Era msico, tinha uma banda, e eles escreviam msicas sobre os problemas
dos nossos tempos, falncia da moral, guerra, esse tipo de coisa. E eu ca nessa. Disse a ele que estava grvida na mesma poca em que ofereceram muito dinheiro
para a banda assinar um contrato com uma gravadora. Ele disse que a carreira no podia esperar, no no momento em que estava decolando. E entrou em um avio, me
deixando para trs junto com todo aquele idealismo.
   - Ele a deixou sozinha, esperando um filho dele? Ele no foi apenas um cachorro irresponsvel, Jane, mas um burro.
   - Voc est certo. Ele foi burro. Cody  um milagre. Greg no percebeu que estava dando as costas ao maior presente que j ganhara.
   - Voc fala dele no passado.
   - A banda dele s teve um sucesso. Gravaram um disco que no vendeu, foram para uma turn que foi cancelada. Eles fracassaram e ele no agentou. Morreu de overdose
meses depois.
   - Ele no merecia um filho como Cody - disse Zach, esticando o brao e pegando na mo dela. - Nem uma mulher como voc.
   - Pelo menos ele me ensinou uma lio valiosa - disse ela, puxando a mo, embora relutante.
   - Nunca mais confiar nos homens?
   O caf gorgolejou, espalhando seu aroma por toda a cozinha. Jane balanou a cabea.
   - No me deixo mais me apaixonar por um homem que vai me abandonar no final. Ou achava que no.
   Ele se inclinou e apoiou no balco, com as mos separadas pelo corpo dela. Seus lbios encostaram-se  testa dela, e depois os braos a envolveram.
   - Tambm achei que aprendera muitas coisas. Mas voc est pondo em xeque cada uma delas.
   Surpresa, ela olhou rapidamente para ele. Os rostos estavam muito prximos e os corpos quase se tocando. Cada clula de seu corpo implorava para que ele se aproximasse
mais. S o suficiente para que pudesse senti-lo. Tensionou o maxilar e fechou os olhos.
   - No posso fazer isso, Zach. Isso me mataria quando voc fosse embora. - Ento ela piscou, e o desejo foi substitudo por uma tristeza pelo que teria de falar
para ele. - Se voc for. Depois que eu explicar...
   Ela o sentiu se afastar antes que abrisse os olhos. Estava a dois passos de distncia agora e a fitava.
   - Se eu for? Eu tenho de ir. Droga, Jane. Estou tentando salvar a vida do meu filho.
   - E eu estou tentando salvar a minha. Ele franziu a testa.
   - No estou entendendo.
   - Pensei nisso a noite toda, Zach. E mesmo se voc voltar, mesmo se der o remdio para seu filho, no sei se vai funcionar. Se Benjamin for salvo, seus colegas
no sero levados a trabalhar juntos para descobrir a cura da febre. Talvez mais ningum seja bem-sucedido. Talvez no v haver cura, e se no houver, no poderia
haver remdio no consultrio do mdico para voc roubar. Voc no poderia estar aqui para voltar para Benjamin. Vai perd-lo de qualquer forma. No percebe? Tudo
que fizer, invalidar o que j tiver feito. No pode dar certo.
   Zach deu meia volta, balanando a cabea.
   - No. Voc entendeu errado. Esses homens devem desenvolver o remdio, e ainda vo faz-lo.
   - Mas e se no fizerem?
   - Outra pessoa far.
   - Talvez. Talvez no. E ento...
   - No vai importar. Uma vez que eu der o remdio para Benjamin, ele ficar bom. No vai se reverter, tenho certeza. Posso salv-lo.
   - E o que eu lhe disse ontem  noite, Zach? E todas as pessoas que tiveram essa febre desde ento? O que ser delas se a cura no for descoberta?
   - Que se danem! - gritou ele, puxando o cabelo para trs com as mos. O olhar de tormento em seu rosto era quase maior do que ela podia suportar.
   Jane deu um passo para frente e colocou a mo no ombro dele. No queria fazer isso. Desejava com todas as foras ter conseguido evitar. Mas no podia.
   - Voc no quer dizer isso.
   - Quero. Eu no posso...
   - Zach, quando Cody tinha dois anos, eu quase o perdi. Ficou to doente que achei que no sobreviveria. E...
   - No... - Ele deu um passo para trs, encarando-a com horror.
   Ela mordeu o lbio para faz-lo parar de tremer, mas no tinha nada que pudesse fazer para evitar as lgrimas que enchiam seus olhos.
   - Sim, foi quinaria. E se no fosse o remdio, Cody teria morrido. - Ela abaixou a cabea, tentando segurar um soluo, e de repente os braos dele a envolveram,
trazendo-a para mais perto, e quando ela se encostou em seu peito, sentiu que ele tremia. - Sei que parece egosta, Zach, mas tenho tanto medo. Se voc voltar, se
salvar seu filho, posso perder o meu.
   Zach a apertou contra si e a abraou com fora, como se quisesse proteg-la e a si mesmo, do horrvel dilema. O pesadelo estava logo ali, fora do crculo de seus
braos, mas se ele no largasse Jane, ele no conseguiria entrar. Ela chorou baixinho e as lgrimas molharam tanto o seu rosto que, ao beij-la depois, Zach sentiu
o gosto salgado se misturar  natural doura dela. Ele sorveu a tristeza que vinha de sua boca e ela se deixou beber da que ele lhe oferecia em troca. Eles se apertaram
ainda mais, as lgrimas se misturando, dois estranhos que dividiam um pesadelo. E ele no conseguia parar de beij-la. No pararia. Porque quando parasse, quando
esse pequeno interldio que servia como refgio finalmente terminasse, ele teria de enfrentar a realidade de novo. E no conseguiria.
   Sem afastar seus lbios dos dela, ele foi andando para trs at chegar nas portas de vai-e-vem que separavam a cozinha da sala. Uma das mos tateou e encontrou
uma colher de pau, que encaixou entre as duas maanetas para impedir que as portas se abrissem e algum pudesse entrar. Depois voltou suas mos para ela, enterrando
os dedos bem fundo na maciez dos seus cabelos. Ele se inclinou sobre ela e fez suas costas se arquearem para trs.
   Sentia o corao dela pulsar, sentia o modo com que se arqueava contra ele. Sentia o desespero dela, que era igual ao que ele prprio sentia. Ela se agarrava
a ele como quem se agarra  vida,  sanidade,  esperana. E quando a boca de Zach desceu por seu pescoo, suas mos deslizaram para o cabelo dele e o trouxeram
para mais perto ainda.
   Ele deslizava as mos pelo corpo dela, traando o contorno dos seios, a curva da cintura. Passou pelos quadris, alcanou as coxas, at encontrar a pele nua, e
ento foi levantando a camisola, enquanto suas carcias subiam pelo corpo dela, as mos ardendo na carne quente, at finalmente tirar a camisola. Jogou-a no cho
e olhou para Jane, quase nua agora, a no ser pela calcinha de seda. Olhou os seios, nus, lindos e perfeitos. Tocou-os, fechou as mos sobre eles, e ento fechou
os olhos e gemeu. O desespero se transformara em desejo, to forte e poderoso que achava que o mataria se no o saciasse logo. Agarrou as pernas dela, levantou-as
de modo que montasse nele, e deu alguns passos at que as ndegas dela escorregassem no balco, as mos tirando a calcinha antes de encaixar o corpo entre as coxas
afastadas. Ela arqueava para trs, oferecendo o que ele ansiava, e ele mergulhou, se deliciando com cada pedao dos deliciosos seios, sugando-os com um apetite cada
vez maior, devorando o mamilo at que ela gritasse, ofegante. Ele estava to rijo, necessitava tanto dela, que at doa, e enquanto se ocupava do outro seio, deslizou
a mo entre as pernas dela e as separou, experimentando o mido calor que ela exalava. Provocou com os dedos o centro do prazer at que as mos dela chegassem s
suas calas, abrissem freneticamente os botes e as abaixassem. Ela apertou suas ndegas com as duas mos, e o puxou, fazendo-o penetrar nela to rpido e to profundo
que ele gemeu alto.
   As bocas se encontraram de novo e se juntaram, se saboreando enquanto os corpos se moviam. O ritmo dos movimentos ganhava velocidade e fora, mas ele ainda queria
mais. Nunca teria o suficiente. Ele a agarrou pela cintura e a levantou do balco, puxando para baixo, deixando que o prprio peso dela o levasse mais fundo. Ao
enroscar os braos e as pernas em volta dele e comear a se movimentar para cima e para baixo, suas mos agarraram os cabelos enquanto a boca se deliciava com voracidade.
   Os joelhos dele dobraram quando cada parte de seu corpo parecia se contrair por conta de um prazer to intenso que chegava a ser quase doloroso. At finalmente
explodir dentro dela, sentindo que ela tambm alcanava o clmax logo depois. As contraes ritmadas de Jane iam lhe arrancando do corpo muito mais do que o smen,
mas algo ainda mais vital que lhe parecia ser a prpria alma.
   Quis dizer palavras que nunca dissera para nenhuma outra mulher na vida. Mas o som no emergiu. Eles ficaram unidos por um longo tempo, estremecendo pelo prazer
desse amor inacreditvel que acabavam de fazer.
   E ento ela levantou a cabea e o beijou na boca, e delicadamente foi descendo at ficar de p novamente. E... estava chorando.
   Ele queria arrancar a tristeza dela e no sabia como. Tudo que conseguiu falar foi:
   - Tem de haver um jeito. Podemos salvar os dois, Jane. Temos de salv-los.
   Ela olhou bem no fundo dos olhos dele, suas lgrimas transbordando e queimando seu corao.
   - Voc vai continuar com isso? Mesmo que custe a vida de meu filho?
   - Talvez custe a vida dele, Jane. - Acariciou o cabelo dela e a beijou outra vez, e ento outra. Abraou-a nua, o corpo tremendo em seus braos, e desejou com
todas as foras que nunca precisasse ir embora. - Mas no tenho dvida de que meu filho perder a dele se eu no continuar. Tenho de tentar.
   Passando a mo pelo rosto mido dele, ela murmurou:
   - Sinto muito, Zach. Mas no vou permitir. No vou permitir que faa isso.
   E eles ficaram l, cada um sentindo a prpria dor e a do outro. Cada um desejando fazer o que fosse necessrio para salvar seu filho. S se olharam, e Zach sabia
que isso a estava destruindo, assim como o estava tambm. No podia nem ficar furioso com ela pelo que dissera, e que sem dvida tentaria fazer.
   Com as mos trmulas de tristeza, ele pegou a camisola e, com ternura, a passou pela cabea dela. Ela colocou os braos nas mangas, e ele abaixou a pea at que
cobrisse as coxas, como antes.
   Um forte batido na porta a assustou. Zach viu o xerife parado l com uma bola de plos nos braos.
   Jane lanou um olhar arregalado para Zach, e ele entendeu que ela devia estar se perguntando h quanto tempo o xerife estava parado l, olhando pelo vidro.
   Zach balanou a cabea.
   - Eu o teria visto, Jane. No estava l.
   Suspirando aliviada, ela foi abrir a porta.
   - Achamos seu gato - disse o xerife, colocando a fera multicolorida em seus braos. - No pense que ela gosta de andar de carro, no. Arranhou meu estofamento
todo.
   Jane olhou para o animal, mas disse apenas:
   - Obrigada.
   Deus, sua voz parecia morta.
   - Bom dia, Bolton - cumprimentou Quigly.
   - Bom dia.
   - Jane, me diga, em nome de Deus, o que aquele seu menino anda fazendo?
   Jane franziu a testa, e Zach veio se juntar a ela, alerta.
   - Cody ainda est dormindo - disse Jane. - Por qu? Quigly riu e balanou a cabea.
   - Ah, certo. Talvez agora. Mas acho que voc deveria ir l em cima v-lo. A julgar pelo flash de luz que vi saindo da janela do quarto dele quando passava por
aqui umas horas atrs, diria que houve algum curto-circuito no computador ou algo assim.
   - Flash de... - Os olhos de Jane se arregalaram e ela olhou para Zach. Ele sabia o pnico que estava sentindo, porque tambm sentia.
   - Fique de olho nesse gato agora, viu? - 0'Donnel se virou e voltou para o carro.
   Os joelhos de Jane comearam a fraquejar. Zach viu o jeito que ela cambaleou e agarrou seus ombros para ajud-la a se equilibrar. Ela tremia como vara verde e
estava mais branca do que um pedao de giz, mas se endireitou e foi em direo s escadas, o gato ainda aninhado em seus braos. Os passos aceleraram e Zach acompanhava
o ritmo. Quando chegou ao p da escada, estava correndo.
   - Cody! Cody, me responda!
   Ela irrompeu pela porta do quarto no topo das escadas. Mas estava vazio. Jane virou a cabea para todos os lados, examinando o quarto inteiro, murmurando o nome
de Cody em desespero. E ento ficou paralisada. Zach seguiu os olhos dela at o aparelho, cado no cho. A tampa de trs se soltara e os fios haviam saltado para
fora.
   Lentamente, Zach passou por ela at chegar ao ponto no meio do quarto. Sentiu a eletricidade esttica eriar seus plos, sentiu a carga no ar. O gato miou assustado,
escapou dos braos de Jane e saiu correndo do quarto.
   - O portal foi aberto - disse ele devagar. - Nas ltimas horas.
   - No.
   Ele se abaixou para pegar o aparelho, o examinou e praguejou.
   - Est...? - disse ela.
   - Todo quebrado. - Ele encontrou os olhos chocados dela. - Parece que Cody o largou antes de passar.
   - Passar?
   Ele fitou os olhos vidrados dela, vendo o terror, o pnico, a sensao doentia de impotncia, que conhecia to bem. Ela balanou a cabea em negao, desviou
o olhar e saiu correndo do quarto. Ele ouviu os passos dela, os gritos desesperados ao entrar de quarto em quarto procurando o filho.
   - Cody, cad voc? Responda!
   Zach abaixou a cabea aflito. Duas crianas agora, em vez de uma. E ambos podem estar fora de seu alcance. Santo Deus, o aparelho no estava totalmente recarregado
quando Cody o usou. No deve ter chegado ao momento do qual Zach partira, mas a alguma poca mais recente. No tinha certeza se conseguiria encontrar o menino. Uma
respirao entrecortada fez com que levantasse a cabea e visse Jane na porta, o rosto marcado pelas lgrimas. Ele se aproximou dela.
   - Conserte - disse ela. - Conserte agora, Zach.
   - Eu... - Olhou nos olhos dela e no conseguiu terminar a frase. Ia falar que no sabia se poderia consert-lo, mas as palavras no vieram. - Vou consertar -
escutou-se falando, embora soubesse que havia uma forte chance de ser uma mentira. Ele desviou seu olhar da esperana que via nos olhos dela, incapaz de encar-la
sabendo que poderia fracassar. Arrumou um pedao da mesa em que ficava o computador de Cody, ps o aparelho l e foi pegar suas ferramentas na bolsa. Colocou os
culos e comeou a desmontar a pequena caixa.
   - Os comprimidos desapareceram - sussurrou Jane. - Estavam na mesa de centro, mas sumiram. Cody deve ter escutado nossa conversa ontem... Deve ter me escutado.
Queria tanto um irmo...
   - Eu sei.
   Ela foi at a janela, abriu as cortinas para olhar para o lado de fora. Ento enrijeceu e se virou para ele.
   - E se ele estiver doente? Deus, voc estava muito mal quando chegou aqui! Ser pior para ele... E se...?
   Ele se levantou e foi at ela, segurando forte em seus ombros.
   - Pare com isso.
   - Zach, e se no conseguirmos traz-lo de volta? Deus, e se eu o perdi? - Soluos tomaram conta de seu corpo, desfigurando a forma esbelta. Ele a abraou. - Maldito
seja voc e suas invenes estpidas, Zach! Maldito seja por vir at aqui!
   Ele fez uma careta ao ouvir a acusao na voz. Ela estava to certa. Se no tivesse vindo para c... Ah, mas no tivera escolha. E mesmo o acusando, se aproximou
mais.
   - Zach, me abrace - sussurrou ela.
   - Estou abraando.
   - No consigo sentir.
   Os braos de Zach apertaram mais, e os dela envolveram a cintura dele com o mesmo desespero, a mesma fora.
   A angstia dela fazendo com que a dele viesse  tona, embora ele achasse que a manteria escondida. Todos os medos de que no venceria esse conflito contra o destino,
todas as incertezas, todas as dvidas emergiram, refletidos to intensamente na aflio dela.
   - Sou a me dele. No devo deixar que nada de mal acontea.
   - Eu sei.
   - Quando ele est machucado ou triste... Sempre consigo faz-lo melhorar. Sempre. No deve ser assim:
   Levantou a cabea para olhar para ele, que tirou o cabelo que estava grudado nos olhos dela.
   - Foi assim que voc se sentiu antes de vir para c, no foi?
   - Foi, Jane.  como ainda me sinto.
   - Sinto muito... Sinto por ter tentado impedir... Eu estava...
   - Voc estava protegendo seu filho. Eu teria feito o mesmo.
   Ela fungou, e Zach enxugou as lgrimas do rosto dela com a ponta dos dedos.
   - Nada mudou - disse ela. - Voc sabe disso. Estava errada sobre isso, pensou ele. Algo mudara.
   Sentia isso bem dentro do seu ser. Mas agora no era a hora de tentar entender o que mudara.
   - Ainda podemos causar mais problemas impensveis tentando mudar o passado.
   - No podemos pensar nisso agora - disse ele. - S podemos nos concentrar em voltar l, encontrar nossos filhos e mant-los a salvo. Pensaremos nas repercusses
de nossas aes depois.
   Mais lgrimas escorreram no rosto dele, que parecia cheio de dvidas.
   - Pensaremos, Jane - disse ele, tentando inserir certeza em sua voz, pois sabia o quanto ela precisava escutar isso. - Vamos pesar cada movimento antes de agir.
Prometo.
   - Tudo bem. - Olhando alm dele, em direo  mesa onde o aparelho estava desmontado, ela murmurou: - O que posso fazer para ajudar?


   Captulo 7

   Cody levantou-se do cho e limpou o joelho da cala. Ento congelou e olhou para as mos. Onde estava a caixa? Percebendo que devia t-la deixado cair, rapidamente
procurou no cho. Mas no havia nem sinal dela, e o buraco branco ofiiscante pelo qual passara desaparecera.
   - Ah, no - murmurou ele. Logo verificou os bolsos e encontrou o pote de comprimidos. Graas a Deus no perdera isso tambm. Soltou um suspiro de alvio e, pela
primeira vez, olhou em volta.
   Seu quarto... Ou era at um minuto atras. Agora estava diferente. E a mais notvel diferena era o pequeno menino doente, encolhido na cama, e os trs estranhos
que o cercavam, todos eles lanando olhares chocados para Cody, que limpou a garganta, deu um passo para trs, sorriu e disse:
   - Oi.
   Dois lampies emanavam luz suficiente para que pudesse enxergar apenas o mnimo. Mas era o bastante para saber que nenhum dos trs estava satisfeito de v-lo
ali.
   Movendo-se como se fossem um s, vieram em sua direo e o cercaram, trs rostos o olhando, assombrados. Um homem gordo com bigode grisalho, e um outro mais alto
e magro com bigode preto. Os dois vestiam ternos antigos e gravata. A senhora era mais velha, com cabelo grisalho e rosto enrugado. Ela olhou para ele e caiu para
trs. Os dois homens a seguraram, abanando seu rosto at que ela piscasse e voltasse a si.
   - No a solte, Eli. Pelo amor de Deus, voc a est deixando cair.
   - No estou! Estou segurando firme. Meu Deus, pegue uma cadeira, Wilhelm!
   Eli? Wilhelm? Cody encarou os dois homens, muito chocado para se mover. Nossa, estava na mesma sala que Eli Waterson e Wilhelm Waterson!
   Um pegou a cadeira, a colocou embaixo da senhora e continuou abanando. Depois de um momento, os olhos dela se abriram, sorriu debilmente para os homens, e de
novo se embasbacou olhando para Cody:
   - Deus do cu! Voc quase me matou de susto! O que era aquela luz? E de onde voc veio?
   - Quem  voc, garoto? Como chegou aqui? - O mais novo dos homens se inclinou para frente enquanto falava. - Onde est o Sr. Bolton?
   Cody percebeu que era melhor no falar muito. Achariam que era maluco, e s Deus sabe o que faziam com meninos loucos na dcada de 1890.
   - No sei.
   - Nada disso importa, Eli - disse o mais velho. - Temos de tirar esse menino da casa o quanto antes.
   - De jeito nenhum - disse Cody. - Vim ver Ben e no vou embora at fazer isso. - Esticou o pescoo para v-lo na cama. A luz no era to forte, mas Cody no achou
o menino com aparncia boa.
   A senhora piscou como se fosse chorar e passou a mo pelo cabelo de Cody, que sorriu, j que isso sempre funcionava com a av Kate.
   - Meu querido - disse ela. - Voc  amigo de Benjamin?
   - Sim, senhora. E acho que ele vai ficar melhor se eu visit-lo. - Cody enfiou a mo no bolso e a fechou em volta do pote de remdio. Tinha de tirar esses trs
daqui. Fazer com que o deixasse sozinho com Ben por uns poucos minutos para que pudesse dar a ele o primeiro comprimido.
   - Que amor - disse ela.
   - Jovem rapaz - disse Wilhelm. - Sinto muito ter de lhe dizer que Benjamin est muito doente. No pode receber visitas.
   - Mas j estou aqui. Ento o senhor poderia me dar alguns minutos para...
   - Sra. Haversham, a senhora conhece esse menino?
   - No - respondeu ela. E, depois, disse para Cody: - Sei que  difcil entender, mas, de verdade,  para seu prprio bem, querido.
   - Ah, eu entendo. Vocs acham que vou pegar a febre se me aproximar dele. Mas j tive essa doena, muito tempo atrs, sou imune.
   Os dois melhores cientistas desde Louis Pasteur trocaram olhares. Um deles endireitou os culos e olhou para Cody:
   - O que um menino da sua idade sabe sobre contgio e imunizao?
   Cody s encolheu os ombros.
   - Como voc entrou neste quarto, meu rapaz? - perguntou de novo o homem.
   - J disse. Eu vim ver Benjamin. Apenas abri as portas e aqui estou.
   O outro homem enrugou os lbios e balanou a cabea lentamente.
   - O Sr. Bolton est ciente de sua presena nesta casa?
   - Claro - disse Cody, confuso.
   - Impossvel - respondeu o homem, parecendo satisfeito. - Ele foi apanhar o mdico.
   - Tudo bem, mas vocs no fazem idia...
   - Sra. Haversham, mande um dos empregados ficarem de guarda. Precisamos encontrar os pais desse garoto.
   - Sim, senhor - disse ela, com um olhar cheio de remorso para Cody. Foi at a porta e a abriu. Um dos homens se esticou para agarrar o brao de Cody, que foi
mais rpido do que os dois. Esquivou-se do agarro e passou entre eles embaixo dos braos da Sra. Haversham, indo para o corredor na direo da escada. Eles giraram,
gritaram e o perseguiram, mas ele subiu no corrimo com a facilidade da prtica, escorregou at embaixo e pulou para o cho. Escutou os passos deles descendo as
escadas e um deles dizendo:
   - Detenham-no! Deve estar transmitindo a febre! Cody correu pela cozinha at a porta.

   Zach no estava to envolvido com o conserto da pequena caixa desmontada a ponto de no notar Jane. Na verdade, quase pediu para que saisse do quarto. O fato
de t-la aqui, to perto, dificultava parar de olhar para ela, parar de se lembrar de como se sentira ao ficar... com ela. Era a primeira vez na vida que uma mulher
conseguia mexer com ele com tanta intensidade. Ou distra-lo do trabalho. Ah, existiram mulheres! Deus, vrias mulheres. Mas nenhuma chegara nem perto de tirar sua
concentrao.
   Somente Jane.
   E seus pensamentos eram nada menos que devassos. Isso ele at podia entender. Mas... Olhar para ela constantemente, com um tipo de preocupao que o corroa por
dentro... Isso estava alm de sua experincia. E de sua compreenso. Mulheres no tinham lugar em sua vida, alm da cama. Para ele, era assim. Tomara essa deciso
h muito tempo, quando a egosta da Cludia, s interessada no que a sociedade pensa, atravessara uma faca em seu corao. Mas se curara. E ento trancara esse rgo
to vulnervel em sua prpria armadura, e prometera que nunca o deixaria to exposto de novo.
   E era uma promessa que mantivera... At agora.
   Jane estava sentada na cama de Cody sobre as pernas cruzadas. Em volta dela estavam livros, um bloco de notas e dois lpis. Perguntara o que podia fazer para
ajudar, e ele sugerira que ela colocasse sua queda por histria em ao. Estava lendo todas as informaes que conseguisse achar sobre os dois colegas dele e o desenvolvimento
da triptonina. Zach esperava que quando voltassem para o passado, encontrariam um jeito de salvar os dois meninos e no interferir no desenvolvimento subseqente
da droga.
   Por enquanto, Zach estava consertando o aparelho. Toda informao que ela conseguisse seria completamente intil se ele no consertasse o aparelho e o fizesse
funcionar. J tinha uma idia de como chegar ao momento exato no tempo para onde Cody se deslocara. De acordo com os desenhos que fizera no computador de Cody, com
recarga de apenas dois dias, Cody teria ido para um dia antes de Zach sair do passado. Ele e Jane tentariam chegar nesse ponto tambm, embora pudesse haver complicaes
para isso. Mas se preocuparia com isso quando chegasse a hora. No queria dar tempo para que algo acontecesse a Cody.
   Deixando sua baguna de lado, analisou as informaes que ele e Cody passaram horas digitando no computador, mas terminou frustrado.
   As molas do colcho estalaram e, em um segundo, as mos de Jane estavam massageando seus ombros. Surpreendeu-se por ela ser to boa, apesar de terem pontos de
vista opostos sobre essa crise. Isso tambm o confundia. Principalmente porque o toque dela despertava o desejo de t-la em seus braos e o cheiro dela era muito
excitante tambm.
   - Estamos nisso h horas - disse ela. - Tempo para um intervalo.
   Sua voz estava rouca de tanto chorar, e Zach estava preocupado com ela. Estava meio fora de si com a preocupao com o filho. Ele sabia. Deus, como sabia! Os
polegares dela pressionaram a parte de trs de seus ombros, enquanto os outros dedos apertavam e esfregavam a frente. Ele arqueou as costas, fechou os olhos. A sensao
do que ela estava fazendo era maravilhosa.
   - No  o tempo sobre a mesa de trabalho que pesa sobre mim - disse ele ao deixar a cabea pender para frente. - Estou acostumado a isso.  a frustrao.
   As mos dela ficaram imveis.
   - Ento no est chegando a lugar nenhum?
   - Na verdade, estou. Mas sei que conseguiria muito mais rpido se utilizasse toda a capacidade desse computador. Eu me considerava um gnio na minha poca, agora
me sinto como um tolo ignorante.
   As mos dela voltaram ao trabalho mgico mais uma vez.
   - Voc no  nenhum tolo, Zach.
   - No? At uma criancinha sabe mais sobre cincia hoje do que eu. Estou desconsertado com a televiso, o microondas, os avies. Pelos padres de hoje, no terminaria
nem a escola primria.
   - Voc est se esquecendo de uma coisa - disse ela, massageando a nuca dele e o deixando curioso sobre que outras mgicas essas mos podiam fazer.
   - De qu?
   - Nem o melhor dos cientistas conseguiu viajar no tempo. Nem com a ajuda de computadores superpoderosos, nem com os dados obtidos do espao. E voc conseguiu,
com ferramentas consideradas primitivas para os nossos padres. Voc fez o que eles ainda consideram impossvel. Ele virou-se para fit-la.
   - Eu fiz, naquela poca, no fiz?
   - Fez. E  por isso que eu sei que vai encontrar uma soluo para esse desastre. Voc tem de encontrar, Zach. Estou contando com isso.
   Ele abaixou os olhos. Deus, no queria decepcion-la. Ter uma mulher contando com ele, acreditando nele, por qualquer razo, era to incomum que nem sabia o que
fazer.
   - Aquelas olheiras esto voltando - disse ela. - Olha, estou to ansiosa quanto voc para resolver isso, mas acho que voc vai trabalhar melhor se descansar por
alguns minutos. Coma alguma coisa. Acho que devemos parar para um sanduche, e tirar alguns minutos para descansar os olhos.
   Ele tentou dar um sorriso gentil, e lhe acariciou o cabelo, algo que ansiava fazer, por mais ridculo que parecesse.
   - Vamos trazer Cody de volta, Jane. Prometo.
   Ela tentou desviar o rosto antes que ele visse as lgrimas, mas no conseguiu. Ele era esperto, ou talvez apenas muito concentrado em tudo que vinha dela para
deixar escapar algo to importante.
   - Voc deve achar que eu sou a pessoa mais egosta do mundo. Eu era to contra isso quando me convinha. E agora estou...
   Ele se levantou, pegando seu rosto entre as mos, e a acariciou com os olhos.
   - Agora voc  me, Jane. E como toda me, far qualquer coisa para proteger seu filho. No considero isso egosmo... Na verdade, ...
   -  o qu?
   Zach abaixou a cabea, incapaz de encarar seus olhos. Mas quando levantou o olhar, viu que estava se afogando no dela de novo.
   - Isso a torna ainda mais bonita para mim, Jane. E no me acuse de estar dizendo s palavras.  verdade, por mais inacreditvel que parea. Nunca na minha vida
prestei muita ateno em mulher alguma, a no ser na maneira como tiravam as roupas. Mas com voc... - No terminou a frase, na verdade, nem sabia como.
   Ela tocou no seu rosto.
   - Peo a Deus que Cody esteja bem.
   - Cody  nada menos do que brilhante. Com sua perspiccia, vai conseguir conduzir tudo at chegarmos l.
   - Sei que vai.
   - Ento, que tal uns sanduches?
   Por alguma razo desconhecida, Jane acreditava em cada palavra que Zach falava. Ele disse que tudo ficaria bem, e ela aceitara sem questionamentos. Ser que perdera
a cabea?
   No. No era isso, pensava enquanto fazia dois sanduches e os colocava nos pratos. Acreditava nele porque estava praticamente certa de que, quando ele colocava
na cabea que tinha de fazer algo, no sossegava at conseguir.
   Esse pensamento a incomodou um pouco, porque parecia que Zach tambm colocara na cabea que deveria conquist-la. Com ou sem inteno, isso era o que ele estava
tramando desde o dia em que entrara em sua vida. Ele era... malicioso e brilhante, e sensual, e ela poderia se apaixonar por ele rpida e perdidamente. Parecia que
no aprendera tanto do passado quanto achava. Manter seu corao imune ao charme de Zachariah era uma questo de auto-preservao. Ele partiria logo. Ela arranjaria
um jeito de trazer Cody de volta, e ele voltaria para o passado e tentaria curar o filho. E l  o lugar dele. No passado. Jane no agentaria criar qualquer vnculo
com Zach.
   Mas tinha extrema confiana em sua habilidade para consertar isso. Viajara cem anos para frente no tempo. Isso provava que podia fazer quase qualquer coisa. Resgatar
um menino no seria to mais difcil.
   Dois meninos, corrigiu-se com uma pontada de culpa. Cody e Benjamin. O filho dele. Ela achara que entendia o que o direcionava antes, e achara que seu prprio
ponto de vista era o correto. Agora sabia que teria feito o mesmo se estivesse no lugar dele e tivesse os meios. A natureza no podia ser completamente esmagadora.
Qualquer pai ou me no se importaria com o mundo para salvar o prprio filho. Era simples assim.
   Abriu o armrio e viu a caneca do New York Giants de Cody. Sentiu os joelhos cambalearem. Mas se segurou pela pura fora de vontade, enxugou os olhos. Teria Cody
de volta.
   Algo roou em sua perna, e ela olhou para baixo para encontrar o gato se esfregando nela.
   - Tambm acho que voc deve ficar - disse ela, abaixando-se para acariciar as orelhas do animal. - Ser uma bela surpresa para Cody quando voltar. - Ela se levantou,
voltou para o armrio e pegou latas de atum e duas vasilhas. Esvaziou as latas em uma delas e encheu a outra com gua, colocando as duas no cho. - S para o caso
de eu ter de sair - disse ela, fazendo carinho na cabea do felino, enquanto ele mergulhava na comida com satisfao.
   Abriu um pouco a porta dos fundos para que o gato pudesse sair.
   - Jane! - gritou Zach l de cima. - Consegui alguma coisa!
   Segurando um prato em cada mo, Jane correu para as escadas.
   Ela meio que esperava ver um buraco, sado direto de um filme de fico cientfica, pairando no ar no meio do quarto. Em vez disso, o que viu quando entrou no
quarto foi Zach sobre o computador, olhando para a tela atravs dos culos.
   - O que ? - disse ela, cruzando o quarto e colocando um dos pratos em frente a ele.
   - Tenho quase certeza de que Cody no sofrer os efeitos colaterais. Olhe isso. - Apontou para a tela. - Ainda no tinha concludo meu experimento quando passei.
Principalmente porque... estava correndo contra o tempo. Mas eu fiz alguma coisa, e Cody e eu transferimos todos os dados para essa mquina. Esse programa do qual
ele fez o...
   - Download - completou Jane.
   - E incrvel. Ele encontra correlaes que eu nem teria pensado em procurar.
   - Decifre para mim, Zach.
   - Para simplificar, quanto maior o objeto, maiores os efeitos colaterais. Eu tive sintomas de doena, mas Cody  muito menor do que eu. Se esses clculos estiverem
certos, levam a crer que...
   - Ele no est doente.
   - Acredito que no.
   Jane fechou os olhos enquanto cada msculo de seu corpo parecia relaxar de alvio.
   - Se ele no est doente, ento ficar bem at chegarmos l. Sei que ficar.
   Zach assentiu, mas ela percebeu que o sorriso dele no era sincero. Tristeza e preocupao tornavam seus olhos sombrios.
   - Voc est pensando que gostaria de ter tanta certeza a respeito de Benjamin tambm, no ?
   - Voc l pensamentos, Jane?
   Ela empurrou o prato para mais perto dele, e depois se esticou para lhe tirar os culos.
   - Coma, Zach. Descanse os olhos. E me fale sobre Benjamin.
   Ele fechou os olhos.
   - Se eu perd-lo...
   A mo dela lhe acariciou o rosto.
   - No vai perd-lo - disse ela, repetindo as palavras tranqilizadoras que ele falara antes, quase literalmente. - Prometo.
   Zach cobriu a mo dela com a sua e a levou at a boca, para que pudesse beijar a palma.
   - Voc  um tesouro, Jane.
   - Coma - disse ela. E ele comeu.

   Captulo 8

   Cody se escondeu em um estbulo caindo aos pedaos a alguns quilmetros de sua casa... ou melhor, da casa de Zach. Tanto faz. No tinha certeza do que tinha acontecido
no estbulo, s sabia que no existia mais em 1997. O que no o surpreendia. A maneira como o estbulo estava inclinado para um lado e o vento que tentava encontrar
caminho atravs das rachaduras eram suficientes para mostrar que no era uma construo nova, mesmo agora. Ainda no estava pronta para cair em cima dele, pelo menos
era o que esperava, mas o estbulo era antigo. E se era antigo agora em 1887, ento deve ser realmente antigo. Talvez at to antigo quanto a Guerra de Secesso.
Imagine s!
   No tinha tanto tempo quanto gostaria para pensar sobre isso. Mais tarde, disse para si mesmo. Agora, tinha algo muito mais importante para pensar.
   O pote de comprimidos no bolso balanava cada vez que se mexia, e Cody mordia o lbio ao ser lembrado da responsabilidade que assumira. Era uma tarefa rdua.
Mas que no se recusaria a fazer. Viera aqui para salvar Benjamin. S dependia dele salvar a vida daquele menino. E agora no podia fazer isso por causa daqueles
cientistas ranzinzas que estavam na casa. Deixaria isso impedi-lo? Bem, se deixasse, ento o menino, que j comeara a considerar como a coisa mais prxima de um
irmo caula que teria em sua vida, morreria. Talvez morresse em breve. Talvez estivesse morrendo agora.
   Cody sabia que estava colocando sua prpria vida em risco tentando salvar Benjamin. Mas, de alguma forma, no tinha dvidas de que ficaria bem. Mame sempre diz
que as crianas acreditam ser imortais. Talvez estivesse certa. Tudo que Cody sabia  que ajudar Benjamin era a coisa certa a fazer. Ben at tinha o nome do tatarav
de Cody. Se isso no fosse um sinal de que deveria fazer parte da famlia, ento no sabia o que seria. Benjamin seria o irmo de Cody. Sabia disso alm da razo,
embora no fizesse sentido sentir-se to seguro assim. No era lgico nem cientfico. Estava apenas ali, uma certeza to profunda que no conseguia duvidar. Tinha
de ajudar Benjamin. Mas como?
   Cody fechou os olhos e mordeu o lbio de novo.
   - Me, o que devo fazer? O que devo fazer? - murmurou na escurido.
   Seja esperto, Cody. Use a cabea.
   Os olhos de Cody se abriram, e ele olhou em volta de si, meio que esperando ver sua linda me ali perto.  claro que no estava. Estava completamente sozinho
nesse enorme estbulo escuro, sem nada a sua volta a no ser o murmrio do vento, o carinho gelado que o atingia lhe provocando um arrepio, e o cheiro azedo do velho
estbulo. S que no se sentia mais to sozinho quanto antes.

   Era para ser um intervalo de cinco minutos. Quando Jane e Zach se recostaram na cabeceira da cama, mal conseguindo manter os olhos abertos, concordaram em fazer
um intervalo rpido. E logo depois voltar ao trabalho. Ele no sabia quando os olhos dela se fecharam ou como conseguira dormir estando to preocupada com o filho.
Mas dormiu. Apagara enquanto ele divagava sobre sua teoria de como conseguira viajar no tempo. Era chato para ela, ele imaginava. Se soubesse que a poderia chatear
para que descansasse um pouco, teria feito antes. A mulher estava  beira de um colapso, mais exausta emocional do que fisicamente, ele sabia. E agora, embora devesse
estar trabalhando, no conseguia acord-la. Se ele se movesse, provavelmente conseguiria. Porque Jane estava virtualmente enrolada nele. Uma situao que fantasiara
diversas vezes, mas s se tornara verdadeira uma vez. E uma vez era muito pouco para ser suficiente.
   Deixou seus olhos vagarem pelo rosto dela. Cem vezes no seriam o bastante, percebeu isso com um arrepio lhe correndo pela espinha. Mas o que ela tinha que o
deixava to atrado, que chamava tanto sua ateno? Se pelo menos as coisas fossem diferentes. Se pelo menos tivesse tempo para descobrir.
   Ela deslizou na cama, at a cabea descansar no pescoo dele, os braos em volta da sua cintura, e uma perna dobrada enroscada em sua coxa.
   Toda essa situao preocupava Zach. Pois no estava respondendo da maneira que costumava. No estava aqui sentado imaginando mtodos aparentemente inocentes de
toc-la. Ou de excit-la o bastante enquanto dormia para que o desejasse quando despertasse. Embora suas habilidades para esses truques estivessem  altura de um
desafio, se sentia relutante em us-los. Em vez disso, estava satisfeito em simplesmente abra-la, contempl-la. Sentir seu cheiro. Sentir seu calor. E saber que
ela estava conseguindo um pouco do alvio de que tanto necessitava do pesadelo que estavam vivendo juntos.
   Balanou a cabea enquanto pensava nisso. Aqui, envolvida em seus braos, nada menos do que na cama, estava a mulher que desejava. Possivelmente, quase com certeza,
mais do que desejara outra. E no estava fazendo nada para se aproveitar da situao. Isso era to diferente dele. Tudo bem, a situao era medonha, mas nunca deixara
isso interferir antes. Um pouco de esforo fsico aliviaria seu nvel de estresse, pensou sarcasticamente.
   Movendo-se devagar e com cuidado, alcanou o aparelho, a chave de fenda e as anotaes, espalhando tudo sobre a cama de forma que no interferissem no sono dela.
Por ltimo, pegou os culos e os colocou. Ento comeou a trabalhar, remontando os pedaos quebrados no aparelho, um por um.
   Jane suspirou e escorregou mais para baixo. A cabea deslizou at o colo, a mo acomodada no quadril dele. Zach colocou os culos na ponta do nariz, e por cima
deles a examinou, encolhida e adormecida, com o rosto virado para... Deus tenha piedade. Se sua reao a isso no a acordasse, achava que nada mais o faria.
   Alguma coisa dura estava pressionando seu rosto. Jane resmungou em seu sono, dobrou o pulso para afastar essa salincia do travesseiro, se recusando a abrir os
olhos. Uma mo a impediu antes que colocasse em prtica seu plano.
   - Uh-uh, nada disso.
   - Hum? - Ela abriu os olhos, levantou a cabea um pouco e viu onde estava deitada. Os olhos se arregalaram e afastou o olhar rpido, encontrando um par de olhos
castanho-escuros. - Zach.
   - O qu? Voc  que est com o rosto aninhado em meu... - Deixou os olhos terminarem a frase. Depois, esticou a mo para lhe acariciar o cabelo, e havia algo
alm de desejo em seus olhos. Algo que fez o corao dela disparar.
   - Voc nunca saber o quanto eu gostaria de ter mais tempo, Jane.
   No sabia como responder a isso. Ento no disse nada. Apenas manteve o olhar fixo no dele, e desejou poder ler seus pensamentos. Desejou... Mas esperou. O que
ele quis dizer? Soou como se... O olhar dela se desviou para o aparelho em cima da cama, ao lado dele.
   - Zach?
   Ele assentiu e pegou a caixa preta.
   - Olhe para isso - murmurou ele. Apontou o aparelho, apertou um boto e uma pequena fasca apareceu no centro do quarto.
   - Meu Deus - sussurrou ela, o corao saltando no peito. - Est funcionando. Voc consertou.
   - Acho que sim.
   - O quer dizer com acha que sim? - Ela ficou de p e se aproximou da luz. - No tem certeza?
   - No, no estou completamente certo.
   - Ento...
   - Espere. - Ele ajustou o mostrador, e a luz tornou-se maior e mais forte. Zach se levantou, segurou no brao dela e a puxou enquanto a esfera de luz ocupava
mais e mais espao no quarto. Quando se estendeu alm do teto e atravs do cho, a luz comeou a tomar tons distintos e formas pairavam do outro lado da nvoa. A
esfera se transformou em um espelho, refletindo o quarto, menos os mveis modernos, o novo papel de parede e os acessrios eltricos. Era o mesmo quarto, h cem
anos.
   - Olhe - murmurou Zach. - O calendrio na parede. Ele apontou, e Jane viu a pgina, com cada dia riscado metodicarnente conforme passava.
   - Acho que conseguimos. Encontramos o portal para o dia anterior que eu parti. E tenho certeza de que foi quando Cody passou.
   - Mas... Se  antes de voc partir, ento... Voc est l? E aqui? Existem dois vocs? Zach, e se...
   - No sei. No sei se meu eu passado est l agora ou no, Jane. Mas acho que estarei bem se no der de cara com ele... Comigo... - Ele segurou nos ombros dela
e a virou para si. - Jane, tenho de ir agora. - E para surpresa dela, os olhos dele pareciam molhados. - Dizer adeus para voc... - Ele balanou a cabea, aparentemente
desistindo das palavras. Em vez de falar, ele a beijou, lenta e delicadamente, por um longo tempo. E Jane viu que correspondia ao beijo, passando suas mos pelos
ombros dele, abrindo os lbios em convite e pressionando o seu corpo contra o dele. Antes, tiveram paixo, desespero, desejo. Agora... Era diferente. Era emoo...
Tanta emoo que lhe tirava o flego.
   Ser que ele...?
   Ele levantou a cabea, se voltando em direo  luz. Jane deu em si mesma uma sacudida mental, tentando desesperadamente emergir do mar de sentimentos em que
estava se afogando. Limpou a garganta, mas sua voz continuava rouca.
   - No sei em que voc est pensando, Bolton, mas pode repensar. Meu filho est l. Vou com voc.
   - Os efeitos colaterais...
   - Tenho menos do que a metade de seu peso. Ficarei bem. Alm disso, como eu disse antes, isso no est em considerao.
   - No  seguro. Nem necessrio, Jane. Voc sabe que cuidarei de Cody como se fosse meu filho. Eu amo esse menino. - Franziu a testa depois de falar, como se as
palavras o tivessem surpreendido. Mas logo seu cenho relaxou, e ele assentiu mais uma vez. - Amo aquele menino. Ele estar a salvo comigo, e assim que o aparelho
recarregar, o mandarei de volta.
   - Vou com voc.
   Ele tocou o rosto dela e balanou a cabea.
   - No posso deix-la se arriscar.
   - No  uma deciso sua. - Jane se soltou dele to repentinamente que o deixou surpreso. Ela no perdeu nem um segundo, girou e correu diretamente para a luz.
Teve a sensao se estar sendo espremida at que se sentiu como uma tartaruga embaixo do pneu de um caminho, e de repente alvio ao atingir o cho, ou o cho atingi-la.
   Zach aterrissou ao seu lado, e permaneceu l deitado, as mos na cabea, o rosto contorcido em angstia. O aparelho bateu no cho ao lado dele, e ento a luz
apagou.
   Jane tentou se levantar e se surpreendeu ao ser atingida por uma onda de tontura, que a mandou direto para onde estava ajoelhada. Sua cabea latejava como se
tivesse bebido muito. A viso estava turva e no conseguia se equilibrar. Deus, que sensao assustadora!
   Mas Zach ainda estava no cho. Rolara e agora estava com a barriga para cima, deitado, olhos apertados, as mos pressionando as tmporas.
   - Zach? - Jane se ajoelhou ao lado dele, lutando contra suas prprias reaes j que ele estava muito pior. - Agente firme, Zach.
   Os olhos dele se abriram e a focalizaram sem a reconhecer. Branco. Tudo branco Juntou as sobrancelhas e a encarou:
   - Eu conheo voc - disse ele sem foras, piscando para tentar colocar a viso em foco e olhando  sua volta. O olhar caiu sobre a caixa no cho e se apertou
quando tentou sentar. Mas logo em seguida estava olhando para ela de novo. Esticou o brao e tocou seus cabelos enquanto os olhos a examinavam. - Conheo voc. Conheo
seu rosto, e seu cheiro e o gosto de sua boca. E sei que no h nenhuma mulher no mundo como voc. Espere...
   - Sou Jane - disse ela, mas estava sem flego, depois daquelas palavras. Tentou se concentrar. Ele estava confuso, desorientado. - Vamos l, Zach. Preciso de
voc.
   - Jane - murmurou ele, deitado como se para tirar um cochilo. Ela entendia a sensao. E compartilhava. Exausto. Fadiga elevada  dcima potncia. - Volte para
a cama, Jane.
   Ela sacudiu a cabea dele entre suas mos, dando vrios tapinhas no rosto.
   - Vamos, Zach. Acorde, isso  uma emergncia.
   Ele abriu os olhos.
   - Querida, voc est insacivel...
   - Benjamin, Zach. Cody. Lembra?
   - Benja... - Ele piscou e a expresso confusa abandonou seu rosto. - Benjamin. Meu filho! - Sentou-se, balanou a cabea e ento segurou a mo dela para se levantar.
Parou, olhou para a mo, ainda envolta na dela. - Jane... Sim... - Levantou o olhar para fit-la. - Desculpe.
   -  o portal. Faz alguma coisa com sua cabea, Zach. No  culpa sua.
   - Estamos um dia adiantados. No posso encontrar com... o outro Zach... se ele existir. No posso. No fao idia do que aconteceria.
   - Bem... tente lembrar, Zach. Onde voc estava s... - procurou pelo quarto, encontrou um relgio no console da lareira e continuou - cinco e meia da tarde no
dia anterior...
   - De meu filho entrar em coma? - completou Zach. - Estava na sua cabeceira. Nada me faria sair.
   E quando disse isso, os dois se viraram e seus olhares pousaram na pequena criana adormecida na cama, e na cadeira vazia ao lado.
   - Bem, aparentemente alguma coisa o fez sair - murmurou ela.
   Desconcertado, afastou-se dela e foi para a cabeceira da cama, inclinou-se e beijou a testa do filho. Benjamin dormia profundamente, sem se mexer. E o corao
de Jane se apertou ao olhar para rosto plido, de cabelo cacheado e sardas espalhadas pelo nariz. Igual a Cody.
   Zach se endireitou, os olhos midos e o maxilar tenso.
   - Vamos. A verso do passado de mim pode aparecer a qualquer momento. Jane, me ajude... - Colocou os braos em volta dos ombros dela, se segurando para no cair.
- Leve-me para meu... seu... nosso quarto. Ningum nos incomodar l e assim poderemos planejar nosso prximo passo.
   Ela concordou e o ajudou a atravessar o corredor.

   Cody esperou at que fosse tarde o suficiente para que todos estivessem dormindo. E ento voltou para a casa. Tinha muitas vantagens e passara a maior parte do
tempo enumerando-as, uma por uma, para aumentar sua autoconfiana. Uma era que ele era muito mais esperto do que qualquer um naquele sculo. Nada de que se orgulhar,
apenas veio de uma poca mais desenvolvida. Ento tinha obrigao de levar a melhor sobre qualquer um deles, principalmente Eli Waterson e Wilhelm Bausch. Esse pensamento
o fez sorrir. Imagine levar a melhor sobre dois gnios.
   Outra vantagem  que conhecia a casa como a palma da mo. Ele a tinha explorado em cada detalhe desde que se mudaram para l. E sabia como entrar, mesmo se estivesse
trancada. E tambm sabia qual era o quarto de Ben. E tinha sua caneta-lanterna. Perfeito. A quarta vantagem era que ningum o esperava. Ento tinha o elemento surpresa
ao seu lado.
   Por outro lado, tambm tinha desvantagens, uma delas era que o remdio precisava ser tomado por vrios dias, de quatro em quatro horas. Se desse uma dose a Benjamin
agora, e depois no desse a prxima, todo o tratamento teria de ser reiniciado, e s tinha comprimidos para fazer isso uma vez. Assim no poderia deixar Benjamin
na casa. Tinha de tir-lo de l. E esta noite.
   Cody planejou durante algumas horas. Ento juntou toda sua coragem e saiu do estbulo na ponta dos ps, voltando para a estrada deserta.
   A estrada estava pior do que nunca. Nem sinal de pavimentao, nem cascalho. Apenas terra batida. No era ampla o suficiente para dois carros passarem em segurana
e s tinha uma placa, pelo que podia ver. Uma tbua presa a um poste. Algum pintara a palavra Rockwell ali. Cody manteve seu ritmo. Pensou que se apertasse os olhos
at que sua viso ficasse fora de foco, e no prestasse muita ateno aos detalhes, seria como estar de volta em casa. S que... no era. At o ar parecia diferente.
   Cody ouviu um estrondo e ficou tenso. Depois acelerou e se jogou no matagal que contornava a estrada, se agachando para observar a estrada iluminada pela lua.
   O barulho aumentou e, ento, o que o provocava apareceu. Um cavalo, usando antolhos e vrias correias. Um cavalo grande e preto, puxando uma charrete oscilante
e indo em direo a Rockwell. Cody balanou a cabea pensando enquanto as rodas de madeira giravam e chiavam. O assento dentro da charrete parecia de veludo marrom,
com pequenos botes em cima. Havia um homem e uma senhora sentados ali, ela usando vestido listado e um chapu que quase fez Cody rir. Assim como o bigode longo
e retorcido do homem, que tinha tanta cera que at brilhava com o reflexo da lua. Seu chapu-coco era quase to engraado.
   Cody afastou o sorriso e balanou a cabea. Realmente viajara um sculo no tempo, no viajara? Puxa! Era inacreditvel, mas conseguira.
   E agora tinha de fazer algo ainda mais difcil. Salvar um menino que no tinha esperanas, a no ser ele.
   Diferente de Zach, Cody no sofrer nenhum efeito colateral ao passar pelo portal. Tivera apenas uma leve dor de cabea que durou umas duas horas, nada mais.
   Sentia-se bem agora. Ento quando a charrete passou, voltou  estrada, e foi em direo  casa, mais rpido desta vez. Estava ficando apreensivo e queria acabar
logo com isso. S tinha uma luz acesa, e sabia bem demais que era a do quarto de Benjamin. Deu uma volta na casa, o mais silenciosamente que pde, olhou ao redor,
e ento passou pelo alapo da porta que dava no poro. Mame mantinha essa porta trancada com cadeado, mas parecia que os cadeados no eram to necessrios no passado.
A porta abriu ruidosamente, fazendo Cody trincar os dentes. Ento mergulhou para dentro, abaixando a portinhola e pegando sua caneta-lanterna.
   No tinha inteno de perder tempo olhando  sua volta. O lugar era arrepiante mesmo. Escuro e inacabado, cho sujo em vez do cimento ao qual estava acostumado.
Nenhuma luz. Nenhuma lavadora ou secadora no canto. Nenhuma caixa de metal para manter o local aquecido. Tinha uma coisa de metal enorme e pesada, com um brilho
vermelho alaranjado saindo de cada uma das muitas fendas. E uma pilha de algo que parecia carvo ao lado.
   Acendendo a lanterna  sua frente, Cody foi para as escadas e subiu na ponta dos ps. A porta no topo tinha uma lingeta para trancar. Quer dizer, tinha na sua
poca. Esperava que fosse assim, mas sabia que a conseguiria abrir. Uma vez, quando brincava de esconde-esconde com alguns amigos, conseguiu. Quando chegou ao topo
das escadas, parou, mas no escutou ningum. Ento tirou o carto da biblioteca do bolso e passou pelo espao entre a porta e a moldura. Lentamente subiu o carto
e logo sentiu a resistncia da lingeta. Levantou-a, mexeu o carto e sorriu. Ento virou a maaneta e abriu a porta.
   A cozinha estava escura como breu. Ainda bem que conhecia o caminho. Deslizou para dentro, desligou a caneta-lanterna e a colocou de volta no bolso. Passou pela
sala de jantar, chegando  sala de estar, onde comeou a andar ainda mais devagar ao se aproximar das escadas. Pensou ouvir algum se mexer l em cima, mas quando
ficou parado e quieto, decidiu que era apenas imaginao.
   Silenciosamente, subiu as escadas e foi em direo ao quarto de Benjamin. Mas ento congelou ao ouvir vozes vindo de l. E depois passos. Cody quase desmaiou
de medo. Deslizou pelo corredor e entrou no armrio.

   Jane engoliu seco ao ficar ali, imvel, fitando aquele menino to pequeno e plido. Benjamin, a respirao fatigada, crculos escuros em volta dos olhos contornados
por pestanas espessas, estava deitado, dormindo, as mos apertadas. A mulher cara no sono na cadeira de madeira ao lado da cama. Jane s conseguia ver a parte de
trs de sua cabea cada para frente, os ombros rolios e baixos. E ento, enquanto estava ali, se perguntando o que faria quando a mulher se virasse e a visse,
ela se mexeu, endireitou-se na cadeira e fez exatamente isso.
   - Quem  voc? Como entrou...?
   Jane levantou a mo para acalmar a mulher.
   - Est tudo bem, Sra. Haversham. Sou uma amiga... de Zachariah. Ele est?
   A mulher se levantou, alisou a saia amarrotada, piscou para afastar o sono dos olhos.
   - No, e no tenho idia de onde foi.
   Jane se sentiu preocupada. Ela e Zach no sabiam o que esperar. A perspectiva de encontrar o outro Zach, aquele que no a conhecia, era to absurda que a deixava
atordoada.
   - A senhora tem certeza? Isso  muito importante. Preciso saber...
   - Se Zachariah estivesse aqui, no acha que estaria aqui ao lado do filho? Mal conseguimos tir-lo deste quarto para comer ou dormir. No, senhorita. Parece que
Zachariah sumiu sem deixar rastro. E estou morrendo de preocupao. - O lbio inferior da senhora estremeceu, e ela agarrou o avental, espremendo-o na mo.
   Jane se aproximou, a garganta apertada, e ps a mo no ombro da mulher.
   - Est tudo bem. Mas preciso da sua ajuda, Sra. Haversham. Estou procurando meu filho, Cody. Ele est desaparecido, e eu...
   - Seu filho? - repetiu a mulher, parecendo acalmar-se.
   - Um menino... que parece tanto com Benjamin que poderia ser gmeo, s que mais velho e bem mais saudvel?
   - Isso! Ele est aqui?
   - No, creio que no. Ele esteve, claro, porm mais cedo, e Deus do cu, o menino ainda no chegou em casa?
   Jane fechou os olhos quando sentiu lgrimas ameaarem cair.
   - No.
   - Deus! O jovem ficou aborrecido porque no o deixamos ver Benjamin. Fugiu daqui feito um bandido e s Deus sabe para onde foi. Mas no se preocupe, tenho certeza
de que ele achar o caminho de casa. - Depois ela balanou a cabea e franziu o cenho ao olhar para as roupas de Jane, jeans e camiseta. - Se no se importa que
eu pergunte, onde mora?
   - Muito longe - disse Jane. Lutou contra a amarga decepo que a fez querer ajoelhar e chorar. Lutou contra a preocupao com Cody, tentou no entrar em pnico
ao pensar nele l fora, sozinho na noite, em algum lugar. Limpou a garganta e se concentrou nas perguntas que precisavam ser respondidas. Se houvesse dois Zachariah
Bolton circulando pela casa agora, e acontecesse de eles se verem, s Deus sabe o que aconteceria.
   - Preciso saber, quando a senhora descobriu que Zachariah tinha desaparecido?
   Os olhos azuis se encheram de lgrimas.
   - Uma hora atrs. Quando entrei para ver como estava Benjamin e vi a cadeira vazia. Soube que algo estava errado. Zachariah no saiu do lado do filho por dias,
a no ser para pegar o Dr. Baker quando as coisas pioraram. Procurei pela casa toda, mas nem sinal dele em lugar nenhum, e ningum o viu sair. Por favor, se souber
onde ele est...
   - Estou aqui, Sra. Haversham.
   A porta do quarto se abriu e Zach entrou. Jane respirou fundo quando girou e o viu ali, incerta de qual Zach seria. Ele encontrou seu olhar e assentiu.
   - Ol de novo, Jane.
   Ela deixou escapar um suspiro, e seus msculos relaxaram.
   - Santa misericrdia, Zachariah. Estava morrendo de medo!
   - Sinto muito se a assustei. Mas estou aqui agora. Por que a senhora no volta para cama? Precisa descansar.
   A Sra. Haversham olhou preocupada para Benjamin, que ainda dormia profundamente.
   - J vou. Mas me chame se precisar.
   - Claro que chamarei. - Zach abraou a mulher, e ento ela os deixou. Zach desviou o olhar para o filho e fechou os olhos.
   Jane queria se aproximar dele, toc-lo. Queria sentir seus braos a envolvendo e ouvir sua voz forte e confiante dizer que Cody ficaria bem, que o encontrariam.
Mas o ar de confiana dele no estava ali naquele momento. Quando ele olhou para o filho que estava morrendo, era ele que precisava de conforto.
   - Cody? - perguntou ele, sem tirar os olhos do filho.
   - Esteve aqui - contou Jane. - Mas fugiu. Zach, onde ele poderia estar?
   Zach fechou os olhos e foi at a cadeira.
   - Eu no sei.
   Ele se abaixou como se fosse sentar, mas Jane o segurou e puxou.
   - No, Zach. Voc no vai voltar ao seu papel e ficar a sentado vendo Benjamin murchar. No vou deixar. Temos de achar Cody.
   - Meu filho est morrendo - sussurrou ele, livrando-se dela.
   - E o meu tem o remdio que vai cur-lo.
   Ele piscou como se por um momento tivesse esquecido.
   - Voc est certa. -  claro, est certa. Jane comeou a andar pelo quarto.
   - No entendo. Viemos para um dia antes de voc partir, no foi? Quero dizer, voc parecia to certo. Mas se for esse o caso, ento por que no h outro voc,
sentado aqui? Por qu...? - Ela virou-se para encar-lo, passando as mos no cabelo. - Isso  to confuso!
   - Tenho a impresso de que seria fisicamente impossvel um homem existir em dois lugares ao mesmo tempo. No poderia estar no meu quarto e aqui, neste quarto,
ao mesmo tempo. Simplesmente no pode acontecer.
   - Ento onde... o outro... foi?
   Zach levantou-se e foi at a janela, abrindo as cortinas para olhar para fora.
   - No sei. Mas sei que voltamos mais, pelo menos um dia. Isso  certo.
   Jane veio para seu lado, acompanhando seu olhar.
   - Como pode ter tanta certeza?
   - Houve uma tempestade com trovoadas e raios na noite antes de eu viajar no tempo. Um raio atingiu aquele estbulo que podemos ver  distncia. Um pouco depois
das nove da noite. - Ele apontou, e ela viu uma construo com aparncia decrpita. - Estar no cho em poucas horas.
   - Ok. Ento sabemos que estamos aqui um dia antes, e sabemos que o outro Zach desapareceu quando voc passou.
   - No. Eu acho... que de alguma forma me fundi a ele... a mim.  estranho... Lembro de tudo sobre a minha viagem para o futuro, mas tambm lembro de estar aqui
ao lado do meu filho uma hora atrs, segurando a mo dele e rezando por um milagre.
   Um arrepio frio subiu pela espinha de Jane.
   - Pai?
   A voz fraca vindo da cama fez ambos virarem rapidamente. Zach foi at l e se inclinou sobre a cama, colocando o filho nos braos.
   - Desculpe, Benjamin. Ns o acordamos?
   - No - respondeu ele. Jane estremeceu ao olhar para a magreza dos braos, a brancura da pele. - Minha cabea est doendo. Foi isso que me acordou, eu acho.
   - Bem, ento vou lhe dar alguma coisa para isso - disse Zach, se levantando e passando suavemente a mo pela cabea do filho. - E vou colocar dentro do chocolate
quente j que sei o quanto voc detesta o gosto.
   O menino sorriu e se encostou nos travesseiros.
   - Eu amo voc, pai.
   - Tambm amo voc, Benjamin. Mais do que imagina. Ento aqueles olhos verdes curiosos pararam em Jane, se apertaram e logo depois se arregalaram.
   - Voc  ela? E voc?
   Jane franziu a testa, mandando um olhar questionador para Zach. Ele s levantou as sobrancelhas, obviamente sem saber mais do que ela sobre o que o menino estava
falando.
   - Eu sou quem, querido?
   - A me! Aquela que eu desejei quando vi as estrelas cadentes! Eu sabia que voc viria! Ah, eu sabia. Voc  to bonita quanto eu desejei. ... - Suas palavras
foram interrompidas por um acesso de tosse que sacudia o corpo to magro.
   O corao de Jane se despedaou, e ela puxou o menino mais para cima na cama, o abraando delicadamente e esfregando as costas at que o espasmo passasse. E quando
passou, os pequenos braos envolveram seu pescoo.
   - Serei um bom filho, me. Eu prometo.
   Jane no poderia deix-lo continuar por muito tempo. As lgrimas que escorreram por seu rosto enquanto o abraava no eram o que aquele anjinho precisava ver
ou se preocupar agora. Zach as viu, e seus prprios olhos estavam vermelhos e cheios de lgrimas quando encontrou os dela. Ela abraou Benjamin at que pudesse controlar
as lgrimas e, ento, enxugou o rosto antes de solt-lo.
   - Voc pode pegar meu chocolate agora - disse ele, fechando os olhos e se enfiando nas cobertas. - Ficarei bem. Sei que ficarei.
   Quando Zach assentiu para ela e inclinou a cabea em direo  porta, Jane se afastou devagar da cama de Benjamin, e soube sem nenhuma dvida que tinha de haver
uma maneira de salvar esse menino, e o dela tambm. E ela a acharia ou morreria tentando.
   Ela seguiu Zach pelas escadas at a cozinha, onde ele colocou uma chaleira no fogo a lenha e depois arremessou dois pedaos de madeira na grelha. Ele ficou l
por um momento, cabea baixa, de costas para ela.
   E ela se forou a ir at ele. Passou os braos em volta da cintura dele e descansou a cabea em suas costas.
   - Faremos com que ele fique bom de novo, Zach. Eu juro.
   Ele virou e a abraou, puxando-a para bem perto e aconchegou a cabea em seus cabelos. Ela sentiu as lgrimas que caam e sabia muito bem o que significavam.
   - Temos de conseguir - sussurrou ele.


   Captulo 9

   Cody esperou at que o som dos passos se afastasse. Quem quer que estivesse no quarto saiu e desceu as escadas. Agora era sua chance. Saiu do armrio, foi pelo
corredor at o quarto de Benjamin e entrou, fechando a porta.
   Benjamin se sentou, os olhos piscando. Parecia que estava terrivelmente cansado. Mas sorriu para Cody mesmo assim.
   - Oi, Ben - disse Cody, chegando mais perto e se sentindo desconfortvel. No tinha certeza do que deveria dizer exatamente, como agir. - Sou...
   - Meu segundo desejo?
   - Cody Fortune. - Esticou a mo e se aproximou da cama.
   Ben olhou para a mo de Cody e lentamente balanou a cabea.
   - E melhor no. Estou doente, voc sabe.
   - Sei. - Cody se sentou em uma cadeira grande. - Mas eu j tive essa doena. S pegamos uma vez.
   - Mesmo?
   - Hum hum.
   - Voc teve? - Benjamin se aprumou um pouco mais reto na cama. - Mas voc est bem agora?
   - Claro.
   - Meu pai tambm teve e melhorou. Mas isso  muito difcil pelo que ouvi falar.
   - Eles no sabem - disse Cody, olhando rpido para a porta e de volta para o menino na cama. - Ningum aqui me conhece, mas existe um remdio capaz de curar.
   - Gostaria que fosse verdade - disse ele baixinho. - Estou to cansado de me sentir mal o tempo todo.
   -  verdade - afirmou Cody, pegando o pote de comprimidos no bolso e segurando-o. - Esse  o remdio, bem aqui. Trouxe para voc. Tentei entrar mais cedo, mas
aquela senhora no deixou.
   - Eles no deixam ningum me ver, a no ser meu pai, o mdico e a Sra. Haversham, claro. No vejo ningum h semanas, com exceo dos adultos. - Olhou para o
pote. - Meu terceiro pedido - murmurou ele, e ento olhou para Cody, os olhos arregalados e confiantes. - Esse remdio vai mesmo me deixar bom de novo?
   - Vai, mas voc tem de tom-lo certinho. De quatro em quatro horas, no pode deixar de tomar um comprimido sequer, ou os outros tero sido desperdiados.
   Ben piscou, mordendo o lbio.
   - Eu durmo muito. Provavelmente dormiria e deixaria de tomar uma ou duas doses. Talvez fosse melhor falar com os adultos...
   - De jeito nenhum. Escute, Ben, eles no acreditariam em mim. Diriam que sou mentiroso. E no tenho como vir aqui a cada quatro horas para lhe dar o remdio.
Quando tentei entrar, eles ameaaram chamar os tiras para me pegar.
   - Tiras?
   - Eh... O xerife. Olhe, Ben, tenho tentado resolver esse problema h algum tempo, e acho que s existe uma maneira de conseguirmos isso.
   - Como? Faria qualquer coisa para ficar bom de novo.
   - Voc tem de fugir - disse Cody, decidindo no dar voltas. Algum poderia entrar a qualquer momento e pux-lo pela orelha. - Agora mesmo, hoje. Encontrei um
lugar onde podemos nos esconder. Vou tomar conta de voc e lhe dar o remdio a cada quatro horas.
   Os olhos de Benjamin se arregalaram. Respirou fundo e balanou a cabea.
   - No sei, Cody. Por quanto tempo teramos de ficar?
   - S uns dois dias. Voc ter de tomar os comprimidos por mais tempo, mas depois de dois dias voc dever estar to melhor que eles tero de acreditar em ns.
Pelo menos estar melhor para tomar o remdio sozinho sem a minha ajuda.
   - Se eu estivesse to melhor; eles deixariam voc ficar - disse Ben, e Cody achou que estava pensando alto. - Mas meu pai vai ficar muito preocupado se eu sair.
   - , mas pense em como ficar feliz quando voc voltar forte e saudvel.
   Benjamin deu um pequeno sorriso.
   - Seria maravilhoso.
   - Temos de nos apressar, Ben. Antes que algum entre.
   - No estou muito forte.
   - Carrego voc nas costas se precisar. Vamos, voc vai precisar de roupas quentes. Levaremos um cobertor tambm. - Enquanto Cody falava, pegou um comprimido e
entregou-o a Ben. -  melhor tomar o primeiro agora. Tome com gua. - Ao falar isso, colocou gua em um copo que estava na mesa de cabeceira. Entregou-o a Ben e
o menino obedientemente colocou o comprimido na boca. Foram trs tentativas, ele quase engasgou, mas finalmente conseguiu engolir. Ento passou as pernas pela beirada
da cama.
   - As minhas roupas esto l. - Apontou e Cody abriu o enorme armrio e tirou um suter de l pesada e uma cala. Ben se vestiu, mas era desajeitado e lento, e
quando terminou, se afundou na cama, a cabea cada e a respirao difcil.
   - Voc est realmente fraco - disse Cody. Ele ajoelhou e vestiu as meias no p do menino mais novo. Depois calou um par de sapatos com aparncia estranha, e
voltou para o armrio para pegar um casaco.
   - Voc est pronto agora.
   - Pegue outro suter - disse Ben, levantando a cabea apenas o suficiente para falar. - Voc no est de casaco. Eu tenho um que  muito grande. Vai servir em
voc.
   Cody encontrou o suter a que Ben se referia, o enrolou e colocou embaixo do brao.
   - Est pronto?
   - Acho que sim - disse Ben. Levantou-se, mas oscilou e quase caiu. Cody foi para o lado dele e colocou o brao de Ben em volta de seus ombros.
   - Vamos l. No se preocupe, Ben, isso vai dar certo. Benjamin assentiu, e Cody abriu a porta e o guiou pelo corredor, para longe da escada pela qual os outros
dois tinham descido. Conhecia bem a casa e sabia que havia uma escada que levava direto para a porta dos fundos. Estavam indo devagar. Ben mal conseguia andar, mas
logo chegaram na noite estrelada e gelada.
   Benjamin se apoiou em Cody e respirou fundo.
   - Deus, faz muito tempo que no saio de casa.
   - Acredito.
   - Onde  nosso esconderijo, Cody?
   - No estbulo do outro lado da estrada. Fiquei l mais cedo e no tinha ningum por perto. Estaremos seguros. E tem um monte de lugares para nos escondermos se
algum aparecer.
   Benjamin levantou a cabea e olhou para o estbulo l longe.
   - No acho... que eu consiga chegar to longe.
   - Voc tem de conseguir. Vamos l, sei que  difcil mas...
   - No, espere - interrompeu Ben. - Eu tenho um pnei. Na cocheira, l.
   Cody olhou e piscou, surpreso. No havia nenhuma cocheira no quintal em 1997. Mas agora tinha uma l, exatamente onde deveria estar a garagem. Cara, isso era
como "Alm da imaginao" ou algo assim. Assentindo, ajudou Ben a atravessar o jardim, o encostou em um fardo de feno e abriu a porta da cocheira.
   Um pnei marrom e tranqilo os cumprimentou com um relincho e um movimento da cabea peluda. Cody pegou o cabresto do pnei e o levou para fora. O animal saiu,
parando ao lado do fardo em que Ben estava sentado, e o cutucou com o focinho. Os grandes olhos castanhos pareciam dizer que sabia exatamente o que estava acontecendo.
E o animal ficou parado enquanto Cody ajudava Ben a subir nas costas dele.
   - Que pnei bom - disse Cody, pegando o cabresto de novo e acariciando o focinho do animal.
   - O nome dele  Pete - informou Ben.
   - Sempre quis um pnei.
   - Eu tambm. Mas como estou doente, h muito tempo no posso montar.
   - Ento vai gostar disso. - Cody desenrolou o cobertor e o colocou em volta dos ombros de Ben, fazendo um n para prend-lo. - Segure firme e avise se precisar
Parar.
   Cody virou e guiou o pnei e o menino pelo jardim e depois pela estrada. Ento comeou a lev-lo na direo do estbulo e rezou silenciosamente para que no encontrassem
viajantes antes de chegarem l.

   Zach abriu a porta sem fazer barulho, para o caso de Benjamin estar dormindo de novo. Levou um tempo at que acendesse o fogo e esquentasse o leite, e derretesse
o chocolate e colocasse acar. Bem diferente do chocolate quente de dois minutos da poca de Jane. Mas Ben estava acostumado a isso. Sabia quanto tempo levava para
preparar chocolate quente. Zach entrou no quarto na ponta dos ps, a xcara cheia de chocolate na mo. E ento congelou quando a luz vinda do lampio iluminou uma
cama vazia.
   - Benjamin - chamou ele baixinho, procurando pelo quarto enquanto seu corao disparava no peito. - Benjamin, onde est voc?
   Jane entrou e ele ouviu quando ela parou de respirar.
   - Zach?
   Ele se voltou para ela, procurando seu olhar como se procurasse uma resposta, embora soubesse que ela no tinha como saber para onde seu filho fora.
   - Ele estava muito fraco para levantar da cama - disse ele. Colocou a xcara na mesa e se ajoelhou, procurando embaixo da cama mas no achando nada.
   - Zach, o armrio...
   Virou e viu a porta do armrio aberta. Levantou o lampio e olhou l dentro.
   - Meu Deus, o casaco sumiu! - Um medo verdadeiro estava tomando conta dele agora. Isso no fazia nenhum sentido.
   As mos de Jane encostaram nos ombros de Zach, e ele sentiu o calor e o conforto do toque dela, as energias calmantes que ela transmitia como se fosse mgica.
   - Talvez s tenha se cansado de ficar deitado na cama - murmurou ela, a voz transmitindo a mesma calma das mos. - Pode ter decidido ir l fora, tomar ar fresco.
   - Ele mal consegue andar sozinho, Jane.
   - Olhe, eu procuro aqui em cima. Voc desce e procura l embaixo. Se no o acharmos...
   - Se no o acharmos, vou perd-lo - disse Zach, com a voz quase inaudvel pela rouquido.
   - Voc no vai perd-lo.
   Zach fitou os olhos arregalados e generosos de Jane e tentou acreditar nela. O pnico pareceu acalmar quando ela olhou para ele, falou com ele e o tocou. Infelizmente,
enquanto estava longe dela, procurando o filho doente no trreo, o pnico voltou. Jane tinha de ser do tamanho de um chaveiro, para que ele pudesse carreg-la com
ele, us-la como um amuleto. Quando ela estava perto, se sentia confiante e otimista, mas assim que ela se afastava, o medo com o qual convivia h tantos meses recaa
sobre sua alma mais uma vez. Quando terminou de procurar sem sucesso em cada cmodo, saiu para procurar l fora. Depois, foi para a casa de hspedes e depois para
a cocheira.
   Parou l, na entrada da cocheira, e um vento noturno arrepiante o atingiu, despenteando seus cabelos e tentando soltar a grande porta de madeira de suas mos.
Pete, o pnei de Benjamin, sumira tambm. E foi como se toda a fora do corpo de Zach o abandonasse enquanto olhava para o horizonte, para a estrada deserta e escura
 esquerda e depois para a encosta arborizada  direita. Ben podia estar em qualquer lugar. Soltou a porta, e o vento a bateu contra a madeira repetidas vezes. At
se transformar em um ritmo, um ritmo inabalvel e desesperado.
   - Agente firme, Zach - disse ela, a voz firme e forte. - Vamos encontr-lo. Prometo.
   A voz era como ao coberto por veludo, e ele estava comeando a achar que pertencia ao seu anjo da guarda. Veio de perto de seu ouvido, e Zach conseguiu ficar
de p novamente. Os braos de Jane o abraavam, e ele a segurou como algum se afogando se agarra a um pedao de madeira.
   - O pnei dele sumiu. Deus, ele no estava forte o suficiente para ir muito longe. E se for para a floresta? E se desmaiar e cair? Ele pode estar cado em algum
lugar, sozinho e com medo.
   - No acho que ele esteja sozinho. Tenho o pressentimento de que ele est com Cody.
   A cabea de Zach levantou bruscamente, e ele fitou os olhos dela. Esperana ressurgindo em seu peito. Se Ben estava com Cody...
   - O que faz voc achar isso?
   - Voc acabou de dizer que ele estava fraco demais para andar muito sozinho. No consigo imagin-lo com foras para vir at aqui e subir no cavalo, voc consegue?
   Ele piscou e balanou a cabea. Ela fez parecer to lgico, to simples.
   - No, no consigo - respondeu.
   - E quem mais poderia ajud-lo? Zach, j sabemos que Cody nos ouviu discutindo sobre isso na outra noite. Foi por isso que veio at aqui, porque achou que no
viramos. Conheo meu filho. Ele est tentando salvar Ben, pois acredita que  o nico que pode fazer isso. Ele pegou os comprimidos antes de sair.  claro que tinha
a inteno de dar a Benjamin. E provavelmente  isso que est fazendo enquanto conversamos.
   Zach olhou para a noite escura como breu e se arrepiou com o vento gelado.
   - Mas isso tudo  conjectura. Voc no pode ter certeza...
   - Pode chamar de intuio de me. Tenho noventa e nove por cento de certeza.
   Zach fechou os olhos. O pnico diminuiu agora que tinha a explicao de Jane para apegar-se. Conseguia ver Benjamin agasalhado e confortvel, sem medo porque
estava com Cody, j comeando a sentir os efeitos do remdio que Cody com certeza j teria dado a ele agora.
   Graas a Deus tinha Jane.
   A fora do vento aumentou, trazendo dvidas com ele.
   - Est to frio hoje. - Ento ele abriu os olhos para o som de vozes vindo da casa, e quando olhou, viu o brilho de lampies em quase todas as janelas. - O que...
   - Acordei a Sra. Haversham e a outra empregada. Uma delas acordou o jardineiro e ele est indo para a cidade conseguir mais ajuda. Teremos um destacamento de
busca em uma hora, Zach. Vamos encontrar os dois, sos e salvos, sem dvida, em algum lugar, e provavelmente se sentindo culpados por nos preocuparem tanto.
   - Voc  maravilhosa, Jane. Simplesmente maravilhosa. Ela pegou os braos dele e os colocou em volta de seus ombros enquanto iam em direo  casa.
   Ouviram uma trovoada ao longe, e o vento se manteve inabalvel, soprando o cabelo dela em uma nuvem de cachos que acariciaram o rosto dele.
   - Droga - disse ele. - Aquela tempestade j est se aproximando. Temos de nos apressar, Jane... ser fortssima. - Ele sabia, uma vez que j testemunhara sua
fora. Pensar no filho exposto s foras da natureza to poderosas o deixava assustado. Jane tremeu, e ele soube que ela tambm temia pela segurana dos dois meninos.
Mas no admitiria isso. No agora, quando as coisas estavam to incertas.

   - Devamos ter lembrado de trazer um lampio. - Ben se agitou sob o pesado cobertor na cama de feno. Cody estava sentado perto, mas no ousou deitar. Tinha de
estar acordado quando fosse a hora da prxima dose do remdio de Ben. No se permitiria cair no sono e perder a hora. S tinha comprimidos suficientes para fazer
isso uma vez, e se no fizesse certo...
   Mas no pensaria sobre isso agora.
   - No precisamos de um lampio velho - disse ele, fazendo um esforo mental para soar alegre. Sabia que Benjamin estava morrendo de medo neste momento e no o
culpava. - Olhe, tenho algo muito melhor. - Cody tirou do bolso a caneta-lanterna e acendeu-a.
   - Uau! O que  isso?
   - Uma lanterna - explicou Cody, lhe entregando seu tesouro sem hesitao. Pelo menos agora Ben no estava deitado l ouvindo os troves e tremendo como uma vara.
   - Como funciona?
   - Eletricidade - disse Cody. - A fora  gerada por uma pequena bateria dentro. Quando clarear, vou mostrar para voc.
   - Vai?
   - Claro. Voc pode at desmontar se quiser.
   Pela primeira vez, Ben abriu um amplo sorriso. A pequena luz da lanterna iluminava seu rosto e os dois dentes que faltavam na frente. O pnei, que estivera mascando
tranqilamente a cama deles, levantou a cabea e resfolegou pelas narinas.
   - Pete est com medo - disse Ben. Ele brincou at que desligou a luz.
   -  melhor no desperdiarmos bateria. Poupar para quando precisarmos.
   Benjamin voltou para debaixo das cobertas, segurando a lanterna no peito, como se fosse um diamante ou algo precioso.
   -  melhor voc dormir um pouco agora.
   Ouviram outro trovo, to alto que parecia estar dentro do estbulo com eles. A mo de Ben disparou e fechou-se no brao de Cody.
   - Voc... no vai me deixar, vai, Cody?
   - De jeito nenhum. Vou ficar aqui. Sabe de uma coisa, Ben? Sempre quis ter um irmo mais novo.
   - Srio? - A voz de Benjamin soava sonolenta, e ele relaxou um pouco a mo que apertava o brao de Cody, mas no soltou. - Isso  engraado.
   - Por qu?
   - Porque sempre desejei um irmo mais velho. Voc tem um canivete com voc, Cody?
   Cody tinha, mas ao imaginar o que Ben estava pensando, no respondeu.
   - Por qu?
   -  que algumas crianas cortam os dedos para fazer um pacto de sangue e ento se tornam irmos.
   - Foi o que achei que voc quisesse - disse Cody, mordendo o lbio e pensando. No achava uma boa idia um menino to doente quanto Ben se cortar com um canivete
velho cheio de germes. - Eles tambm fazem isso no lugar de onde venho. Mas alguns fazem diferente.
   - Como?
   - Por qu? Voc quer ser meu irmo?
   - Quero... Quer dizer, quero se voc tambm quiser.
   - Acabei de dizer que sempre quis ter um irmo mais novo, no disse? - Podia ver o reflexo branco do sorriso de Ben. - Ento,  assim que fazemos. Primeiro, voc
cospe na palma da mo - ensinou Cody. Ben cuspiu e ento Cody tambm. - Agora apertamos a mo - disse Cody. Eles tatearam no escuro por um momento, mas ento as
mos se encontraram e Cody fechou a sua bem apertada em volta da mo de Ben.
   - E agora fazemos um voto - continuou Cody. - Eu, Cody Fortune, prometo solenemente que deste dia em diante, Benjamin Bolton ser meu irmo mais novo e que ficaremos
juntos, independente do que acontecer. - Cody disse as palavras com muita seriedade, as inventando na hora, enquanto falava. - Agora  a sua vez, Ben.
   - Eu, Benjamin Bolton, prometo solenemente que... Cody o ajudou:
   - Deste dia em diante.
   - Deste dia em diante, Cody Fortune ser meu... meu irmo mais velho. E que ficaremos juntos... independente do que acontecer.
   Soou para Cody como se Ben estivesse se emocionando no final. E nunca admitiria para ningum, mas sentiu sua prpria garganta se apertar.
   - Pronto.  s isso. J somos irmos de verdade.
   - Srio?
   - Srio. Fizemos uma promessa. Isso  muito mais do que irmos naturais fazem.
   Ben se afundou no feno, mas ainda segurava a mo de Cody.
   - E voc no vai me deixar?
   - De jeito nenhum. Irmos ficam juntos, independente do que acontecer, como dissemos no voto. Durma um pouco agora. Prometo. Estarei aqui quando voc acordar.
   - Obrigado, Cody.
   Ben ficou quieto depois disso. Logo Cody escutou sua respirao que produzia um som spero, mas constante, e percebeu que dormira. Colocou a mo no bolso e a
fechou em torno do pote, apertando forte. Rangeu os dentes, fechou os olhos e sussurrou:
   -  melhor voc funcionar, escutou?  melhor fazer com que ele fique bom logo.

   As pessoas que participavam das buscas se reuniram na casa. gua escorria das abas de seus chapus e capas de chuva brilharam com a luz do lampio quando os homens
entraram para tomar uma xcara de caf e se aquecer no fogo. Horas esquadrinhando as matas e as valas por toda a estrada, e mesmo na cidade, no levaram a nada.
Nenhuma pista de onde os meninos podiam estar. E ento a tempestade desencadeou sua fria, e os homens gradualmente voltaram para c, encharcados at a alma, e mesmo
assim inflexveis. Nenhum deles estava disposto a desistir.
   O rosto de Zach ficou triste ao escutar um a um os homens dizerem que no tinha havido nenhum progresso. Ele tambm estava encharcado, e enquanto a Sra. Haversham
servia caf para os voluntrios congelados, Jane pegou no brao de Zach e o levou at a sala de estar, insistindo para que sentasse perto do fogo.
   - S um minuto - murmurou ela, entregando a ele uma caneca com caf fumegante. - Aqui est um casaco seco. Vamos...
   - No h tempo para isso - disse ele, sem encontrar os olhos dela. O olhar dele estava concentrado nas chamas sibilantes, sua ateno parecia estar focalizada
nos est-los na lareira.
   - No far nenhum bem a Benjamin se voc tiver um colapso no meio da tempestade.  s um intervalo rpido Zach. Esquente-se e tome o caf. Ento voltaremos l
Para fora.
   Ele afastou o olhar das chamas e se fixou nos olhos dela.
   - Pelo direito, voc deveria estar desesperada agora. Sei muito bem que teme tanto por Cody quanto eu por Benjamin.
   - Vou me desesperar mais tarde, quando ambos estiverem a salvo.
   Os olhos dele se apertaram ao analisar o rosto dela.
   - Voc no se parece com nenhuma mulher que conheo, Jane. Quero que acredite em mim. Quero dizer isso mesmo. Voc  diferente do resto.
   Ela abaixou a cabea.
   - E voc conheceu muitas delas, no foi?
   - Dzias.
   Machucava ouvi-lo falar isso, embora j soubesse. E ela no fazia idia do porqu pensar nele com todas aquelas mulheres poderia chate-la, mas... A quem achava
que estava enganando? E claro que sabia por que isso a chateava.
   - Por qu? - ela se escutou perguntando.
   - Por que o qu? Por que levo meu prazer para onde quero?  simples. Uma necessidade fsica que eu amenizo quando posso. Nada mais complicado do que isso.
   - Mas no h sentimentos envolvidos? Com nenhuma delas?
   - No. Nunca. No at...
   - E a... sua esposa? A me de Benjamin?
   Ele desviou o olhar rpido o suficiente para ela perceber que atingira algo.
   - Voc a amava, no amava? Ele limpou a garganta.
   - Cludia, a me de Benjamin, nunca foi minha esposa.
   Jane piscou surpresa, e depois decepcionada. Deus, ele era to parecido com Greg? Engravidou uma mulher e depois...
   - Ela era casada. Tinha um marido velho, impotente e muito rico, e eu era jovem o suficiente para acreditar que ela queria mais de mim do que prazer.
   - Ento... voc a amava.
   - Achava que amava. Mas eu era um jovem leviano com mais conhecimento dos livros do que senso comum. No tinha dinheiro nem projeo social. Ela tinha muito dos
dois. Eu fui apenas um caso para ela. Quando ela descobriu que estava grvida, sendo to crist, viajou para o exterior para visitar uma tia, pelo menos essa foi
a histria que contaram. Deu  luz sem que ningum do seu estimado crculo social soubesse. Nem o marido desconfiou. A criana veio parar na minha porta com um bilhete
dizendo que nunca ia querer me ver ou ouvir falar de mim, e que se eu dissesse uma palavra sugerindo que o filho era dela, ela me arruinaria. Ela tinha poder suficiente
para cumprir essa ameaa.
   Havia amargura em sua voz e ela via um sofrimento real em seus olhos.
   - Ela partiu seu corao, no foi, Zach? Ele apenas deu de ombros.
   - Foi uma lio dolorosa, mas valiosa. Ela ficou viva recentemente. Talvez ficar sozinha ensine alguma coisa para ela.
   - No acho que ela tenha lhe ensinado algo. Voc se transformou no que ela era. Fechou seu corao e tornou-se uma pessoa que s est interessada em casos sem
importncia com estranhos. - Perguntou-se se s fora isso Para ele? Apenas mais uma rodada de satisfao mtua entre dois adultos? No, ela sabia que era mais do
que isso.
   O que acontecera entre eles dois no estava baseado em desejo fsico, mas em turbulncia emocional. Aflio compartilhada. No tinham a quem recorrer, exceto
ao outro, e assim fizeram.
   - Pelo menos no me tranquei para o mundo como voc, Jane.
   - Achei que tivesse me trancado - disse ela, levantando a cabea para fitar os olhos dele e, sem saber como, engoliu o n em sua garganta. - Mas voc entrou mesmo
assim.
   Ele piscou para ela, como se estivesse sem fala. Ento se levantou e colocou a caneca na mesa. Suas mos pousaram nos ombros dela.
   - Jane...
   Ele parou quando a porta da frente se abriu e um homem ensopado, com aparncia maltrapilha, passou por ela. Atrs dele, as nuvens escuras estavam se agitando
com vigor renovado, enquanto a j horrvel tempestade s piorava.
   - Vi algo! - gritou o homem, enquanto tirava o capuz. - Uma luz estranha no velho estbulo de Thomas.
   Zach ficou completamente tenso, os olhos arregalados.
   - O velho estbulo... - Sua cabea girou, os olhos fixos no pndulo do relgio batendo no console da lareira. Mostrava 9h08 da noite. - No - sussurrou ele. -
A qualquer momento o estbulo vai...
   Uma luz ofuscante fez uma fenda na noite, e Zach correu para a porta, empurrando o homem para o lado enquanto saa para a chuva. Jane correu para fora ao lado
dele e seguiu seu olhar para o velho estbulo, a uns cinco quilmetros dali. Enquanto olhava, pequenas lnguas de fogo comearam a lamber o cu escuro vindas do
telhado do estbulo.
   - Deus, no... - murmurou Zach.
   A calma de Jane estava acabada. No podia mais manter a mscara no lugar. Seu grito agudo cortou a noite e ela caiu de joelhos na chuva, sem perceber o frio ou
a poa em que ajoelhava.
   - Cody! - disse ela, soluando. - Deus, no leve meu beb!









   Captulo 10
   
   O sangue de Jane congelou quando percebeu que o estbulo distante era o mesmo que Zach falara. De acordo com a histria que contara, ele seria arruinado pelo 
fogo rapidamente. Pela aparncia velha e seca que a madeira da construo parecia ter quando Zach apontou mais cedo, podia entender o porqu. E neste momento, seu 
filho e o de Zach poderiam estar dentro do estbulo. Talvez dormindo. Inconscientes do perigo. Caindo na armadilha.
   Ela s conseguia ficar ali, parada embaixo da chuva forte, impotente, observando, enquanto Zach pegava as rdeas do cavalo completamente molhado e subia nas costas 
do animal. Chutou o cavalo para que comeasse a galopar, quase jogando uma charrete para fora da estrada estreita ao passar. Ento desapareceu na escurido da noite 
tempestuosa.
   A charrete parou e uma mulher desceu, virando a cabea na direo que Zach tomara, se apressando para chegar perto de Jane. Ela quase foi derrubada pela urgncia 
dos homens que saam da casa ao perceberem o que estava acontecendo. Homens montavam em seus cavalos, e o som do galope rivalizava com o da tempestade que caa.
   - O que est acontecendo? - perguntou a mulher. E como Jane no respondesse, ela segurou seus ombros e a sacudiu levemente. O som do tropel foi diminuindo lentamente, 
at se perder no uivo do vento e no ronco interminvel dos troves. - Eu perguntei o que est acontecendo? A cidade inteira est alvoroada. Dizem que o menino desapareceu 
e... - Ela parou, fechou os olhos e mordeu o lbio.
   E pela primeira vez, Jane olhou para ela. Os cachos louros caam molhados em volta do rosto por debaixo do capuz da capa azul-escura que usava. Era linda. E estava 
realmente muito assustada. Mas tentava esconder.
   - Voc  ela, no ? - sussurrou Jane. - Voc  aquela que...
   Os olhos da mulher se arregalaram e os lbios se abriram deixando escapar um grito sufocado.
   - Eu... No tenho idia de quem voc est falando. Sou apenas uma vizinha preocupada. - Baixou os olhos e percebeu as roupas de Jane. - E quem  voc?
   Jane balanou a cabea. Deus, no se admirava por Zach ter se apaixonado por uma mulher to linda. Tinha as mas do rosto de uma deusa. Lbios carnudos e grandes 
olhos verdes que eram capazes de engolir uma pessoa inteira. Uma parte dela se ressentia por saber que esta mulher fizera Zach sofrer e abandonara o prprio filho. 
Outra parte sentia um cime insano. Esta mulher tivera o corao de Zach nas mos. Ele a amara. Talvez, bem l no fundo, ainda ame. Jane vinha tentando no pensar 
muito nessa suspeita, mas ela invadira sua mente agora. Ele a amava. Ela o fizera sofrer. Ele nunca mais se permitiu amar de novo. Era possvel que o motivo fosse 
porque nunca superara esse amor.
   Parte de Jane queria dizer a esta mulher o que pensava ela. Mas a maior parte era a me que existia dentro dela. E essa parte sabia e entendia o medo nos olhos 
da outra mulher. Era o medo de uma me pela vida do prprio filho. Mesmo que fosse um filho que nunca abraara, nunca quisera, talvez at mesmo nunca amara... O 
vnculo biolgico estava l, em algum lugar. Mesmo um vnculo fraco como o dela tinha de estar. Foi a me que existia dentro de Jane que pegou a mo enluvada da 
mulher.
   - Meu filho tambm est desaparecido. E temos razes para achar que os dois meninos esto... Naquele estbulo. - Com a mo livre, apontou.
   - Mas... Est pegando fogo! Jane soluou e desviou os olhos.
   - Tenho de ir ver meu filho. Deixe-me usar sua charrete. A outra mulher assentiu sem dizer uma s palavra, se virando e caminhando ao lado de Jane.
   - Vou com voc. Jane no discutiu.
   
   Zach cavalgou o cavalo de forma implacvel, afundando os saltos nas costelas do animal mesmo sabendo que eleja estava correndo o mximo que podia. A estrada estava 
coberta de lama e ainda chovia muito, o que a tornava escorregadia e perigosa. A chuva, porm, no era suficiente para apagar aquelas chamas. Desejava conseguir 
afastar de sua cabea a imagem do estbulo queimando. Mas no conseguia. Estivera deitado na cama do filho observando as chamas devorarem a estrutura inteira, to 
rapidamente que parecia impossvel. Sabia que tinha muito pouco tempo para alcanar Benjamin e Cody. Ele sabia, e isso o estava matando.
   O vento trazia gotas congeladas que cortavam seu rosto como lminas. Mal conseguia enxergar a estrada lamacenta  sua frente, e talvez no conseguisse mesmo se 
fosse dia. Seu olhar estava cravado naquela luz terrvel e distante. As chamas se espalhavam rapidamente pelo telhado da construo, alcanando o cu como se quisessem 
devor-lo; e estavam mais baixas nas laterais, destruindo as paredes inflamveis. Escombros em chamas caam pela escurido, apenas para alcanar o cho e continuar 
queimando as paredes do estbulo.
   Zach pensou em Benjamin l dentro. Talvez s acordando para perceber que o prdio estava pegando fogo. Talvez ainda inconsciente. Logo seria atingido. Logo no 
teria escapatria. Logo... No!
   Zach chutou o cavalo mais forte, se inclinando para frente, sobre o pescoo liso e molhado, sentindo o calor que brotava por causa da cavalgada.
   - Vamos l, Demnio. Mais rpido, droga! O cavalo esticou as pernas, correndo ainda mais rpido do que antes. Lama e gua respingavam a cada impacto das patas 
voadoras, encharcando tanto Zach quanto o animal. Finalmente o estbulo apareceu na frente deles como uma tocha gigante iluminando a escurido da noite. A chuva 
caa inutilmente, fazendo pouco mais do que aumentar o crepitar das chamas. O cavalo derrapou e empinou-se, guinchando em terror. Zach foi jogado das costas do animal, 
caindo na lama. O impacto o surpreendeu, mas logo estava de p, indo em direo ao estbulo em chamas, mesmo sabendo que o cavalo se afastara do terrvel espetculo.
   Protegendo o rosto com um brao, Zach se aproximou, at o calor chamuscar sua pele atravs da roupa, e o rudo se sobrepor a qualquer outro. Era ensurdecedor. 
As chamas eram muros impossveis de atravessar, e ele as contornou, andando em volta do inferno enquanto procurava uma brecha. Uma passagem para entrar. Tinha de 
haver uma. E finalmente, com os olhos ardendo da fumaa, ele encontrou. Uma passagem. Como um anel de fogo de algum espetculo de circo. Sem hesitar por nem um segundo, 
Zach mergulhou pela abertura. Aterrissou no feno lamacento do lado de dentro.
   A escurido s era quebrada por flashes ocasionais das chamas, aumentando conforme encontravam combustvel para se alimentar. O cheiro de madeira e feno queimados 
pesavam no ar cheio de fumaa, queimando seus pulmes. Levantou e tossiu antes de avanar trs passos. Levantando a lapela do palet at o nariz para tentar filtrar 
o ar, ele gritou:
   - Meninos! Onde vocs esto? Benjamin! Cody!
   No conseguia enxergar nada alm da fumaa densa e fatal e do espocar ocasional do fogo. No conseguia escutar nada alm da crepitao e dos estalos que at pareciam 
de um ser vivo. Um monstro desejoso de devorar todos eles. Um movimento repentino fez com que virasse para o lado. Ento sentiu o pnei de Benjamin passar como um 
raio por ele em absoluto pnico. A cabea de Zach bateu em uma viga quando se abaixou, e a pata bateu em seu queixo enquanto o animal amedrontado ia em direo  
abertura. Pelo menos o pobre bicho estava na direo certa. Segurando em uma viga para se levantar de novo, Zach foi para a rea de onde o pnei viera. Seus gritos 
e sua tosse misturados.
   E ento ele tropeou e caiu de novo. Mas desta vez, foi um corpo que o fez tropear.
   
   Quando a charrete quicou em uma parte elevada de lama perto do estbulo, Jane gritou de angustia. Ela levantou do assento, pulou para o cho encharcado e correu, 
mas a mo firme de um dos homens envolvidos na busca a impediu de continuar correndo para as chamas.
   - Calma, senhorita. Para trs. Deixe os homens cuidarem disso. Estamos fazendo tudo o que podemos.
   Ela sacudiu a cabea, e gotas de chuva espirraram de seu cabelo enquanto lutava com as mos que seguravam seus ombros.
   - Deixe-me ir! Meu filho est l! Cody!
   Mas as mos do homem no cediam. Seguravam-na firme, apesar da chuva forte e do esforo de Jane, e ela parou de lutar quando seus joelhos dobraram. Afundou no 
cho lamacento, aflita, soluando, incapaz de tirar os olhos do fogo.
   Os homens formaram uma brigada; uma fila torta de homens se direcionando para algum lugar perto, onde a gua caindo refletia o horror alaranjado como um espelho. 
Enchiam baldes e esses eram passados e despejados no fogo, e depois voltavam. Ela no tinha idia de onde os baldes vinham. Nem se importava.
   - Aqui. Por onde Zachariah entrou! - gritou algum. - Joguem gua aqui para que ele possa voltar vivo!
   Zach estava l dentro? Deus, todos trs, presos naquele inferno de calor e fumaa?
   Na charrete, a mulher que trouxera Jane parecia congelada, paralisada, em choque, talvez. No chorava nem soluava, como Jane. Estava apenas sentada l, observando, 
e a luz das chamas se refletiam naqueles olhos enormes e atordoados.
   Jane olhou para ela por apenas um segundo antes de voltar seu olhar para o estbulo em chamas que poderia estar devorando seu filho enquanto estava sentada ali, 
a salvo e impotente. O homem que a segurava afrouxou o aperto quando ela escutou os gritos de Cody.
   Ento ela ficou de p e correu at a lateral do prdio, escorregando na lama, lutando para ficar de p e seguindo. O lugar que os homens estavam jogando gua 
tinha um formato oval. Fumaa cinza saa formando espirais em suas bordas negras. E Jane foi at aquela abertura, com inteno de entrar.
   Uma pequena forma a fez parar no momento em que ia entrar. Uma preciosa frma pequena e to familiar que cambaleava para fora da armadilha mortal e se jogava 
em cima dela. Braos pequenos e fortes abraaram sua cintura, e um rosto chamuscado encostou em sua barriga.
   - Cody! - Jane caiu de joelhos de novo, desta vez de alvio, soluando mais uma vez e o abraando com fora.
   - Me... Eu estava com tanto medo!
   Ela puxou o filho para si, incapaz de deix-lo sair mesmo se quisesse. Mas seu olhar voltou para aquele buraco negro enquanto esperava, prendendo a respirao.
   Segundos pareciam horas. Mas finalmente Zach saiu, cambaleando, com o filho nos braos. De joelhos, Jane fitou os olhos dele. E ele, os dela, o rosto cheio de 
fuligem, o cabelo chamuscado. Ele passou Benjamin para um brao, soltando uma mo para alcanar Jane. Ela segurou a mo dele e Zach a levantou e rapidamente a puxou 
e a Cody para longe do estbulo. Sem parar at chegarem  estrada.
   - Doutor Baker! - gritou ele. - Algum encontre o mdico!
   - Estou aqui, Zachariah. Bem aqui. - Um homem idoso abriu passagem entre a multido e delicadamente tirou Benjamin dos braos de Zach. - Vou olhar por ele. Ele 
est vivo, Zach. No venha chorando como uma mulher para cima de mim.
   - No planejava fazer isso.
   O mdico entregou o menino para outra pessoa.
   - Leve-o at minha charrete. Esse aqui tambm - disse ele, apontando para Cody.
   Cody apertou a mo de Jane com muita fora enquanto olhava para o menino mais novo inconsciente. Virou-se para Zach, que estava do outro lado dela.
   - Benjamin vai ficar bom. J dei duas doses para ele, e daqui a pouco estar na hora de... - Enquanto falava, Cody colocou a mo no bolso. E ento congelou, os 
olhos se arregalaram. - Deve ter cado do meu bolso quando...
   - Zach, no! - gritou Jane inutilmente. Zach j estava voltando para o estbulo em chamas, passando pelo buraco que mais uma vez estava contornado por fogo.
   O mdico praguejou. Cody chorou. Os homens que estavam em volta deles gritaram. Mas era tarde demais... Zach j entrara.
   - Me...
   Jane balanou a cabea, abraando Cody mais uma vez.
   - Quero que voc volte para a casa com o mdico, Cody.
   - Mas Zach...
   - No h mais nada que voc possa fazer aqui, querido. V com ele. Voc precisa se secar e se esquentar ou vai acabar ficando to doente quanto Benjamin. Alm 
disso, ele pode precisar de voc quando acordar.
   Cody estremeceu e fitou o estbulo por um longo momento.
   - Me, no quero que Zach morra. No queria que nada disso acontecesse. S queria ajudar Benjamin... - Abraou-a forte sob a tempestade.
   - Ele no vai morrer. Prometo. E nada disso  culpa sua, Cody. - Ela se inclinou e beijou o rosto sujo de fuligem. - Por favor, v e ficar a salvo. Tome conta 
de Benjamin. E o que Zach gostaria que voc fizesse.
   Cody fungou e endireitou a coluna.
   - Ok. Eu vou. Promete que no vai atrs dele, me?
   - Prometo.
   Cody assentiu, a abraou mais uma vez e depois subiu na charrete do mdico. Benjamin estava deitado no assento, ento Cody sentou na beirada, e pegou a mo de 
Ben.
   - Voc vai ficar bem, Benjamin - disse ele. O doutor assentiu para Jane.
   - Vou cuidar bem de seu filho, senhora. Tome conta para que levem Zachariah no momento que sair.
   - Pode deixar.
   - Se os meninos ficarem bem antes de voc lev-lo, voltarei. Embora acredite que se demorar tanto, tudo estar perdido. - Ele a estudou atravs dos olhos estreitos. 
- Qual foi o remdio que o menino perdeu l dentro?
   Ela abaixou o queixo e balanou a cabea.
   - Eu...  experimental, doutor. S sei isso.
   - Engraado Zachariah no ter falado nada antes - reclamou o homem, se virando para a charrete e subindo. Puxou as rdeas e o veculo andou. Jane deu um passo 
para frente.
   A brigada de baldes estava com fora total de novo. Dois homens entraram atrs de Zach, e Jane esperou, rezando silenciosamente, enquanto lgrimas escorriam pelo 
rosto.
   - Fique bem, Zach - sussurrava ela. - Por favor, pelo amor de Deus, fique bem.
   Houve um estalo e o telhado desabou. Tbuas em chamas caram no cho, soltando brasas pela noite. Os homens se afastaram, um deles puxando Jane consigo. Enquanto 
o estbulo desmoronava, ela viu trs formas perto da abertura. Que depois desapareceram.
   As fascas se espalhavam pelo cho, e as chamas que atingiram o cu diminuram, levando o que sobrara do prdio junto. Jane correu para onde vira os trs, ou 
pensou que vira, saltando por cima dos escombros em chamas. Dois homens j estavam levantando, gritando de dor enquanto batiam em suas roupas queimadas, correndo 
atordoados. O terceiro permaneceu onde estava, meio soterrado pelos entulhos. E Jane foi at ele. Freneticamente tirando madeira queimada de suas costas, queimando 
as mos sem se importar.
   - Por favor, me ajudem! - gritou ela, e s ento vrios outros surgiram para terminar o trabalho e levantar o corpo imvel de Zach da lama e dos escombros. Eles 
o carregaram at a estrada e o deitaram no cho. Um deles se inclinou sobre Zach por um momento enquanto Jane se juntava a eles. Ento se endireitou, olhando para 
todos, lentamente balanando a cabea.
   -  intil. Ele est morto.
   
   
   Captulo 11
   
   - No! - gritou Jane, empurrando os homens que cercavam o corpo imvel de Zach. O cabelo estava grudado no rosto dela e pingando, a cala jeans tinha lama at 
os joelhos, a camiseta estava encharcada. Os tnis estavam cobertos de lama, e ela imaginou que, para a maioria deles, devia parecer uma louca. Mas no ligava.
   - Saiam do meu caminho! Deixem-me passar!
   - Sinto muito, senhora. Todos gostvamos dele, mas  intil. Ele se foi.
   Jane caiu de joelhos ao lado de Zach enquanto a chuva batia em suas costas e respingava nele, limpando a lama e a fuligem do rosto imvel, formando gotas e escorrendo 
pelos cantos dos olhos fechados. Ela pressionou os dedos contra a garganta dele, mas no sentiu pulsao. Abaixou o rosto at a altura da boca, mas no sentiu respirao. 
Depois deslizou a mo por baixo da nuca e o levantou um pouco, puxou o queixo com a outra mo. Prendeu a respirao, apertando o nariz, e cobriu a boca dele com 
a sua.
   - Deus do cu, mulher, voc no pode beijar um homem morto desse jeito.
   - Ele morreu, senhora.  melhor deix-lo.
   Ela levantou a cabea rapidamente, e depois soprou de novo. E de novo. Algum tocou o ombro dela para afast-la.
   - Deixem-na em paz! - disse uma voz de mulher. E Jane soube que era a mulher que viera com ela. A me de Benjamim E o tom de aflio na voz no deixaram dvidas 
na cabea de Jane. Ela ainda se importava com Zach.
   - No conseguem ver que ela est tentando ajud-lo? Jane ignorou todos e posicionou as mos no peito de Zach. Contando silenciosamente, pressionava uma, duas, 
trs vezes... Depois soprava na boca dele. Depois pressionava o peito de novo.
   - Tirem-na de perto dele! - gritou um homem. - O que est fazendo no  natural!
   Outra vez, mos tocaram seus ombros, puxando-a com fora desta vez. E mais uma vez, a voz de mulher, aquela que sabia pertencer  mulher que Zach amara, interferiu.
   - Tire as mos dela ou eu atiro.
   Surpresa, Jane se voltou e viu aquela linda mulher, com aparncia frgil, em p, na noite iluminada pelas chamas, com a chuva escorrendo pelo capuz de veludo, 
apontando uma pequena pistola para o homem que estava mais perto de Jane.
   - Todos vocs, afastem-se. Agora!
   Lentamente, os homens se afastaram, balanando a cabea.
   - Com certeza ela perdeu a cabea - disse um deles. - As duas perderam.
   Jane no deixou passar nem um segundo. Inclinou-se sobre Zach e continuou tentando ressuscit-lo. Pressionou o peito at seus braos clamarem por descanso, e 
depois mais ainda.
   - Por favor, Zach. Precisamos de voc, droga.
   Finalmente ela sentiu uma leve batida na mo que estava pressionando o corao dele. Abaixou a cabea at o peito de Zach e desabou em lgrimas de alvio.
   Zach soltou uma respirao grossa, ento outra, e tossiu. As mos levantaram, encontrando a cabea dela l, e os dedos dele enrolaram no cabelo dela e a puxaram 
para si.
   O grupo de espectadores congelou. Alguns se benzeram, outros blasfemaram, enquanto outros apenas se afastaram.
   - Jane - sussurrou Zach.
   Ela levantou a cabea para fitar os olhos dele. Ele passou a lngua pelos lbios e tentou engolir. Jane pegou o rosto dele em suas mos e o beijou gentil e lentamente. 
Suas lgrimas molhando os lbios dele.
   - Consegui - disse ele, rouco. - Peguei os comprimidos.
   - Nunca duvidei que conseguiria.
   - Vamos lev-lo de volta para a casa - disse algum, e pareceu que as palavras acordaram os outros do estado de confuso em que estavam.
   Jane se levantou, permitindo que erguessem Zach.
   - Coloque-o em minha charrete - ordenou Cludia, e os homens a obedeceram como se estivessem acostumados a isso.
   Jane os seguiu, subindo na charrete sem ser convidada. E Cludia entrou depois dela. Pegou as rdeas, as sacudiu e as rodas giraram. A charrete balanou pela 
estrada enlameada, produzindo sons e abrindo caminho de volta para a casa enquanto a chuva continuava caindo. Jane se sentou ao lado de Zach, segurando sua mo.
   Ela se perguntou o que fizera, como deixara isso acontecer. No se dera conta da verdade at se inclinar sobre ele, percebendo que podia morrer. Apaixonara-se 
por outro homem que a deixaria no final. Um homem que via as mulheres como quem v uma boa refeio. Algo que aproveitava enquanto podia e depois no pensava mais. 
Pelo menos essa era a maneira como ele via a maioria das mulheres. Com uma notvel exceo, pensou, olhando para Cludia. Jane baixara a guarda, de alguma forma, 
e deixara esse mulherengo sair do passado e entrar direto em seu corao.
   E ela sabia, sem dvida alguma, que quando ele voltasse para o passado, no deixaria nada, a no ser seu corao despedaado.
   
   Havia alguma coisa macia o acariciando como a um querido animal de estimao. Passava a mo pelo cabelo, pelo rosto. Lenta e hipnoticamente. Zach inalou, meio 
que esperando encher os pulmes com uma fumaa acre. Em vez disso, porm, inalou o perfume mais doce do paraso.
   O cheiro de Jane.
   Jane? Acariciando-o, dessa maneira?
   Com cuidado, Zach abriu os olhos, s um pouquinho. O suficiente para v-la sem que soubesse que ele ja estava acordado. E o que viu o surpreendeu. Ela estava 
sentada em uma cadeira ao lado dele... Ele aparentemente estava em sua prpria cama. E ela parecia to... doce. Vulnervel. Existia uma dor, um desejo, nos olhos 
dela, completamente revelado. Nenhuma mscara. No quando achava que ningum podia ver. Estava l, no rosto dela. E isso o tocou, pois nunca tinha visto com tanta 
clareza antes. Provavelmente porque ela mantinha isso muito bem escondido.
   Ternura. Zelo. Necessidade. E solido.
   Ele se virou para ela, tentando toc-la, se sentindo obrigado a fazer isso antes de conseguir pensar de novo. A reao de Jane foi se enrijecer e afastar-se. 
Uma mscara cobriu seu rosto em um piscar de olhos, escondendo aquela Jane preocupada e deprimida. Provavelmente, tentando se proteger. Meu Deus, por um momento, 
ela estivera olhando para ele como se...
   No. Era impossvel. Talvez estivesse tendo alucinaes.
   - Jane - murmurou ele, procurando o rosto dela mesmo enquanto ela o desviava e tentava enxugar as lgrimas sem que ele visse. Ele sorriu com o esforo dela. No 
imaginara isso. - Tarde demais, Jane - ele disse com voz rouca. - J vi que est chorando.
   - No estou chorando.
   - No. E voc tambm no estava aqui sentada, me fazendo carinho, estava?
   - Claro que no. Voc est delirando. - Ela levantou da cadeira, os movimentos rpidos, como se fossem espasmos, e serviu um copo d'gua. - Tome. Deve estar com 
sede.
   - Obrigado, Jane. - Ele pegou o copo, bebeu e os dois se encararam. Os olhos dela fixos na garganta dele enquanto engolia a gua. Quando terminou, colocou o copo 
na mesinha-de-cabeceira. Distraidamente, ele passou a lngua pelos lbios, e depois congelou quando os olhos dela se arregalaram. Ela desviou o olhar assim que sentiu 
o rosto corando.
   Ele olhou dela para a janela, e ficou surpreso quando no viu gotas na vidraa. Apenas uma completa escurido.
   - Que horas so?
   - No sei. Mas j passa bastante da meia-noite. - Ela observou a confuso no rosto dele e continuou. - Voc ficou inconsciente por algumas horas, Zach. Acho que 
foi uma combinao dos efeitos colaterais e da fumaa do incndio,
   - Dormi tanto tempo assim? Sorrindo, ela assentiu.
   - E como esto os meninos?
   - Cody est bem. Apenas cansado. Arrumei uma cama para ele no quarto de Benjamin. Ele no quer deix-lo.
   - Que menino especial voc tem. - Ento franziu a testa e engoliu em seco. - E Benjamin? Como est meu filho?
   - Do mesmo jeito. Dei a ele outra dose de triptonina, mas ainda  cedo para ver uma melhora real. Amanh, ele comear a se sentir melhor.
   Zach abriu um sorriso, incapaz de se conter.
   - Tudo vai dar certo... Voc vai ver.
   Ela pareceu estar em dvida, mas Zach no conseguia se livrar do otimismo que o dominava. Seu filho ficaria bem, mas Jane dava sinais de preocupao. E isso, 
por alguma razo, fazia com que se sentisse quase leviano.
   - E onde esto todos? - perguntou ele.
   - Dormindo,  claro.
   -  claro - repetiu ele. - Dormindo. Todos menos voc, que est de viglia ao lado da minha cama, devotada como uma mulher perdidamente apaixonada.
   - No seja estpido, Bolton.
   - No seja cabea-dura. Pelo menos, admita a verdade. Por que  to difcil para voc dizer isso? Voc gosta de mim. E me quer. Tanto quanto eu a quero. Voc 
no parou de pensar em como foi... Em como poderia ser se ns...
   Ela levantou o olhar, que se prendeu ao dele.
   - Diferente de algumas formas inferiores de vida, no ajo de acordo com desejos fsicos.
   Ele sorriu para ela, e se sentou na cama.
   - Voc... Chamaria isto de desejo? Voc me deseja, Jane?
   - V para o inferno, Zach. - Ela girou para fugir, mas ele a segurou pelo pulso e fez com que ela o encarasse. Depois a puxou para mais perto, at que as coxas 
encostassem no colcho, e ento continuou puxando, at que ela no tivesse outra alternativa seno se sentar na beira da cama.
   Ele a fitou, desejando entender por que ela negava seus sentimentos com tanta veemncia.
   - Voc me odeia, Jane? - murmurou ele.
   -  claro que no.
   No conseguiria, porm, distinguir isso pelo tom da voz ou pelo olhar dela. Ele abaixou a cabea e comeou a tossir. Tossiu at dobrar-se, at cair sobre os travesseiros 
de exausto. At que sua pele estivesse coberta por uma camada de suor e seus pulmes queimassem.
   E ela estava l, inclinada sobre ele, enxugando a sua testa e seu pescoo com um pano, passando os dedos pelo seu cabelo.
   - Calma. Vai passar.
   Fraco, ele olhou para ela. Agora parecia que ela se importava de novo. Um segundo atrs olhava para ele como se fosse um assassino. Agora os olhos estavam arregalados 
de preocupao, e o toque era to delicado quanto o de uma amante.
   - No entendo voc - ele se esforou para sussurrar.
   - E quem disse que voc precisa me entender? Droga, Zach, voc est bem?
   Ele fechou os olhos e assentiu.
   - No acredito em voc. Passou duas vezes pelo maldito portal e depois quase morreu no incndio. Quanto mais voc acha que consegue suportar?
   Ele levantou a mo e a trouxe pela nuca para mais perto. Gentilmente, a beijou nos lbios e, quando sentiu que ela no o rejeitaria, fechou os olhos.
   - Venha para a cama comigo, Jane, e descobriremos - sussurrou ele, e ento apertou seus lbios sobre os dela mais uma vez.
   Desta vez, ela se afastou to rpido que quase o jogou para fora da cama. Os olhos arregalados o fuzilaram com raiva.
   - Maldito Zachariah!
   - O qu? - Ele piscou completamente confuso. Afinal de contas, qual era o problema?
   - Eu no sou uma das suas aventuras de uma noite! O que aconteceu entre ns... - Ela enrolou o pano na mo e jogou nele. - No foi apenas sexo, pelo menos no 
para mim. Ento pare de me tratar como uma de suas prostitutas. Apesar de no querer, voc significou muito para mim. E agora me vejo em uma posio que prometi 
nunca mais estar.
   - Significou muito para mim tambm, Jane. E de que posio voc est falando, que jurou nunca mais estar?
   - Com o corao partido. - Ela se afastou lentamente, deixando Zach se questionando o que fizera de errado. Ela no sabia o que ele sentia por ela? Como tocou 
seu corao de um modo que nenhuma mulher jamais conseguira? No deixara isso claro? Nunca desejara uma mulher como a desejava. Nunca... Nunca sentira por outra 
mulher o que sentia por ela. No, ele percebeu com uma clareza recm-descoberta, nem mesmo Cludia.
   Mas Jane no era uma mulher qualquer. Na verdade, estava bem longe disso.
   Piscou enquanto pensava nos sentimentos incomuns que tinha por ela, que aparentemente ela no percebia, e ento congelou, chocado. Pelo amor de Deus, ser que 
se apaixonara por ela?
   Bem, parecia que s havia uma maneira de descobrir. Teria simplesmente de analisar seus prprios sentimentos, como se estivesse analisando um de seus experimentos. 
Por enquanto, contudo, era o suficiente. Ele no merecia que ela estivesse to zangada. E no queria que ela vivesse com o corao partido. Conversaria com ela. 
Ela sentaria e explicaria para ele exatamente o que estava sentindo, e faria isso agora. Ele levantou da cama, equilibrou-se e foi em direo  porta. Talvez pudesse 
pedir para que ela ficasse, afinal de contas... Talvez...
   
   Jane fechou a porta do quarto de Zach e foi ao encontro de Cludia. A mulher era a prpria imagem da elegncia em seu vestido de gola alta e laos e os sapatos 
aparecendo sob os babados do vestido. Os cachos louros emolduravam o rosto delicado. Jane sentia-se uma relaxada vestindo seu jeans imundo e camiseta.
   Cludia olhou para ela e depois pela porta que acabara de atravessar. Ento mais uma vez para ela, as sobrancelhas levantadas desta vez.
   - Bem - perguntou ela, sem nem mesmo tentar esconder o que queria dizer. - Como ele est?
   - Achei que voc fosse especialista nisso, Cludia.
   - Voc  uma mulher muito estranha. Sinceridade no discurso, extica nos costumes. E suas roupas...
   - Algum problema com as minhas roupas?
   - Claro que no. No sou eu quem tem de vesti-las. Jane lhe lanou um olhar penetrante.
   - Ah,  claro que podemos ser amigas. - instigou Cludia. - Na verdade, acho que posso lhe fazer um favor, se voc permitir.
   -  mesmo? E o que seria? Vai me ensinar a respirar com minha cintura apertada por um espartilho para impressionar um homem? Desculpe, mas no estou interessada.
   Cludia sorriu perplexa, mas balanou a cabea e continuou com a conversa.
   - Posso preveni-la sobre Zachariah. No se apaixone por ele, Jane. Ele nunca vai gostar de nenhuma mulher como gosta de mim. Se tem esperanas de conquistar o 
corao dele, s vai se decepcionar. Ele nunca vai desistir de mim para ficar com voc.
   - Nunca pediria isso a ele.
   - Ele no consegue amar nenhuma mulher como me ama. E voc j descobriu a razo, sou a me de Benjamin.
   - Voc est certa. E pelo que posso perceber, voc est contando com isso, no ?
   Cludia desviou o olhar.
   - Qual  o problema, Cludia? A verdade machuca? Afinal de contas, o que est fazendo aqui? Quer o menino de volta?  isso? Acha que pode abandon-lo, partir 
seu corao, renegar seu prprio filho e depois simplesmente voltar, querendo tudo de volta, s porque est enfrentando um momento difcil?
   - Sim! - exclamou ela. -  exatamente isso que quero. Agora que meu marido morreu, no h nada para me impedir. Preciso de um marido para me sustentar, Jane. 
E no vou deixar uma coisinha esquisita como voc me atrapalhar.
   - Ok - sussurrou Jane. - Se ele for burro o suficiente para cometer o mesmo erro duas vezes, ento merece voc. Mas eu no acho que ele seja. - Ela apontou para 
a porta do quarto de Zach. - Esteja  vontade, Cludia. - E com isso, Jane saiu e caminhou pelo corredor, para o quarto que fora destinado a ela. No caminho, abriu 
a porta do quarto de Benjamin para ver se os meninos estavam bem. Cody estava na cama que ela improvisara. Ambos dormiam profundamente, mas ela no gostou do chiado 
na respirao de Ben. Droga, ele j deveria estar melhorando, pelo menos um pouco.
   Talvez pela manh ele estivesse melhor. Fechou a porta e ouviu a de Zach se abrir. Ouviu passos suaves entrando e depois a porta fechando novamente. Seu corao 
ficou apertado.
   Levantando o queixo, Jane foi para seu quarto. Contudo, deixou a porta aberta, e tentou se convencer de que no queria ver quando a vagabunda sairia do quarto
de Zach. E se sairia.
   Mais tarde, desejou que no tivesse feito isso. Porque depois de tomar banho, vestir uma camisola emprestada e pentear o cabelo, Cludia ainda no tinha sado.
E ento Jane passou o resto da noite acordada, virando de um lado para o outro sem conseguir dormir. J estava amanhecendo e Cludia no sara. Passara a noite onde
Jane gostaria de ter passado. Nos braos de Zachariah.
   Jane quis arrancar os olhos da bruxa.

   Ela disse que fora uma tola. Tentou explicar os motivos que tivera para fazer o que fez com ele e com Benjamin. Zach no queria ouvir nenhum deles. Tudo que queria
era abraar Jane e ouvir suas explicaes. Mas Cludia era insistente e Zach estava fraco. Ento escutou as desculpas e justificativas dela. E depois a oferta inacreditavelmente
generosa de ser esposa dele e me de Benjamin agora que o marido rico morrera.
   Zach olhou para ela, levantou uma sobrancelha e simplesmente disse:
   - No.
   - O qu?
   - No, Cludia. No sei como ser mais claro do que isso. No quero voc. Nem meu filho quer. Acho intrigante como voc, que no me quis quando eu era pobre e
sem projeo social, agora que sou rico e respeitado e voc uma viva sem um vintm, de repente desenvolva sentimentos ternos por mim. E por Benjamin, mesmo sabendo
h meses que ele estava morrendo. Voc poderia ter passado um pouco de tempo com ele, se quisesse. Mas no quis. Agora que ele tem apenas um ou dois dias de vida,
voc aparece. No. No estou interessado. Agora, por favor, saia do meu quarto.
   -  ela, no ? Aquela mulher esquisita que voc trouxe sabe Deus de onde!  ela. Sei que . Est apaixonado por ela, no est?
   - No seja ridcula - disse ele. Todo esse tempo, estivera avaliando os sentimentos de Jane por ele. Deus, talvez devesse avaliar seus sentimentos por ela.
   -  verdade - lamentou Cludia. - Posso ver nos seus olhos quando olha para ela. E  ainda mais claro nos dela. O modo como ela olha para voc quando acha que
ningum est vendo. O modo como ela lhe tocou quando estava sentada aqui, as coisas que sussurrou. At a voz dela muda quando fala com voc. Ela est apaixonada!
   Zach continuava deitado, parado, olhando pensativo para o teto.
   - Que teoria interessante - murmurou ele e fechou os olhos.
   No tinha a inteno de adormecer, mas foi o que fez. Com um sorriso estpido nos lbios e uma sensao de vazio no peito. E quando acordou, ficou espantado de
ver que Cludia ainda estava ali. Andando de um lado para o outro, olhando pela janela, como se estivesse esperando amanhecer.
   - Que droga, o que ainda est fazendo aqui?
   - Saindo - disse ela simplesmente. Abriu a porta, foi para o corredor e depois, por alguma razo que ele no saberia explicar, ela lhe soprou um beijo e disse:
- Eu tambm amo voc, querido. Adeus, por enquanto.
   Ela saiu, mas no fechou a porta.
   Franzindo a testa sem entender nada, Zach se levantou para sair. Mas congelou ao ver, apenas duas portas adiante, Jane parada. E a dor que viu nos olhos dela
era quase maior do que podia suportar.
   Ele abriu a boca, mas ela falou primeiro.
   - Estou contente por estar de p. Seu filho tem o remdio e voc est bem,  claro. Acho que est na hora de Cody e eu voltarmos para... casa.
   - Mas...
   - Dez minutos - disse ela, e as palavras caram como pedras desabando de um penhasco. - Encontro voc no escritrio.


   Captulo 12

   Zach sentiu como se ela o tivesse estapeado quando fechou a porta do quarto na sua cara. Imediatamente ele agarrou a maaneta, abrindo a porta e entrando no quarto.
Ela ficou parada de costas para ele, perto da janela. Ele ficou animado, pois pelo menos ela no havia trancado a porta. Mas depois disse para si mesmo que isso
no significava nada.
   - Voc no pode ir embora, Jane. Ainda no. - Ele fechou os olhos e se parabenizou pelo argumento mais estpido que j usara. - O que quero dizer  que ainda
 cedo. No sabemos o que... - Piscando, ele estudou as costas dela, o tremor quase imperceptvel. O som suave, quase inaudvel da respirao. Ele engoliu em seco
e se aproximou dela.
   - Saia, Zach - disse ela, com a voz profunda, mas suave.
   Ele no saiu. Chegou mais perto, colocou a mo no ombro dela e tentou vir-la. Mas ela se recusou a virar. Ento ele usou mais fora. E conseguiu. Tudo o que
pde fazer foi encarar o rosto mido dela, chocado.
   - Voc est chorando - disse ele, ainda surpreso. - No posso acreditar. Voc est...
   - Pedi para voc sair.
   - No posso sair. - Ele balanou a cabea, continuando sua busca pelo lindo rosto, pelos olhos brilhantes. Deus, estava cego todo esse tempo? Poderia ser verdade
o que Cludia dissera? No podia acreditar. No podia estar chorando por causa dele, ou pelo que acabara de ver. No podia gostar tanto dele, podia? -  o Cody?
 por isso que est preocupada, Jane? Est com saudade de casa? - Tocou o rosto dela, levantando seu rosto para que pudesse ver melhor. E quando conseguiu, ela fechou
os olhos.
   - Meu Deus - murmurou ele, dando um passo para trs. - Tudo isso por causa de Cludia?  isso, no ? - Ela encontrou os olhos dele e desviou os seus; e ele deu
mais um passo para trs. Parecia inevitvel. Era como se ela o tivesse empurrado. A idia de que ela poderia... realmente... am-lo... Francamente, isso o assustava.
   Ela estreitou os olhos e balanou a cabea lentamente.
   - E se fosse? No faria diferena, faria? S pensar nisso j o assusta, como... No precisa entrar em pnico, Bolton.  verdade, eu me apaixonei pelo Don Juan.
Voc me levou para a cama. Droga, voc at me fez acreditar que poderia... - Levantando o queixo, ela umedeceu os lbios. - No se preocupe. Vou pegar meu filho
e vamos embora.
   - Mas eu... - Ele deixou o protesto no ar, incapaz de encontrar as palavras, sem nem mesmo ter certeza do que queria dizer.
   - Viu? Voc nem consegue dizer que no quer que eu v.
   - Droga, Jane. Por que est com tanta raiva de mim?
   - Estou com raiva de mim mesma - murmurou ela, dando as costas para ele, puxando o jeans e a camiseta recm lavados da cadeira. - Poxa, no devia estar. Devia
lhe dar os parabns e lhe desejar tudo de bom.  o final de um conto de fadas, no ? Voc, Benjamn e a me dele finalmente juntos. Uma famlia de verdade.  uma
histria perfeita.
   - Deus, Jane, voc acha que s porque ela passou a noite no meu quarto eu pretendo...
   - No me venha com essa histria de apenas por uma noite. No agora.  diferente quando voc est apaixonado pela mulher.
   - Talvez voc tenha razo sobre isso.
   - E ns dois sabemos que s existe uma mulher que voc amar para sempre, no sabemos?
   - Sabemos. Mas estou apenas comeando a perceber isso.
   Ele pde ouvir quando ela engoliu em seco, ver quando piscou e virou-se de novo. Meu Deus, essa mulher realmente gostava dele. No era capaz de entender, mas
a verdade era clara.
   - Desejo-lhe o melhor - disse ela. - Espero que vocs sejam...
   - Jane - disse ele gentilmente, dando um passo para frente, encostando-se ao queixo dela a ponta do indicador e se perdendo nos olhos dela. - Ns vamos resolver
isso. No sei como, mas encontraremos um jeito. Mas primeiro, voc tem de saber que nada...
   - Me! Zach! Venham rpido!
   Zach congelou, surpreso, depois foi para aporta, onde Cody estava de pijamas, sem flego e com os olhos arregalados.
   - O que...
   -  o Ben! Rpido!
   O corpo de Zach ficou rgido e completamente imvel.
   - No - murmurou ele. - Por favor, no agora... Jane passou por ele, mas virou-se quando percebeu que no a estava seguindo. A raiva que estivera nos olhos dela
sumira completamente. Agora s havia compaixo. Sabia o que ele estava sentindo e, merecendo ele ou no, ela se importava. Apesar de realmente acreditar que ele
passara a noite nos braos de Cludia, ainda sentia compaixo.
   - Pare com isso! - disse ela. E como ele continuou imvel, ela se aproximou e o sacudiu de leve. - Pare de pensar no pior. Seu filho precisa de voc.
   Ele percebeu a fora na entonao dela, o brilho de paixo nos olhos. Endireitou a coluna, assentiu uma vez. Jane virou de novo, mas desta vez pegou a mo dele
e o puxou consigo.
   O medo do que encontraria quando entrasse no quarto corroia seu estmago. E sabia que se no fosse pelo calor da pequena mo trmula segurando a sua, nunca seria
capaz de colocar um p na frente do outro, de andar pelo corredor, de passar pela soleira e abrir a porta. Com esforo, pousou o olhar no filho. E ento seus msculos
se aliviaram da tenso. Benjamin no estava morto. Estava deitado, dormindo tranqilamente. Zach nunca o vira dormir assim. O pequeno peito levantava e abaixava
com ritmo.
   Suspirando aliviado, Zach foi at a cabeceira da cama e pegou a mo de Benjamin. Fechou os olhos e mergulhou na cadeira ao lado da cama, beijando aquela minscula
mo, lutando contra lgrimas.
   - Cody, voc quase nos matou de susto - Jane falou. - Em que estava pensando quando disse...
   - No consigo acord-lo, me.
   Exatamente assim. Trs palavras, cada uma atingindo Zach no peito como uma bala. O maxilar se contraiu e ele procurou o olhar de Jane.
   Os olhos azuis arregalados de choque e medo.
   - No entendo - murmurou ela. - Era para os comprimidos...
   - Ele no deixou de tomar nenhuma dose, me. Tenho certeza disso. Ele deveria estar melhorando, no...
   - Benjamin. - Zach se inclinou, pegando os ombros do menino. - Benjamin, acorde. Acorde, filho.
   No houve resposta. Zach percebeu vagamente que Cody ia para o outro lado da cama, pegando a outra mo de Benjamin, e que Jane andava pelo quarto, o som de comprimidos
chocalhando enquanto ela os derramava do pote.
   E ento ela disse:
   - Cody, feche a porta.
   Zach olhou para ela, Cody estranhou, mas obedeceu. Depois se virou para Jane.
   - Hoje  o dia em que ele entra em coma. Mas pensei que com os comprimidos, ele pudesse...
   Ela segurou uma cpsula, cada extremidade na ponta dos dedos de uma das mos. E enquanto ele olhava, ela girou e puxou, at que ela se abrisse. Jane virou as
partes, olhou dentro, sacudiu.
   - No h nada dentro. Voc trouxe para o passado uma droga que ainda no foi inventada. Simplesmente... no existe nesta poca.
   Zach sentiu seu estmago dando um n, e uma sensao de pavor lentamente tomou conta de cada clula de seu corpo.
   - Meu Deus, Jane, voc estava certa. - E ento seu olhar desviou para Cody. - Droga, o que eu fiz? E se o fato de eu ter voltado no tempo alterou a histria como
voc temia? Talvez agora que voltei, a cura nunca seja descoberta. - Colocando a mo de seu filho na cama, Zach se aproximou de Cody, procurando seu rosto, o corao
cheio de medo. - Como voc est, filho? Sentindo alguma coisa? Febre? - Pressionou a mo na testa de Cody e ouviu a respirao cheia de dor de Jane quando ela percebeu
o que ele suspeitava.
   - S um pouco cansado - disse Cody. -  com Ben que temos de nos preocupar. Por que ele no acorda?
   - A sua garganta est dolorida?
   - Est. De toda aquela fumaa ontem.
   Os olhos de Zach encontraram os de Jane. E ele sabia que ambos estavam rezando para que fosse s a fumaa e no algo muito mais fatal.
   Jane se aproximou do filho, passou o brao em volta dele e, sutilmente, deslizou a mo pela testa dele. Sentiu a temperatura alta, assim como Zach sentira. Ele
viu isso nos olhos dela, viu a agonia, o medo.
   - Temos de voltar para nossa poca, Zach - disse Jane, enquanto se ajoelhava e abraava o filho. - Temos de voltar. E se voc quiser salvar seu filho, tem de
vir conosco. Traga-o junto.
   - E se eu estiver certo? Se alterei o curso da histria, e meus estimados colegas no encontrarem a cura no final das contas? Se voltarmos para sua poca e descobrirmos
que a droga milagrosa chamada triptonina no existe?
   Jane piscou ao sentir as lgrimas encherem seus olhos s de pensar na possibilidade de perder seu filho.
   - Bausch e Waterson descobrem a cura porque acreditam que seu filho morreu, e que voc, o amigo deles, um cientista brilhante, enlouqueceu de desgosto.  isso
que os impulsiona.
   Zach olhou para Benjamin atravs das lgrimas.
   - Ele entrou em coma agora. No falta muito para que as outras coisas aconteam.
   - Voc tem de faz-los acreditar que j aconteceu.
   Ele virou a cabea bruscamente.
   -  o nico jeito, Zach. Tem de convenc-los de que Benjamin... se foi. Deixe que eles vejam sua dor. E ento, desaparea, para que nunca mais o vejam nem escutem
falar de voc. Tudo tem de acontecer exatamente como deveria, exatamente como est registrado naqueles livros que li. No percebe?
   - Voc tem razo. Deve... funcionar.
   - Voc no poder voltar para c, Zach. Nunca mais. Ter de abandonar seu trabalho, sua vida, seus amigos. E... Cludia
   As sobrancelhas dele se juntaram rapidamente enquanto buscava uma resposta no rosto dela. E ento lembrou que ela chegara  concluso de que a egosta Cludia
era o amor da vida dele. Devia ach-lo um completo idiota.
   - Voc acredita que trocaria a vida de meu filho pela minha prpria felicidade? Mesmo se eu gostasse...
   - Teremos de ser muito cuidadosos - disse ela, e ele no teve dvidas de que a interrupo era premeditada. - Planejar cada passo. - Ela lanou um olhar de preocupao
para Ben, e para Cody, que voltara para cama e estava sussurrando para o menino em coma, acariciando sua cabea. - E temos de nos apressar.
   Jane foi para o corredor e fechou a porta do quarto de Benjamin atrs de si assim que a Sra. Haversham e o mdico entraram na casa apressados. Ela ouviu Zach
trancar a porta. J explicara a Cody que deveria ficar no escritrio de Zach, no final do corredor. Ningum sabia que ele estava l.
   Ben estava piorando a cada minuto, e no tinham tempo a perder.
   Respirando fundo, ela encontrou um par de olhos e depois outro.
   - Benjamin... se foi - disse ela. A Sra. Haversham se benzeu.
   - Ele parou de sofrer - disse ela com bondade. - Est em paz agora, doce menino.
   - E Zach? - perguntou o mdico.
   Jane abaixou os olhos e sacudiu a cabea.
   - Nada bem, doutor. Ele se trancou no quarto do menino e diz que no vai deixar ningum lev-lo.
   - Meu Deus! - exclamou a empregada.
   - Eu acho que - acrescentou Jane, sentindo-se culpada, mas sabendo que estava fazendo isso para salvar a vida do menino - se o deixarmos um tempo sozinho, para
que reflita...
   - Concordo. - assentia Dr. Baker enquanto falava. - Vamos descer e deix-lo sozinho com o menino por um tempo.
   Jane limpou a garganta.
   - Onde est Cludia? Acho que ela precisa saber. Sra. Haversham fungou.
   - Saiu antes que todos se levantassem esta manh. Eu a vi por apenas um instante, e ela disse que estaria fora em uma viagem  Europa e que dissesse adeus para
todos. Um homem bonito a pegou em uma carruagem.
   Jane piscou, chocada. Cludia encontrara um peixe maior?
   - Mas ela sabia... - Estava alm da capacidade de compreenso de Jane como uma mulher podia viajar enquanto seu prprio filho estava morrendo. Mas era bvio que
os interesses de Cludia eram no pai, e no no filho.  possvel que Zach passe o resto da vida ligado a ela, sem saber que escapara por um triz.
   Ela deu o brao para o mdico e o acompanhou at o trreo, sabendo que Zach precisava de mais tempo para concluir o que precisava ser feito. Ningum mais estava
l em cima. Apenas Zach, Benjamin e Cody. Jane tinha de distra-los. Ento serviu ch, fazendo bastante barulho. E uma hora mais tarde, quando o jardineiro voltou
com Waterson e Bausch, todos insistiram que era hora de voltar para cima. Eli e Wilhelm conseguiriam trazer alguma razo para Zachariah, todos concordavam. Jane
tinha esperana de que tudo j estivesse pronto. O mdico bateu na porta do quarto.
   - Zachariah.  Aaron Baker. Est na hora de abrir a porta.
   Obviamente, no houve resposta.
   - Estou com seus amigos. Eli e Wilhelm. Eles querem falar com voc.
   - Isso, Zach, por favor, deixe-nos entrar - chamou Eli. O mdico tentou a maaneta e viu que estava trancada.
   Como planejado. Ele girou, empurrou a porta e conseguiu abri-la, entrou... E ento congelou. A Sra. Haversham gritou. A cama estava vazia, as cobertas jogadas
no cho, os lenis amarrotados. Uma brisa balanava as cortinas da janela aberta. O mdico se apressou para abri-las e, ento, todos viram a corda pendurada no
peitoril.
   - Meu Deus! - gritou o mdico. Inclinou-se na janela, olhou para o horizonte, mas,  claro, no viu nem sinal de Zach.
   - Pelo amor de Deus, ele levou Benjamin embora! - exclamou a Sra. Haversham.
   - Olhe - disse Jane. - Ele deixou um bilhete. Waterson espreitou o papel na cama, o pegou e leu, balanando a cabea.
   - Pobre Zachariah. Enlouqueceu com o desgosto. Diz que levou o menino para o deserto onde ningum pode ir atrs dele.
   - Deus tenha misericrdia, Zachariah perdeu a cabea - disse a Sra. Haversham, mergulhando na cama com os braos em volta do prprio corpo.
   - J tinha visto isso antes - disse Bausch. - Mas nunca em um homem to inteligente quanto Bolton.
   - Senhores, deveramos formar um grupo de busca. Com certeza conseguiremos encontrar Zach e Benjamin e traz-los para casa...
   - Sim,  claro - concordou o mdico. - Providenciarei isso agora mesmo.
   - Talvez o senhor deva dar um calmante ou algo parecido para Sra. Haversham - sugeriu Jane, falando baixo. - Ela est muito perturbada.
   O mdico assentiu.
   - Onde est o seu filho? J foi avisado?
   - Ainda est dormindo. No quis acord-lo com essa notcia terrvel, mas acho que terei de fazer isso agora. E... Bem, vou ficar com a Sra. Haversham at que
adormea, mas depois gostaria de levar meu filho para casa. Ele vai ficar profundamente triste com isso.
   - Certamente  melhor - disse o mdico. Foi at a cama, pegou o brao da Sra. Haversham. - Venha comigo, querida. - Jane respirou fundo, cruzou os dedos e rezou.
Isso daria certo.
   Por favor, Deus, faa com que d certo.
   - Vamos acompanh-lo, Dr. Baker - disse Bausch, seguindo pelo corredor e descendo as escadas. - Se o encontrarmos, conseguiremos tirar Zachariah dessa. Quanto
antes comearmos a busca, melhor.

   Zach embalava Benjamin, enrolado em um cobertor, quase morto. To pequeno, to magro. A doena lhe destrura o corpo at que restasse pouco entre a pele e os
ossos. Seu rosto plido estava parado e quieto. Branco como um fantasma, a no ser pelos crculos arroxeados em volta dos olhos. Cody estava sentado perto, firme
e quieto. Ele estava tentando, corajosamente, se comportar como achava que um homem deveria se comportar. E fazendo um trabalho melhor em seus dez anos do que Zach
com trinta e dois.
   Houve uma batida na porta do escritrio que fez Zach levantar a cabea. Ficou sentado, em silncio, e sinalizou com a mo para Cody fazer o mesmo. Nem precisava.
O menino conhecia o plano to bem quanto ele. Depois de uma breve pausa, mais duas batidas. Zach assentiu para Cody, e o menino cruzou o quarto e destrancou a porta.
   Jane entrou, parecendo cansada. Mentir sobre a morte de uma criana provavelmente no tinha sido fcil. Ela era muito honesta. Irracionalmente at, s vezes.
   E forte, ele refletia enquanto ela entrava e fechava a porta. Forte, quando ele precisava tanto de fora. Nunca esperara encontrar uma fortaleza em um pequeno
corpo de mulher. A aparncia podia enganar.
   - Est feito - disse ela.
   - Estamos sozinhos?
   - O doutor foi para a cidade formar um grupo de busca. Bausch e Waterson foram junto. Fiz com que ele desse um sedativo para a Sra. Haversham, e ela parece estar
dormindo.
   - timo. Vamos terminar com isso antes que algum aparea. - Ele se levantou, com o filho nos braos, e todos foram para o quarto de Benjamin. Jane passou um
brao em volta de Cody e fechou a porta.
   Zach no perdeu tempo. Deitou Benjamin na cama. Ento tirou a caixa preta do bolso, apontou para o centro do quarto.
   - Esto prontos?
   Jane fez que sim com firmeza.
   - A pergunta deveria ser: voc est pronto, Zach? Est abrindo mo de muita coisa.
   Ele lanou um olhar mal-humorado para ela e apertou o boto. Imediatamente a fasca de luz apareceu no centro do quarto. Zach girou o mostrador lentamente, e
a luz ficou maior e mais brilhante. Uma nvoa prateada rodopiava como uma tempestade ali dentro, ento gradualmente clareou at a esfera brilhar como um espelho,
refletindo o quarto atrs deles... cem anos no futuro.
   - Voc vai se sentir mal de novo, Zach.
   - Mas meu filho ficar bom - disse ele. Guardou o aparelho no bolso, e ento pegou Benjamin nos braos. - Jane? - Passando Benjamin para um lado, ele pegou a
mo de Jane. Ela segurou, puxando Cody para perto de si.
   Zach entrou no portal, e o impacto desta vez pareceu mais o de um caminho do que o de um poste.


   Captulo 13

   Ao tentar ficar de p, Jane lutou contra a tontura e a nusea. Agarrou o p da cama de Cody para evitar cair de joelhos, e ento parou e piscou. A cama de Cody.
A mesa, o computador e a pilha de livros.
   Virou rapidamente e viu Cody se levantando e parecendo um pouco atordoado. E ento viu Zach, imvel, os braos envolvendo Benjamin, que no se mexia. Cambaleando,
foi at eles e se ajoelhou.
   - Zach, voc est bem?
   Ele piscou quando ela tocou em seu rosto. Os lbios se moveram mudos. Gentilmente, ela soltou os braos dele e pegou Benjamin. Escutou a respirao lenta e difcil
enquanto o carregava at a cama de Cody e o deitava l.
   - Ele tem de ir para o hospital, me. Ela concordou, virando-se para Cody.
   - Voc est certo, filho. E voc, est bem?
   - Essa viagem no tempo acaba com qualquer um, mas estou bem. - Ele franziu a testa, parecendo mais velho. - Mas voc no parece to bem.
   Ela negou com a mo.
   - E a dor de garganta?
   Cody balanou a cabea e passou a ponta dos dedos no gog.
   -  estranho.
   - O qu, querido? - Jane poderia jurar que cada clula de seu corpo congelou enquanto esperava uma resposta.
   - Passou.
   - Passou - sussurrou ela, fechando os olhos. O alvio a deixou mole, enquanto rezava para que isso significasse o que ela achava. Colocou a mo na testa e depois
no rosto de Cody, mas ele no tinha mais febre, apesar de ter tido h poucos segundos. Por favor, pensou ela, permita que fique tudo bem.
   - Me,  melhor nos apressarmos. Quer que eu chame uma ambulncia?
   - Ah, sim, acho melhor.
   Cody saiu correndo do quarto, e ela o escutou descendo at o nico telefone da casa. Jane se inclinou sobre Benjamin.
   - Agente um pouco mais, menino. Vamos cuidar de voc. Juro.
   - Jane?
   Ela se voltou para o som fatigado da voz de Zach. Ele conseguira se sentar, a mo pressionada contra a testa, os olhos apertados. Chegou perto dele e ajoelhou.
   - Est tudo bem. Conseguimos reverter, e h uma ambulncia a caminho.
   Ele levantou a cabea, procurando os olhos dela.
   - Benjamin?
   - Est agentando firme.
   Ele colocou a mo no rosto dela e fitou seus olhos.
   - E voc, Jane? Como est?
   Meu corao est partido, seu idiota.
   - Estou bem.
   Mas no estava. At agora, resistira ao sentimento por Zach, porque sabia que no final ele a deixaria para voltar para a poca dele, um sculo antes. Agora ele
estava aqui para ficar. Mas o corao dele ainda estava l, com uma mulher que no valia nem um olhar de um homem como ele. Fora uma boba, mas no pde evitar: se
apaixonara por um estpido.
   - Ento... - O polegar dele passou pelo rosto dela. - Por que tem lgrimas nos olhos?
   Ela tentou esconder as lgrimas.
   - Quando a ambulncia chegar, voc ter de ir para o hospital tambm.
   - Eu vou, mas no como paciente. Preciso estar com meu filho.
   - E se voc tiver outro lapso de memria, como da outra vez?
   - Voc vai estar comigo... No vai? - Os olhos dele sondaram os dela to profundamente que ela os sentiu em sua alma.
   -  claro que estarei. Ele sorriu, fraco.
   - timo. Se minha memria falhar de novo, voc pode contornar a situao. No tenho dvidas.
   - Esta sou eu - sussurrou ela. - A segura e confivel Jane.
   - O que isso quer dizer?
   - Nada. Nada mesmo.
   Jane estava vendo as coisas com mais clareza quando a ambulncia chegou. Ela e Cody seguiram de carro. Zach subiu na traseira da ambulncia para acompanhar o
filho, respondendo s perguntas do sujeito que foi atrs com eles.
   - Algum histrico de alergias?
   - Hum... no. Mas ele nunca foi exposto s drogas modernas. - O homem olhou para ele, estranhando. - Moramos em uma rea remota, na... ndia. - Ele rezava para
que ainda houvesse reas remotas l.
   - Sei. E as vacinas dele esto em dia?
   - Provavelmente no - confessou Zach, e ele estremeceu quando uma agulha com um tubo de borracha foi introduzida no brao do filho. - O que  aquilo?
   - Apenas soro. Comeamos com a intravenosa agora, e ser mais fcil administrar quaisquer remdios que ele precise no hospital.
   Zach analisou o tubo e a bolsa cheia de lquido. Estava escrito Lactato de Ringer.
   - Engenhoso.
   - E o que faz o senhor pensar que  febre quinaria?
   Zach piscou, esperando que estivesse dando as respostas certas. Como precisava de Jane agora. Mais uma vez se sentiu daquela maneira como sempre se sentia quando
estava longe dela. No precisava dela agora, mas sempre.
   - Ele foi exposto. Houve um surto no povoado onde estvamos.
   - Droga. Achei que essa doena j tivesse sido erradicada.
   - Ento... Existe uma cura?
   O homem mais novo olhou para Zach como se este fosse doido.
   - Senhor, deve ter sido um povoado isolado. J existe a cura h quase cem anos. No sei como pode ter passado um dia em Rockwell e no saber disso.  o nico
motivo de fama de nossa cidade.
   Continuou falando enquanto cuidava de Benjamin e, Zach escutava a histria de Zachariah Bolton, o cientista brilhante que enlouquecera com a dor da morte do filho.
E de seus dois colegas, que juntaram as foras para desenvolver a cura em homenagem ao amigo perdido.
   Zach no conseguia evitar as lgrimas de alvio que escorriam enquanto ouvia a histria, igual a que Jane lhe contara h alguns dias. E o mdico s estranhou
quando fechou os olhos e sussurrou:
   - Deu certo, Jane. Conseguimos.
   O mdico colocou a mo no ombro de Zach.
   - Se ele conseguir chegar ao hospital, conseguiro salv-lo. Agente firme, ok?

   Jane tomou um gole do caf velho, fez uma careta e o colocou na mesa. Cody dormira no assento ao lado. Zach ainda andava de um lado para o outro. No parar desde
que ela chegara, a tempo de escutar quando falaram que ele teria de ficar na sala de espera enquanto Benjamin era medicado. Naturalmente, ele protestou. Zach no
era do tipo de desistir sem lutar. Jane interveio, e o levou para a rea de espera, onde ele andava de um lado para o outro desde ento. O medo e a preocupao em
seu rosto eram mais do que ela podia suportar.
   Ela se levantou, pegou a mo dele.
   - Sente-se, Zach. Voc est exausto e tonto, e toda essa agitao no vai ajudar Benjamin.
   Ele parou de andar, mas no sentou. Apenas a encarou, apertando a sua mo.
   - E se ele no conseguir? E se...?
   - Ele vai conseguir. No pode desistir agora, no depois de tudo. No consigo acreditar que fizemos tudo isso apenas para perd-lo no final.
   - J faz muito tempo. Duas horas. - Zach olhou em direo  porta. - Tenho de saber o que est acontecendo l.
   - Zach...
   Ele se soltou e foi em direo  porta. Mas antes que chegasse l, Dr. Mulligan saiu e segurou suas mos. Zach parou, inseguro, e Jane correu para ficar ao seu
lado. Passou o brao em volta dele, j que ele no parecia firme sobre os prprios ps.
   - Como est meu filho? - Sua voz era pouco mais que um sussurro rouco.
   - Ns o estabilizamos.
   - Ento ele est bem?
   - Ainda no. Ainda est em coma. Mas comeamos a intravenosa com triptonina. Assim que o remdio comear a fazer efeito, esperamos que ele volte.
   - Esperamos?
   - Senhor... - O mdico interrompeu, olhou para o pronturio, e depois para Zach. - Bolton, no podemos ter certeza de nada a esta altura. Se seu filho agentar
o suficiente para que o remdio faa efeito, conseguiremos salv-lo, mas ainda existe uma grande chance de isso no acontecer. Tenho de ser honesto sobre isso. Tem
de estar preparado.
   Jane sentiu o tremor que percorreu o corpo de Zach, e o abraou com mais fora. O brao dele passou em volta dos ombros dela, como se a agarrasse para sobreviver.
   - Continue - disse ele, quando conseguiu falar de novo.
   O mdico abaixou a cabea.
   - Mas se ele sobreviver, existe a possibilidade de leso cerebral. A febre estava muito alta quando chegou. No temos meios de saber como, ou se, isso o afetou.
S saberemos quando acordar. Ele deve ficar bem, Sr. Bolton. Mas existe uma possibilidade remota que as capacidades motoras e cognitivas sejam prejudicadas pelo
resto da vida. No podemos ter certeza ainda.
   - Entendo.
   - Pela manh j devemos ter alguma novidade. Zach assentu e quando o mdico j ia sair, levantou a cabea abruptamente.
   - Posso v-lo?
   - Claro. Ele ser levado para o quarto logo, ento ter de ser breve.
   Zach se moveu, ainda abraado  Jane.
   - Apenas famlia - disse o mdico educadamente.
   - Jane  da famlia - respondeu Zach.
   - V para casa, Jane. Voc precisa descansar.
   Ela, porm, no foi. Entrou no quarto completamente branco, com suas mquinas maravilhosas com luzes e bipes. Foi at a cadeira em que Zach estava sentado, e
gentilmente tirou a mo sem energia do filho da mo dele e a envolveu com carinho na sua.
   - Estive em casa. Trouxe uma muda de roupa para voc e algo para comer - disse ela, o olhar grudado em Benjamin.
   Ela tinha um cheiro bom. Fresca e limpa. Mudara a roupa, mas Zach sabia que no dormira. Conhecendo Jane, diria que correra at em casa e voltara por causa dele.
Ela colocou a mo de Benjamin por cima do lenol, e abriu uma pequena bolsa pendurada no ombro. Tirou um pote de dentro e uma colher.
   - Tome. Iogurte. Vai lhe fazer bem. Tambm trouxe uns biscoitos e...
   - Onde est Cody? Espero que no esteja dormindo naquela cadeira horrvel na sala de espera.
   - Uma enfermeira ficou com pena e deixou que eu o deitasse em uma cama vaga no quarto ao lado. S espero no ser cobrada por isso.
   Falara isso brincando, ele sabia, mas a lembrana de contas e afins fez com que ele tremesse. Em sua poca, tinha posses. Agora... no fazia idia de como comearia
a se arranjar. Mas no conseguia se preocupar com isso agora. No conseguia se preocupar com nada alm do filho, deitado naquela cama estranha, talvez  beira da...
   - Pai?
   Os dedos fracos deixaram o copo de iogurte cair no cho enquanto o corao disparava. Com os olhos arregalados, se virou devagar. Mas Benjamin no prestava ateno
nele. Em vez disso, olhava para Jane, como se visse um anjo. Ela tirou o cabelo da testa dele e se abaixou para beij-lo. Depois se afastou, dando espao para Zach.
   - Benjamin - sussurrou, engasgado em lgrimas. Ben tentou sentar-se, estendendo os braos para o pai, e Zach respondeu passando os braos em volta do corpo magro
e o abraando. - Voc est acordado. Graas a Deus, meu filho, voc acordou. - Suas palavras passaram a murmrios de agradecimento ao enterrar o rosto nos cachos
ruivos do filho e fechar os olhos para esconder as lgrimas.
   - Foi o remdio de Cody, pai. Ele disse que me faria ficar bom de novo e... - Ben recuou um pouco, encarando o pai. -  verdade? Eu realmente vou ficar bom?
   Mexendo nos cachos desalinhados, Zach assentiu.
   -  verdade.
   - Era o meu desejo, voc sabe. As estrelas cadentes... Sabia que no era cientfico quando as vi pela janela do quarto, mas fiz meus pedidos. E todos os trs
foram realizados! - Encostou-se aos travesseiros, suspirando. Zach sabia que ele ainda se cansava facilmente. Mas j havia um colorido saudvel em suas bochechas.
E os olhos voltaram a ter um pouco do brilho de antes.
   - Trs pedidos?
   - Isso! O primeiro, para que eu ficasse bom de novo, se realizou. Depois pedi um irmo mais velho, ento Cody apareceu. Ele prometeu que seria meu... - Benjamin
olhou em volta do quarto, e Zach fez o mesmo. - Mas... Ele no me deixou, deixou?
   - No, filho. Cody est tirando uma soneca no quarto ao lado.
   E aparentemente Jane decidira se juntar a ele. Devia ter sado para lhe dar um tempo sozinho com o filho. Benjamin franziu a testa, balanando a cabea.
   - No estamos em casa, estamos, pai?
   - No, filho, estamos em um hospital, muito longe de casa.
   Olhando para o lustre, Benjamin disse:
   - Devemos estar no lugar de onde Cody veio. Como ele podia saber disso? No importava.
   - Conte-me sobre seus outros pedidos. O que mais pediu? Seja o que for, vou conseguir para voc. Juro.
   Benjamin sorriu, e Zach esperou um pedido por um brinquedo novo, um animal de estimao ou algo parecido. Em vez disso, escutou:
   - Como eu disse, pedi um irmo mais velho, que sempre quis. Mas voc no precisa conseguir um. Cody  meu irmo agora.
   - ?
   - Hum, hum. Fizemos um juramento. Esses foram meus dois primeiros pedidos, e eles se realizaram. E s tem mais um. E acho que tambm j se realizou.
   Engolindo em seco, Zach murmurou:
   - Qual foi o terceiro pedido?
   - Uma me - sussurrou Benjamin, fechando os olhos e sorrindo. - Quero uma me de verdade, que viva conosco e que me ame para sempre. - Balanou a cabea e olhou
para o pai. - Sei que voc tem procurado h muito tempo, pai, mas nunca encontrou. Em todo caso, isso no importa agora, porque j escolhi uma.
   - J escolheu, foi?
   Benjamin assentiu e olhou na direo da porta, os olhos brilhando. Jane estava l, e Zach no teve dvidas sobre a identidade da mulher que o filho escolhera.
E ento Cody passou por ela e foi para o outro lado da cama. Os dois meninos conversaram animadamente, parecendo esquecidos da presena dos adultos no quarto. Jane
pegou o brao de Zach e o levou para o corredor.
   - Voc parece preocupado. Devia estar aliviado. Ele parece estar bem melhor.
   Analisando o rosto dela, Zach viu as reveladoras marcas de lgrimas.
   - Nunca vou conseguir entender a intensidade com que voc sente as coisas, Jane - murmurou ele, passando a ponta dos dedos nas marcas no rosto dela.
   - Com o que voc est preocupado? - insistiu ela.
   - Com um milho de coisas. Contudo, meu filho est bem, ento que direito tenho de reclamar? Moraria na rua e ficaria feliz.
   -  isso? Voc est se perguntando onde vai morar quando ele for liberado? Zach, voc sabe que  bem-vindo em minha casa por todo tempo que...
   Balanando a cabea, Zach se virou.
   - E por quanto tempo seria isso, Jane? Quanto tempo acha que vai levar para um homem como eu ganhar seu sustento atualmente? Nem sei por onde comear.
   - Zach voc  um gnio.
   - No. Eu era um gnio. Cercado pela tecnologia moderna, sou um imbecil. Voltei  estaca zero. Um homem sem riqueza e sem posio social. Nenhuma segurana. Nada
para oferecer a uma mulher... - Ele mordeu o lbio e parou.
   - Uma mulher? Zach, eu sei que voc sente saudades da Cludia, mas no pode nem pensar em voltar e traz-la...
   - Voc no consegue pensar em nada alm de Cludia? Ela piscou, surpresa pelo tom severo dele e Zach na mesma hora se arrependeu. Era to frustrante! Ah, mas
a quem devia culpar pelas idias erradas que ela formara? A ningum, a no ser ele mesmo.
   - S estou tentando mostrar como estou mal preparado para sobreviver sozinho, em meio  tecnologia da sociedade moderna. - Esperava que isso acobertasse seu deslize
e seus maus modos. Estava cansado demais para pensar agora, e muito frustrado por estar to perto dela sem toc-la. Lembrou-se de ela ter lhe contado que sua famlia
era uma das mais ricas do pas. Deus, sentia como se tivesse voltado no tempo.
   - Meu querido, voc viajou no tempo. Nenhum outro cientista conseguiu isso, nem com a ajuda de toda a tecnologia disponvel atualmente. Voc ainda  um gnio.
E vai encontrar um modo de ajustar seu crebro ao mundo atual. Tenho certeza.
   - Talvez...
   - Vou ajudar voc - disse ela. E ele sabia que ela queria dizer isso.
   - Por que voc  to boa para mim?
   - Passamos por muita coisa juntos. Eu... Gosto de pensar que somos... amigos. Alm disso, voc faria o mesmo por mim.
   Tiraria meu corao para voc, ele queria dizer. Mas  claro que no podia. No agora. Na verdade, talvez fosse melhor que ela continuasse acreditando que ele
gostava de Cludia.
   No que quisesse que ela pensasse isso. Queria dizer a ela... Acontecera o que nunca achara que fosse possvel ele se apaixonara por ela. Queria... Ah, Deus,
queria pedi-la em casamento. Benjamin a adorava. E ele tambm.
   Mas como podia pedir isso a ela? Sabia que ela estava querendo viver sem sua fortuna. E o que ela ia querer com um homem que estava a um passo de ser um mendigo?
No podia esperar que ela sustentasse a eles dois. No podia pedir isso a ela. Nem a si mesmo.
   Olhou para ela, cada parte de seu corpo implorando para que falasse que a amava, e no Cludia. Mas em vez disso, contraiu o maxilar e no disse nada.


   Captulo 14

   Droga, por que os homens tinham de ser uns completos idiotas? J vira isso neles. Ou pensou que vira. At agora. Mas chegou  concluso de que nenhum homem seria
capaz de perceber alguma coisa, a no ser que uma mulher explicasse. Ela tambm tinha seu orgulho. Orgulho era aceitvel, mas fatos so fatos. E o fato era que no
apenas seu corao seria despedaado se Zachariah sasse de sua vida. Cody ficaria desolado tambm. Amava Zach de uma forma insensata e considerava Benjamin como
seu prprio irmo. Perd-los o mataria. E Benjamin estava to encantado quanto Cody. Alm disso, o menino parecia ter se afeioado a ela. E, Deus, como se apaixonara
por aquele menino. Aqueles cachos ruivos e grandes olhos verdes e sorriso travesso. J estava em sua casa havia uma semana, e conquistara um lugar permanente no
corao de Jane. Ela o amava como se fosse seu prprio filho. E no o deixaria ir.
   Aquele cabea-dura do Zachariah estava quieto h dias, sofrendo de amor, sem dvida, por perder a bruxa por quem estava apaixonado. E quando no estava distrado
remoendo o amor perdido, estava planejando um jeito de sustentar-se em 1997. Jane no tinha nenhuma dvida de que quando ele tivesse alguma renda, pegaria o filho
e sairia de sua vida. E era por isso que no contara para ele o que descobrira naquele cofre velho que estava no sto. Se contasse, o perderia. Tinha esperanas
de que ele percebesse que pertencia a ela. Talvez at comeasse a am-la um pouco.
   Mas o idiota no percebera, mesmo depois de uma semana, e ela estava comeando a achar que ele nunca perceberia. Era hora de mudar de ttica.
   Alm disso, no podia esconder a informao dele por muito tempo. Mas decidira que quando contasse, contaria tudo. Era melhor apostar todas as fichas. Suas tticas
de adiamento no estavam sendo eficientes.
   Contaria para ele esta noite. J agentara bastante o vendo sofrer por outra mulher, sem nem mesmo not-la. J era mais do que suficiente, obrigada.

   Morar com ela o estava deixando louco! Droga, ela parecia sair de seu caminho para estar perto dele, atorment-lo com sua presena at ele achar que enlouqueceria
de tanto desejo. Ela precisava usar aquelas calas jeans justas o tempo todo? Precisava deixar aquele cabelo solto? No poderia prend-lo, como uma solteirona, s
uma vez? E por que o cheiro dela era to bom? Por que tinha de cantar no chuveiro? Por que tinha de ser to amorosa e cuidadosa com Benjamin, o que o deixava com
o corao derretido a cada vez que a via? Por qu?
   Ele a desejava. No apenas na cama, mas em sua alma. Achara que amara uma vez, mas a cada dia percebia como era pequeno seu anseio por Cludia, se comparado com
o sentimento real. Mas no contara a Jane. Era orgulhoso e no possua nada para oferecer neste momento. Estava ficando cada vez mais frustrado enquanto tentava
encontrar seu lugar neste mundo novo, descobrir onde se encaixava, achar um modo de se sustentar. Mas ainda no encontrara.
   Mas encontraria seu caminho e Jane seria sua. Mas essa espera o deixava doido.
   - Zachariah?
   Ele se virou para ver Jane parada na porta do escritrio. Pegou-a distrada, e neste instante, antes que os olhares se encontrassem, ele viu a dor que ela sentia,
gravada nos traos de seu rosto. Dor que ele causara. Inferno, ela gostava dele. E ele era um idiota de deix-la continuar acreditando que no sentia o mesmo. Naquele
momento, mudou de idia. No poderia esperar mais. Dane-se o orgulho. Dane-se seu sustento, ou falta dele. Lidaria com isso depois. Era importante, mas nada era
mais importante que seu sentimento por esta mulher.
   Jane mudara Cody de quarto, preocupada com a exposio prolongada  dobra do tempo. Benjamin ficou com o quarto ao lado do de Cody, embora passassem a maior parte
do tempo juntos em um dos quartos. Geralmente onde estivesse o Nintendo. Zach se arranjara no antigo quarto de Cody.
   Jane no estava sorrindo quando os olhares se encontraram. Deus, ele fizera algo que a deixara zangada. Ele merecia essa raiva por deixar que ela duvidasse dele
por tanto tempo. E no podia culp-la, podia?
   - Precisamos conversar - disse ela.
   - Eu sei. J protelamos muito.
   - No aqui. No quero acordar os meninos. L embaixo, ok? - E sem mais palavras, foi para o corredor, fechando a porta.
   Zach respirou fundo e se levantou, fechando o dirio onde registrava seus pensamentos. Jane sugerira que tentasse escrever, e comeara com a vida do morador mais
ilustre da cidade: ele prprio. Teria de escrever o final como se fosse fico, apesar de saber muito bem que no era. Jane assegurara que o projeto venderia e que
ganharia uma quantia substancial, mas era um processo longo, e precisava de algo enquanto isso.
   Estava impaciente, achando que no poderia esperar, que precisava de uma renda antes de contar para Jane como realmente se sentia, e sabendo que no podia esperar
muito mais para que Jane fosse sua. Se ela o quisesse.
   Balanando a cabea, ele desceu as escadas, se preparando para o pior.
   Jane estava pronta para a batalha. Estava de p com uma postura ereta quando Zach entrou na sala, e prometeu para si mesma que no teria pena do corao partido
dele.
   - Caf? - ofereceu ela, quando ele sentou.
   - No.
   - Tudo bem. Acho que devo ir direto ao assunto.
   - Se voc no se importa, gostaria de falar primeiro.
   - Gostaria?
   - Na verdade, sim, gostaria. Estou ensaiando isso h horas na minha cabea, e se no colocar para fora agora, nunca vou conseguir. - Jane andava pela sala, se
afastando dele com passadas largas, mexendo aquele quadril delicioso...
   - Tudo bem, se voc insiste. Devo admitir, voc aguou a minha curiosidade. O que poderia ter para me dizer que precisaria de tanta preparao? - Parou e respirou.
- Maldito seja voc, Zachariah. Voc tem de ser o homem mais cabea-dura e estpido que j conheci?
   - Espere um minuto! - Zach ficou de p e a parou quando ela passou, pegando seus ombros e fitando seus olhos brilhantes. - Sei que deixei voc furiosa comigo,
e sinto muito por isso.
   - Furiosa? Voc me deixou mais do que furiosa. Isso est alm da fria. Quero esbofete-lo. O modo como tem andado por a, como se tivesse uma nuvem negra sobre
sua cabea desde que saiu do sculo passado. Estou cansada de v-lo sofrer por aquela vadia egosta e sem juzo.
   Jane estava sem flego, mas ele podia ver que estava apenas esquentando.
   - Sinto muito por ter deixado voc acreditar que ainda estava sofrendo por Cludia. Foi imperdovel.
   - Foi mesmo, droga! Quando voc vai acordar e ver o que ela realmente ... Era, quero dizer. Ela abandonou o prprio filho. No apenas uma vez, mas duas. A segunda
vez quando tinha tudo para acreditar que ele estava em seu leito de morte. Deus, como um homem to inteligente quanto voc pode achar que est apaixonado por uma
mulher como aquela?
   - Eu no acho, Jane, nunca achei.
   - Bem, estou farta de ver isso. Estava esperando para ver se voc acordava porque no quero que voc me... nos deixe. Mas no agento mais isso. Sou duas vezes
mais mulher do que Cludia jamais foi, e j era hora de voc perceber isso.
   - Dez vezes! Fcil...
   - Eu no quero... O qu? - Jane parou de gritar, respirou fundo e o encarou.
   - Disse que voc  dez vezes mais mulher do que Cludia. Talvez cem vezes. E eu no estava sofrendo por ela. Na verdade, no pensei nela nenhuma vez desde que
chegamos aqui.
   - No?
   - No.
   - Bem, ento... Por que tem estado... to...
   - Deprimido? Ah, Jane, no tem nada a ver com Cludia. Juro. Ele deixou as mos carem sobre os ombros dela, olhou fundo nos olhos dela, para que ela pudesse
ver a sinceridade nos seus. No queria que ela duvidasse dele. Nunca mais. - De fato, tem algo que voc deve saber. Aquela noite, em que ela passou a noite no meu
quarto. Nada aconteceu entre ns. Ela queria, mas eu simplesmente descobri que no estava mais interessado.
   - No estava?
   - Voc parece to surpresa. Realmente me acha to ingnuo? Eu sabia que ela s me procurou por que minha riqueza e posio social de repente me tornaram mais
desejvel. E por que o marido rico morreu a deixando sem nada. Voc tem razo, ela  absolutamente egosta. Um corao feito de pedra... Se  que tem um.
   - Mas no entendo. Voc vem se remoendo todo esse tempo...
   - A razo  puramente financeira. Odeio ser um fardo para voc e para Cody.
   - Fardo - repetiu ela. - No ...
   -  verdade. E mais do que isso. Jane, tenho estado to para baixo porque no sei como lidar com o fato de que no tenho nada para lhe oferecer.
   - Nada para...
   - Mas decidi engolir meu orgulho porque no posso mais esperar para falar como me sinto.
   - Como?
   Zach sorriu.
   - Completamente apaixonado por voc. E irrevogavelmente dedicado a seu filho. E determinado a fazer com que sejam meus. Sei que minha situao  pssima agora,
mas vai melhorar. Sou um homem razoavelmente inteligente com um passado forte. Encontrarei um caminho.
   - Desculpe - murmurou ela. E por um momento o corao dele parou porque pensou que ela o rejeitaria. - Zach, no sei se voc vai me perdoar por isso... Mas...
   - Mas o qu? Voc no sente a mesma coisa? Jane, sei que sente. Posso ver nos seus olhos e sentir quando... - Ele no completou, pois no havia palavra forte
o suficiente para mostrar que eles deveriam ficar juntos. Ele a puxou para mais perto, abraou-a e beijou com tanta intensidade e paixo que ela no poderia duvidar
da verdade. O calor crescia e crepitava em suas veias quando as lnguas se encontraram e as mos dela passaram pelo cabelo dele enquanto saciava sua boca.
   Por fim, ele levantou a cabea e encontrou o olhar dela em chamas.
   - No me diga que no sente o mesmo por mim.
   - No ia dizer - respondeu ela, sem flego. Endireitou a coluna e delicadamente se soltou do abrao dele. - Nunca vou lhe dizer isso. Mas existe algo que voc
precisa saber.
   Como ela insistiu, ele a soltou, relutante. Ela foi at a mesa de centro, pegou uma pilha de papis antigos e entregou a ele.
   - Isso pertence a voc.
   - O qu... - Franzindo a testa, Zach os pegou.
   - Encontrei isso no cofre que estava no sto. O cofre em si j  uma Antigidade, mas sem valor, a no ser que fosse til, claro, ento chamei um chaveiro quando
me mudei. Encontrei essas coisas l dentro, guardei e esqueci. Nem pensei nelas at que voc e Ben vieram para ficar.
   Zach olhava os papis, assentindo conforme os reconhecia. Eles pertenciam a ele, todos eles. Aes, poupanas, ttulos, certificados de investimentos e afins.
   - Realmente no vejo que diferena pode fazer, Jane. Eles tm mais de cem anos, perderam o valor e...
   - Eles provavelmente valem uma fortuna.
   - O qu?
   - A maioria desses bancos ainda existe. Alguma dessas empresas nas quais voc investiu so multimilionrias hoje. Acredite em mim, entendo dessas coisas. Um sculo
de lucros ser uma quantia alta.
   Zach balanava a cabea devagar enquanto comeava a entender essas informaes. Tinha em suas mos a soluo para o que vinha lhe angustiando h dias.
   - Jane, pelo amor de Deus, por que no me contou isso antes?
   - Porque eu no queria que fosse embora.
   - Voc...
   - No queria perder voc. Ficava repetindo para mim mesma que se pudesse mant-lo aqui mais um pouco, talvez voc comeasse a sentir por mim o que eu sinto por
voc.
   - O que voc sente por mim? - Ele percebeu que ela ainda no falara o que sentia por ele. E ele esperou, sem pacincia.
   - Fiquei com medo que voc partisse e levasse Benjamin quando percebesse que tinha os meios. Eu o amo tambm.
   - Tambm?
   -  - murmurou ela. - Tambm.
   Zach balanou a cabea. Ela respirou fundo, enquanto o fitava e assentia.
   - Lentamente eu estava enlouquecendo por desejar tanto voc, precisar de voc... Amar voc, Jane... Mas me convenci de que no poderia pedir at que tivesse algo
para lhe oferecer...
   - Voc poderia vir para mim s com a roupa do corpo, Zachariah. No percebe... - Ela piscou, respirou: - Pedir o qu?
   - Pedir para que seja minha esposa, Jane. Para ser a me que Benjamin nunca teve e que tanto deseja. Para me deixar ser o pai de Cody. Para me deixar amar voc
pelo resto da minha vida. Voc aceita, Jane?
   Ele viu os lbios dela tremerem, os olhos se encherem de lgrimas.
   - Diga sim! - gritaram duas vozes juntas.
   Duas formas escondidas na escada os observavam. Ben e Cody desceram o que faltava, hesitando um pouco no p da escada, braos dados. Duas cabeas cobertas por
cachos ruivos, dois pares de grandes olhos verdes, dois rostos sardentos. Dois corpos fortes e saudveis, um ligeiramente maior do que o outro. Eram irmos de alma.
Estavam sorrindo, esperando a resposta de Jane, to ofegantes quanto Zach.
   - Diga sim, Jane - sussurrou Zach, segurando o queixo dela com o indicador e puxando o olhar dela de encontro ao seu.
   - Sim - disse ela.
   Os dois meninos comearam a comemorar e correram, abrindo espao entre eles e os forando a se separar.
   - Um pai! - exclamou Cody, se jogando nos braos de Zach e o abraando forte. - Eu tenho um pai!
   Zach teve de engolir o n que se formara em sua garganta, mas depois ficou impossvel quando virou e viu Benjamin, os braos agarrados ao pescoo de Jane enquanto
ela o abraava.
   - Posso chamar voc de me? - sussurrou Ben, no ouvido dela.
   -  melhor que chame - disse ela, e as lgrimas escorriam por seu rosto. O olhar dela encontrou o de Zach por cima da cabea dos meninos. E ele sabia que o seu
filho devia estar chorando tambm. Gentilmente, afastou Cody, os olhos grudados nos de Jane ao aproximar-se dela. Ela colocou Benjamin no cho e deu um passo na
direo de Zach. Encontraram-se e os braos dele a envolveram. Ento ele a beijou, como vinha desejando h tanto tempo que at parecia uma eternidade.
   - Por acaso, j falei que amo voc, Jane? - perguntou ele. Sem ter certeza se ela o ouvira com os gritos de felicidade dos meninos.
   - Nunca  demais repetir - disse ela.


   Eplogo

   - Quem, querido Sterling - disse Kate Fortune com os olhos brilhando. - No disse que Jane encontraria seu amor naquela casa?
   - Voc sabe perfeitamente bem que se referia ao antiqurio e ao clima antigo, e no ao viajante do tempo.
   - No tenha tanta certeza.
   - No havia como saber que tudo isso aconteceria - disse Sterling.
   - No se esquea de que morei naquela casa.
   - Voc est dizendo que... sabia... sobre o portal? Ela deu de ombros e se levantou.
   - Estou muito preocupada com Natalie. Tenho a sensao de que ela precisa de mim. Vamos ver como ela est.
   - Kate... - Balanando a cabea, Sterling comeou a andar de um lado para outro. - A idia  mant-la longe da famlia. Mas voc insiste em pular de um neto para
outro como uma fada madrinha! Estou tentando mant-la viva.
   - Mas estou me divertindo estando morta! E alm disso, nunca tive tanta liberdade para me intrometer. E maravilhoso! Venha c, vamos planejar nossa viagem. Acredito
que Natalie j foi responsvel e sozinha por tempo suficiente.
   - Talvez eu possa enviar um bilhete annimo avisando do furaco que passar pela vida dela.
   - Mas  muito mais divertido quando  surpresa, no acha?
   - Voc sempre me surpreende, Kate!
   - Isso  bom, Sterling. E espero sempre continuar surpreendendo.

   FIM
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
